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Cinema catarinense ganha o olhar de Ligia Walper
A diretora gaúcha fala sobre sua história nos bastidores da TV e do cinema e o novo momento criativo que a leva ao gênero do terror

Cinema catarinense ganha o olhar de Ligia Walper
Com mais de 40 anos no audiovisual, Ligia Walper estreia como diretora de longa-metragem com “Edifício Bonfim”, obra rodada em Florianópolis que mistura terror, drama e folclore catarinense. (Fotos: Maria Eduarda Prado)

Publicado em 23/05/2026

Com mais de quatro décadas dedicadas ao audiovisual brasileiro, a gaúcha Ligia Walper construiu a sua história marcada pela versatilidade e pela presença constante nos bastidores de importantes produções do cinema e da televisão. Jornalista de formação, atuou como roteirista, produtora executiva, montadora e diretora, acumulando experiências que começaram ainda nos anos 1980, na então TV Gaúcha, atual RBS TV. Ao longo da carreira, dirigiu programas de grande alcance, como Jornal do Almoço, Fantástico e Galpão Criolo, além de participar da produção de longas, curtas e projetos culturais que ajudaram a fortalecer o audiovisual no Sul do país.

Sócia da Walper Ruas Produções, ao lado do escritor e cineasta Tabajara Ruas, Ligia também se consolidou como uma das profissionais por trás de obras que preservam a memória e a identidade regional brasileira. Premiada em festivais como Gramado e Recife, ela participou de produções como “Netto Perde Sua Alma, Brizola — Tempos de Luta” e “A Cabeça de Gumercindo Saraiva”. Agora, depois de 45 anos dedicados ao cinema e à televisão, estreia na direção de um longa-metragem com Edifício Bonfim, filme realizado em Florianópolis que mistura terror, drama e elementos do folclore catarinense inspirados no universo de Franklin Cascaes.

Lembrando que o longa-metragem catarinense Edifício Bonfim terá novas sessões em Florianópolis nos próximos dias. O filme será exibido na Sala de Cinema Gilberto Gerlach, no Centro Integrado de Cultura (CIC), nos dias 23, 24, 26, 27, 28 e 29 de maio, sempre às 19h30. Os ingressos custam R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia-entrada, com vendas pelo Sympla, sem taxas adicionais.

 

Conhecida pelos bastidores de produções da televisão e do cinema brasileiro, Ligia Walper agora assume a direção de “Edifício Bonfim”.

 

Confira a entrevista completa:

Imagem da Ilha: Você cresceu cercada pelo universo do cinema e da televisão? Em que momento percebeu que o audiovisual se tornou parte da sua vida?

Ligia: Eu não cresci cercada pelo universo de cinema e televisão. Na verdade, eu sou de uma geração anterior, né? A gente foi ter televisão em casa, eu já era grandinha, mas eu me lembro que, logo que ela entrou lá em casa, eu devia ter uns 12 anos, obviamente a gente se apaixonou por aquele veículo. Começamos a ver seriados, não eram nem séries, eram seriados, tipo o “Vigilante Rodoviário”, esse tipo de coisa. Eu fui passar a conviver com o cinema e televisão já quando eu comecei a ir ao cinema, também nessa faixa dos 12 anos. Os meus pais nos levavam bastante ao cinema. Naquela época tinha muito cinema de rua no nosso bairro, tinha meia dúzia de cinemas, a gente ia variando, cada fim de semana ia num. Então, no cinema, a gente ia bastante.

Mas o audiovisual passou a fazer parte da minha vida quando, de fato, eu entrei na faculdade, porque eu fui fazer jornalismo, que, na época, o curso de graduação era jornalismo gráfico e audiovisual, não havia uma divisão entre cinema, entre TV ou mesmo jornal em papel.

As aulas que eu mais amava eram as aulas de audiovisual, as aulas de TV, e aí, quando surgiu uma oportunidade de trabalhar, a minha primeira oportunidade de trabalhar na área foi na RBS TV, que, na época, ainda se chamava TV Gaúcha, em Porto Alegre, e eu fui ser assistente de produção do Jornal do Almoço. Então, esse mundo me ganhou de vez.

 

Imagem da Ilha: Depois de tantos anos trabalhando nos bastidores de grandes produções, como foi, emocionalmente e profissionalmente, assumir pela primeira vez a direção de um longa para o cinema?

