Valpolicella além do rótulo, por Eduardo Araújo
Área clássica preserva diversidade de solos e microclimas ignorados pelo mercado
O nome Valpolicella está em praticamente toda lista de vinho do mundo. Aparece em menus de pizzaria, em prateleiras de supermercado e em cartas de restaurantes estrelados. É exatamente aí que mora o problema: quando uma região serve a tantos mercados ao mesmo tempo, ela corre o risco de não servir bem a nenhum.
O Valpolicella que conhecemos hoje é em grande parte uma criação do pós-guerra, expandido para atender uma demanda que não tinha paciência para esperar. A área de produção cresceu, as cooperativas dominaram o volume, e o vinho que deveria contar a história de um lugar passou a contar a história de um mercado. Leve, rápido, previsível.
Mas existe outro Valpolicella. Que precisamos voltar algumas casas para entender.
A zona Clássica é a original, formada por cinco vilas ao noroeste de Verona: Negrar, Marano, Fumane, Sant'Ambrogio e San Pietro in Cariano. Esse recorte geográfico não é por acaso. O terroir foi moldado por camadas de história geológica que raramente se combinam num espaço tão compacto: sedimentos de um antigo mar, depósitos glaciais do Quaternário, calcário rico em fósseis marinhos. O resultado é uma diversidade de solos que varia de vale para vale.
São cinco vales cortando as colinas no sentido norte-sul, cada um com exposição solar, altitude e composição de solo distintos. O Vale de Negrar tem solos mais argilosos e vinhos de maior estrutura. Fumane, com calcário e basalto, tende à mineralidade e ao frescor. Marano guarda algumas das vinhas mais antigas da região. Essa não é uma região uniforme. É uma colcha de retalhos de microclimas que deve ser mencionada.
As principais uvas que definem esse terroir são três: Corvina, a espinha dorsal dos blends, com seu perfil de fruta vermelha vibrante e acidez natural elevada; Corvinone, prima mais encorpada e de maturação mais lenta; e Molinara, hoje em declínio, mas que historicamente trazia leveza e acidez ao conjunto. São uvas que se adaptaram ao local ao longo dos séculos.
O paradoxo central de Valpolicella é que uma das regiões com maior potencial de terroir da Itália convive com uma produção industrial que apaga exatamente o que a torna especial. Vinhos padronizados de alta produtividade dominam os números. A elegância que o solo e o clima poderiam entregar é substituída por uma fruta simples e sem identidade.
Mas há produtores que estão mudando essa lógica.
Giuseppe Quintarelli foi o patriarca que nunca cedeu às pressões do mercado. Seus vinhos de Valpolicella, produzidos com rigor absoluto e longos envelhecimentos, definiram o que a região poderia ser antes que a maioria soubesse disso. Romano Dal Forno levou a obsessão pelo vinhedo único a um outro nível, com seleção extrema de uvas e um Valpolicella Superiore que rivaliza com os grandes tintos italianos sem pedir desculpas pelo preço ou pelo estilo.
O nome que mais desperta atenção hoje é Monte dall'Ora. Carlo e Alessandra trabalham vinhas velhas em San Pietro in Cariano, solos calcários cheios de fósseis, exposições perfeitas nas suas vinhas em patamares e a precisão do cultivo biodinâmico. Os vinhos têm leveza de textura sem perder profundidade, acidez que sustenta anos de guarda, e uma identidade que não tenta imitar ninguém. São vinhos que mostram o Valpolicella pelo que ele é, não pelo que o mercado esperava que fosse. Seu San Giorgio Alto é um dos vinhos mais interessantes que apareceram na minha taça ultimamente.
Essa tensão entre o volume e o terroir não é exclusiva da região. Acontece em Chianti, acontece em Chablis, acontece em toda denominação que cresceu rápido demais. O que diferencia Valpolicella é que o potencial ainda está lá, intacto, esperando nos cinco vales quem tenha paciência para ouvi-lo.
Da próxima vez que ver Valpolicella numa carta, vale a pena perguntar de onde vem. Se a resposta for com um Monte Dall’ora, por exemplo, pode mudar tudo.
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Sobre o autor
Eduardo Machado Araujo
Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers
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