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Antonio’s atravessa gerações na gastronomia da Ilha
Há 41 anos na cozinha, Antônio Carlos Correia acompanhou o crescimento do turismo e da culinária da Capital

Antonio’s atravessa gerações na gastronomia da Ilha
Fundador do Antonio’s Restaurante, Antônio Carlos Correia, relembra os desafios do início da carreira e a evolução da gastronomia em Florianópolis. Na imagem, o chef Antônio aparece ao lado de uma das 10 auxiliares da equipe enquanto coordena os pedidos do salão, que atendia 251 clientes no momento do registro. (Fotos: Acervo pessoal/HBN/imagemdailha)

Publicado em 08/06/2026

Há quatro décadas, Antônio Carlos Correia acompanha de perto as transformações de Florianópolis e da gastronomia da Ilha. Natural de Lages, ele chegou à Capital ainda muito jovem, no início dos anos 1980, para trabalhar em um restaurante da família em Canasvieiras. O que seria apenas uma temporada acabou se transformando em uma trajetória construída entre cozinhas, salões lotados e pratos que atravessaram gerações.

Fundador do Antonio’s Restaurante, inaugurado em 1985, Antônio viu a região Norte da Ilha crescer, o turismo se fortalecer e os hábitos dos clientes mudarem ao longo dos anos. Entre temporadas intensas, dificuldades para encontrar funcionários, mudanças de endereço e a consolidação da culinária à base de frutos do mar, ele ajudou a transformar o restaurante em uma das referências gastronômicas de Florianópolis.

 

Chef Antônio em seu restaurante na década de 90.

 

Nesta entrevista, Antônio relembra os desafios do início da carreira, fala sobre a relação com a cozinha manezinha, a criação de pratos que marcaram a história da casa e revela por que, depois de tantos anos, ainda prefere o calor do fogão à parte administrativa do negócio.

Imagem da Ilha: Como tudo começou: O que motivou o senhor a entrar na gastronomia?

Antônio: Na verdade, meu tio me convidou para trabalhar com ele no restaurante que ele tinha em Canasvieiras, na década de 1980, e eu vim com ele para trabalhar uma temporada, mas nunca mais voltei para minha cidade.

Imagem da Ilha: Há quanto tempo atua na cozinha profissionalmente?

Antônio: Na cozinha, há cerca de 41 anos. Logo que eu abri o restaurante, eu já tive que ir para a cozinha. Na verdade, a minha primeira esposa era cozinheira e eu cuidava do salão. Mas depois ela ficou doente e eu tive que “tapar buraco” na cozinha e acabei nunca mais saindo.

Imagem da Ilha: Quais foram as maiores influências na sua forma de cozinhar?

Antônio: As maiores influências vieram aqui da ilha mesmo, da cozinha manezinha, né? Eu até fiz alguns workshops com chefs de fora, mas eu acho que as coisas vão acontecendo assim… Não tive uma influência específica, mas eu acho que é mais a culinária manezinha, a de peixe mesmo, que eu gostei. Tanto que a gente é mais conhecido por ser um restaurante de frutos do mar.

Imagem da Ilha: Como surgiu a ideia de abrir o Antonio’s Restaurante em 1985 e como foi o início naquela época?

Antônio: Bom, quem trabalha em restaurante, de garçom, de cozinheiro, sempre tem o sonho de ter o próprio restaurante, né? Em 1984, eu tinha recém-casado e daí eu conheci o dono de um hotel, o Hotel Praias Brancas. Ele frequentava o restaurante e eu sempre o atendia. E a gente ficou amigo, até hoje, né? Hoje ele está com 90 e poucos anos.

 

Cliente (camisa azul) tradicional da casa nos anos 90, era presença constante no restaurante e mantinha uma relação de carinho com toda a equipe.

 

Daí, um dia, eu perguntei como ele sempre conseguia mesa para os clientes dele. Na época, não tinha tantos restaurantes em Canasvieiras, então era disputado sempre… Quando conseguia, a gente dava um desconto para os hóspedes do hotel. Daí, um dia, eu perguntei para ele se não tinha restaurante no hotel. Ele disse: “No ano que vem vai ter, você não quer tocar o restaurante?” E eu, imagina, tinha 20 anos, nem isso. Eu disse: “Sim, ah, vou, vou tocar”… Mas nem passou pela cabeça, né?

Quando chegou junho/julho daquele ano, de 1985, o sobrinho dele, o Jorge, chegou no restaurante e eu estava lá trabalhando. Ele disse: “O tio disse que é para você ir lá ver o restaurante que está quase pronto”. Na hora me deu um frio na barriga, mas eu fui e as coisas foram se acertando.

Infelizmente, meu tio, que era o dono do restaurante em que eu trabalhava, havia falecido, e já era eu quem estava cuidando do restaurante. Então tinha a tia, de quem eu gostava muito, e eu pensava: “Como é que eu vou deixar a tia?” Ela era professora, não entendia nada de restaurante, mas aí a minha mulher disse: “Não, a gente vai e depois ajuda ela aqui. Tu faz as compras para ela e tal”. Foi assim no começo e deu certo.

Imagem da Ilha: Quais foram os principais desafios no começo do restaurante?

Antônio: Os principais desafios, na época em que eu abri o restaurante, principalmente no primeiro ano, é que aqui na Cachoeira não tinha casas para alugar, não tinha nada, pouca gente morando, e encontrar pessoas para trabalhar era difícil.

