00:00
21° | Nublado

“Objetos sólidos” e o ser capturado, por Luzia Almeida
Reflexão literária mostra como pequenos objetos e desejos podem dominar escolhas, destruir sonhos e alterar destinos

“Objetos sólidos” e o ser capturado, por Luzia Almeida
Entre cacos de vidro, paixões silenciosas e metáforas sobre o comportamento humano, o texto de Luzia Almeida percorre clássicos da literatura para discutir obsessão e fragilidade emocional. (Foto: Pixabay)

Publicado em 22/05/2026

Há contos interessantes no universo literário e há contos que driblam o universo por sua complexidade. Contos que revelam o azul plácido do mar, mas escondem sua profundeza: assim é a obra “Objetos sólidos” de Virgínia Woolf e toda a profundidade que seu texto encerra desbrava a natureza humana... tão vulnerável e pronta a ser capturada.

A paixão é uma grande caçadora, a paixão que envolve um sentimento por outra pessoa, mas esta paixão não é a única. Coisas podem capturar-nos, primeiro os olhos, depois toda o corpo sem deixar espaços para metonímias e eufemismos. Pensando bem, quando alguém é capturado já não há espaços para eufemismos se a hipérbole passou a imperar. O imperador de John — personagem do conto — começou seu império num momento em que o rapaz deveria se dedicar à política. Seu imperador “Era um caco de vidro, tão grosso a ponto de se tornar opaco; tudo o que fosse forma ou gume já se gastara por completo com o alisamento do mar, sendo impossível dizer assim se havia sido garrafa, vidraça ou copo; não era nada, a não ser vidro; era quase uma pedra preciosa”. O caco capturou John.

A captura aconteceu pela visão: “Visto repetidas vezes e de modo semiconsciente por uma cabeça que pensa noutra coisa, qualquer objeto se mescla tão profundamente à substância do pensar que perde sua forma verdadeira e se recompõe com alguma diferença numa feição ideal que obseda o cérebro, quando menos se espera”. “Obsedar significa importunar com assiduidade excessiva”, obsedar é verbo-caim, é verbo que faz morrer as boas práticas por motivos que vão além da inveja. Obsedar é palavra ferina que convida para o campo e executa. Pobre John foi convidado por um caco.    

O conto de Virgínia Woolf é uma trilha que só podemos iniciar no começo da manhã, pois haverá muitos cansaços ao longo do caminho. Cansaços e comparações que, às vezes, provocam dor quando somos também envolvidos em lembranças que apontam nossa própria vulnerabilidade. O personagem John foi capturado por um caco de vidro e largou seu sonho para ser caçador de lixo. O projeto político que ele havia construído com seu amigo Charles desmoronou. Quando Charles percebeu que o amigo não tinha mais um norte, já era tarde e o acúmulo de cacos já se podia observar em cima da lareira. Tudo estava perdido.

Todavia esse não é o único conto que revela vulnerabilidade humana a partir do verbo obsedar, também a Lygia Fagundes Telles nos premiou com o conto “Venha ver o pôr do sol” e revelou na personagem Raquel a fraqueza pelo caco Ricardo; Luís Fernando Veríssimo também nos premiou com “O nariz” e revelou num dentista (personagem) a fraqueza por um nariz de borracha. São muitos os cacos e os narizes espalhados na Literatura e no Brasil ávidos por presas, alguns narizes lembram Pinóquio principalmente neste momento em que as eleições se aproximam. É saudável guardar os olhos e os ouvidos das promessas e dos discursos sem fundamento. John foi capturado, mas Charles seguiu em frente porque os cacos espalhados em cima da lareira não eram atraentes, eram desprezíveis.

E então? O que faremos para desviar dos cacos e dos narizes? A ideia de escudo vem do apóstolo Paulo quando disse: “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1 Co 6.12).

 

P.S. TODOS OS CONTOS CITADOS ESTÃO COM LINK DE DIRECIONAMENTO PARA OS MESMOS

 

Se gostou deste conteúdo, clique AQUI e leia outros temas da colunista Luzia Almeida.

 

 

Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI

Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.

Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!

Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp

Comentários via Whats: (48) 99162 8045

Siga-nos no Google notícias

Google News


Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


Ver outros artigos escritos?