Ligia: Assumir a direção de um longa, para mim, foi uma coisa muito tranquila, porque, na verdade, eu vivencio a direção desde o início, né? Porque, quando a gente trabalha em TV, tu é obrigado a fazer todas as etapas. Tu pensa uma pauta, tu escreve o roteiro, tu vai para rua, tu grava, depois tu volta, tu edita. Então, isso é um trabalho de direção, só não tem esse nome.

Aí, depois, na medida que eu fui crescendo profissionalmente, eu dirigi vários programas na televisão, curtas-metragens e até grandes produções com duas horas de duração. Então, eu já tinha essa experiência com direção. E também, até um curta metragem ainda em película eu fiz. Então, essa passagem foi muito tranquila, foi como se fosse, assim, uma culminância.

A nossa empresa já fez sete longas metragens, incluindo o Edifício Bonfim. E, há tempos, queríamos passar a fazer trabalhos com temas mais atuais, menos focados em histórias com fundo histórico, porque os nossos outros filmes são muito com o fundo histórico, os outros longas metragens, os anteriores. Esse é o primeiro moderno e também é uma virada, porque, assim, os outros foram dirigidos pelo Tabajara Ruas e esse fui eu.

 

Imagem da Ilha: Depois de tantos trabalhos ligados a narrativas históricas, o que despertou em você o desejo de mergulhar no terror e no fantástico com “Edifício Bonfim”?

Ligia: Depois dos trabalhos históricos, mergulhar no terror e no fantástico, na verdade, foi uma oportunidade. A gente já tinha esse roteiro, a gente vinha trabalhando nele já há algum tempo e, quando surgiu esse edital, a gente achou que era o momento de colocar, porque Florianópolis tem tanto essa tradição das lendas, mitos, mitologia profunda a partir dessa imigração portuguesa e isso, eu acho, foi colocado no filme de uma maneira que se intercala, de uma maneira transversal no filme.

 

Imagem da Ilha: Florianópolis aparece quase como um personagem do filme. Em que momento surgiu a ideia de transformar a cidade e suas lendas em parte central da narrativa?

Ligia: Então, esse raciocínio de Florianópolis como um personagem, como uma parte central da narrativa, eu acho que um pouco eu já falei na resposta anterior, mas é que Florianópolis tem uma importância muito grande na nossa vida, a gente já está aqui há mais de 20 anos, aliás, na verdade, há mais de 30 anos, e sempre ouvimos essas histórias de bruxas, de aparições e coisas do gênero, que, como se sabe, foi uma coisa que o Franklin Cascaes coletou bastante, compilou a partir dessa tradição oral e fez esculturas, desenhos, então deu para beber um pouco nisso.

Mas a ideia de que Florianópolis também fosse quase que um personagem do filme tem um pouco a ver com uma questão política. Como a gente ganhou um prêmio da Fundação Catarinense, um prêmio aqui em Florianópolis, eu acho que a gente tinha que usar profissionais, usar cenários, usar o que fosse possível da cidade. E essa cidade é tão bonita, é uma marca dela, essa beleza, essa profunda beleza geográfica que tem tudo a ver colocar isso como um pano de fundo, ou nem tão de fundo, dentro do projeto.

 

O filme, rodado em Florianópolis, mistura terror, drama, humor ácido e elementos do folclore catarinense.

 

Imagem da Ilha: O filme mistura bruxas, serial killers, criaturas e elementos sobrenaturais. Como vocês equilibraram terror, fantasia e até humor dentro da mesma obra?

Ligia: Esse equilíbrio entre terror, fantasia e até humor no mesmo projeto, eu acho que foi o que eu chamaria de um exercício cinematográfico diferenciado. Porque deu para a gente trabalhar com gêneros diferenciados, né? Inclusive na própria narrativa. Então, a primeira história, que trata do assunto do tenente, ela é uma história que tem um ritmo de um policial.

A segunda história poderia ser essa fantasia, mas eu acho que ela é quase assim meio um "road movie", um filme de a pessoa sair, caminhar, passear em trilhas e coisas desse tipo.

E o terceiro é esse humor negro. Então, eu acho que a gente teve essa possibilidade de trabalhar com gêneros diferentes dentro de uma mesma obra, única. Porque o fato desses personagens transitarem entre a obra e também o filme começar com uma reunião de condomínio, que já apresenta esses personagens, eu acho que então é aí que a coisa se reúne.

 

Imagem da Ilha: “Edifício Bonfim” foi totalmente rodado com elenco e equipe ligados à região. Qual era a importância de construir um filme tão conectado à identidade catarinense?