Eu tive que trazer um pessoal de fora e alugar uma casa para todo mundo morar junto: funcionário, patrão, todo mundo… Porque não havia gente para trabalhar e nem lugar para alugar. Só tinha casas de aluguel de temporada, então era muito complicado. Esse começo foi bem difícil.

 

Antônio relembra os desafios para encontrar funcionários no começo do restaurante, cenário bem diferente da operação atual, com equipe estruturada e funcionamento permanente.

 

Imagem da Ilha: Na época da inauguração, como era o movimento e o público? O restaurante começou atendendo quantas pessoas, em média? E agora, qual é a capacidade de atendimento da casa?

Antônio: Naquele primeiro ano era só temporada, né? Era um restaurante voltado para a temporada. Então deu muito movimento, graças a Deus. Foi bem movimentado, mas foi na época da hiperinflação. Logo depois houve o congelamento de preços, em 1986, então era difícil conseguir mercadoria.

Olha, foi muito complicado, muito complicado mesmo. E, na época, no restaurante cabiam umas 120 pessoas. Ele não era muito grande e vivia lotado. Apesar de eu já ter a experiência do restaurante do meu tio, foi bem difícil no começo. E a temporada era curta.

Eu me lembro que, no dia 28, tinha fila na porta do restaurante e, no dia primeiro de março, acho que a gente atendeu umas três mesas. Quinze dias depois, a gente fechou o restaurante porque não tinha ninguém. Nada, nada. A temporada era de dois meses mesmo.

Imagem da Ilha: O que a nova estrutura, inaugurada em 2004, trouxe de diferencial?

Antônio: Na verdade, o restaurante passou por três lugares nesses 40 anos. O primeiro foi no hotel, onde ficamos três anos, três temporadas, já que durante o ano não abria. Na verdade, a gente passou a morar no restaurante, porque tinha um quarto lá. Então a gente morava lá e atendia os apartamentos, mas era só o público do hotel e era pouco, uma coisa insignificante.

Depois, mudou o dono do hotel e ele não queria que atendesse o público de fora, só os hóspedes do hotel. Eram pouquíssimas pessoas, então não valia a pena. A gente saiu para uma outra sala próxima ao hotel. Ali, a gente ficou 16 anos e, depois, em 2004, se mudou para o endereço atual.

 

Casa cheia marcou o Dia das Mães no restaurante Antonio’s, na Cachoeira do Bom Jesus (atual endereço).

 

Foi uma mudança radical, porque o outro restaurante era muito simples. Acho que, na época, fomos um restaurante com um conceito diferente, mais sofisticado, com atendimento e estacionamento, coisa que a gente não tinha antes.

Começamos a ter mais clientes locais, porque antigamente a gente abria primeiro só na temporada e, depois, passou a funcionar por períodos maiores. Abria no dia primeiro de outubro e fechava no domingo de Páscoa. Depois passamos a abrir o ano todo. E fechávamos um mês para férias, mas depois da pandemia a gente passou a não fechar mais.

Também mudou o público. A gente começou a atender mais o pessoal da cidade nos finais de semana. Então foi uma mudança bem radical.

Imagem da Ilha: Mesmo com um cardápio variado, os frutos do mar são destaque. Por quê?

Antônio: O cardápio é uma Bíblia (risos). É muito variado. Isso vem porque, há uns 20 anos, não tinha muitos restaurantes. Era Canasvieiras e Ponta das Canas, um ou outro barzinho de praia, e a gente tinha que ter de tudo um pouco para segurar o cliente no restaurante.

Então, tínhamos um pouco de massa, um pouco de carne, um pouquinho de frango, mas o que a gente sempre vendeu mais foi peixe, até por estar na praia, né?

Imagem da Ilha: Existe algum prato que virou símbolo do restaurante?

Antônio: Eu acho que o prato que virou símbolo do restaurante é o Camarão na Moranga. Esse é o prato que a gente colocou em 1988 no cardápio e, assim, foi uma mudança. Antes e depois do Camarão na Moranga…

Depois vieram outros pratos que a gente foi criando. Já faz anos que a gente vem colocando pratos que a gente mesmo inventa, né? Claro, sempre acompanhando as tendências do mercado, os ingredientes da moda, então a gente sempre usa isso.

 

A culinária à base de frutos do mar se tornou a identidade do Antonio’s.

 

Imagem da Ilha: Quais são os planos para o futuro do Antonio’s?

Antônio: Os planos para o restaurante são mantê-lo assim. Que a Louise e as meninas assumam futuramente, sem que eu precise estar lá.

Imagem da Ilha: Depois de tantos anos, o que ainda te motiva a seguir na cozinha?

Antônio: Primeiro, porque eu gosto. E, segundo, porque é o que eu sei fazer. É uma coisa que eu gosto mesmo, né? Eu gosto de cozinhar. Não gosto da parte administrativa e dessas outras coisas. Eu gosto mesmo é de estar lá no fogão. É isso que me dá prazer. A outra parte, de atendimento e burocracia, eu não gosto.

 

Saiba mais sobre o Antonio's Restaurante no site ou Instagram.

 

 

Entrevista e decupagem: Carolina Beux

Edição: Carolina Beux

Edição final: Hermann Byron Neto

 

 

Da redação

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