Ligia: Bom, a importância desse filme conectado à identidade catarinense, eu já até citei antes. Eu fiz questão que o elenco fosse 100% catarinense e a equipe é quase toda catarinense, as locações todas são aqui em Florianópolis. A gente só rodou em externas, nós não construímos cenários.

A gente, claro, adaptou os apartamentos, por exemplo, que foi uma filmagem lá em Jurerê, no Il Campanario Villaggio Resort (conferir nome do hotel), foi uma sessão maravilhosa, foi uma gentileza deles. Mas fizemos cenografia, não construímos nenhum cenário e sempre quisemos usar só locação mesmo. Até porque o filme era um filme de orçamento mais baixo, não teria condições de construir coisas.

 

Imagem da Ilha: O terror brasileiro vive um momento de crescimento nos cinemas e streamings. Na sua visão, por que o público voltou a se interessar tanto por histórias desse gênero?

Ligia: Eu vou te falar que o terror brasileiro, não sei se o público voltou a se interessar, eu acho que nunca houve quem não se interessasse. Se a gente pensar lá no comecinho, assim, Frankenstein, aqueles filmes alemães, preto e branco… Eu acho que o terror nunca perdeu público, nunca deixou de ser um viés interessante para o público. E o cinema brasileiro nunca se voltou muito para isso, agora que têm vindo cada vez mais histórias, então vamos aproveitar e vamos nesse barco.

 

Imagem da Ilha: Existe alguma cena, personagem ou momento do filme que represente especialmente aquilo que você queria provocar no espectador?

Ligia: Olha, se existe uma cena que eu adoro, na verdade, tem várias cenas que eu adoro. Eu acho que o personagem da Daniela fala muito sobre essa loucura da vida atual, que as pessoas vão mergulhando, mergulhando, mergulhando em coisas da internet e vão pirando. Eu também gosto muito do senso de humor da história do formando. Acho que ela tem elementos mais de perspicácia.

Na história do tenente, a coisa desse confronto com a criatura, ela torna um negócio absolutamente inverosímil, mas, ao mesmo tempo, fica convincente. Então, eu acho isso também muito legal. Mas, se eu for escolher uma cena, e isso talvez não seja bom de publicar, porque é quase um spoiler (risos), eu adoro o final do filme quando ela diz: "Eu vou adorar morar aqui, vou adorar viver aqui no edifício", porque é o triunfo, vamos dizer assim, de uma mulher, em cima de toda essa história que vinha se desenrolando no filme.

A diretora Ligia Walper ao lado dos protagonistas Sandro Maquel, Gabi Petry e Vinicius Wester na estreia de “Edifício Bonfim”, no Paradigma.

 

Imagem da Ilha: O filme fala sobre monstros e situações assustadoras, mas também parece discutir medos humanos muito reais. Quais camadas você acredita que o público vai encontrar por trás do terror?

Ligia: Várias pessoas têm me falado sobre essa coisa das camadas, sobre esse terror, não o visceral, mas esse terror psicológico, porque as pessoas têm muitos medos, criam muitas fantasias. Então, eu comentei agora na resposta anterior sobre isso da Daniela, que foi a que mais pirou, vamos dizer assim, com essa história, sendo que o formando, ele é um cara totalmente fora da realidade, né? Fora da casinha. Imagina alguém se formar em serial killer? Mesmo que isso não exista, apenas o fato disso ser tratado com normalidade ali dentro daquela história, do desenvolvimento daquele personagem, é uma coisa absolutamente psicopata.

 

Imagem da Ilha: Depois dessa estreia como diretora de longa-metragem, o que muda na Ligia Walper artista e quais histórias você ainda sonha levar para o cinema?

Ligia: Olha, vou te falar uma coisa, depois dessa estreia como diretora, não muda nada (risos). Eu vou continuar trabalhando muito, eu continuo sendo produtora executiva, eu estou com uma série de ideias e de projetos andando aí nas mais variadas esferas. Então, eu espero continuar trabalhando muito para continuar levando não só o que eu sonho, mas sonhos para o cinema.

Eu tenho uma série de ideias, mas não tem por que dizer quais seriam agora, porque ainda não estão consolidadas. Mas, uma coisa importante, eu não quero mais fazer filmes históricos, realmente eu quero agora aproveitar essa nova direção, vamos dizer assim, da produtora, e tocar mais com essas histórias mais atuais.


 

Entrevista,  decupagem e edição: Carolina Beux

Edição final: Hermann Byron Neto

 

Da redação

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