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Catarina Komiya mostra o Irã além dos estereótipos ocidentais
Paulistana radicada em Teerã fala sobre cultura, segurança, mulheres, custo de vida e os desafios de morar na antiga Pérsia

Catarina Komiya mostra o Irã além dos estereótipos ocidentais
Catarina Komiya vive em Teerã desde 2018 e compartilha sua experiência no Irã. Na imagem, Catarina em um hotel em Yazd. (Fotos: Acervo pessoal)

Publicado em 26/07/2026

Brasileira radicada no Irã há oito anos, a paulistana Catarina C. Komiya construiu uma trajetória marcada por mudanças de país, diferenças culturais e descobertas. Casada com um iraniano que conheceu enquanto trabalhava no Japão, ela vive atualmente em Teerã, onde criou a filha e acompanhou de perto a rotina de um país frequentemente retratado de forma estereotipada no Ocidente.

Nesta entrevista ao Imagem da Ilha, Catarina compartilha como foi sua adaptação ao Irã, fala sobre a cultura, o papel das mulheres na sociedade iraniana, o custo de vida, as belezas naturais e a comunidade de brasileiros no país. Ela também relembra como enfrentou momentos de tensão, como a recente guerra, e reflete sobre os desafios e as surpresas de viver na antiga Pérsia.


Imagem da Iha - Como começou a sua história e de que forma você foi parar no Irã?

Catarina C. Komiya - Meu nome é Catarina C. Komiya, tenho 49 anos, dia 6 de agosto completo 50. E eu sou descendente de japonês, o meu pai é filho de japoneses e a minha mãe é brasileira. Sou paulistana, nasci e cresci em São Paulo, até os 18 anos. Depois nossa família foi para o interior de São Paulo. Em Agosto de 2001, por ter descendência, tive a oportunidade de ir trabalhar no Japão. Foi lá que conheci o meu marido, que é iraniano. O nome dele é Ali. Eu estava apenas há um mês no Japão e já nos conhecemos. Quando eu o conheci, ele já morava no Japão há 8 anos. A gente casou em 2003 e no mesmo ano, vim conhecer o Irã e a família dele. Achei o país bem diferente do que imaginava… Ainda bem que a impressão foi positiva! Era agosto, verão, e eu achei que, por ser um país muçulmano, não era permitido usar sandálias, pensei que não podia mostrar os pés. Tinha uma ideia totalmente diferente do que realmente é o Irã, como acontece com a maioria das pessoas que não conhecem o país. A imagem do Irã mundo afora, é distorcida, e na verdade tem muita diferente e legal por aqui.

 

Catarina, seu marido Ali e seus pais na Torre Milad em Tehran.

 

Bom, então vim mais duas vezes de férias quando ainda morávamos no Japão. Em um determinado momento a gente cansou de morar no Japão e em 2009 a gente veio para o Irã novamente. Viemos para ficar uma temporada, a gente ficava, primavera e verão aqui no Irã, na casa da minha sogra e quando chegava o outono, íamos para o Brasil aproveitar a primavera e o verão e matar a saudade dos meus pais. Os meus pais se aposentaram, e foram morar em Florianópolis. A gente se conheceu e morou tanto tempo no Japão, que não sabíamos  onde nos fixar para uma nova vida. Então, geralmente, ficávamos 6 meses no Brasil e 6 meses aqui no Irã. E nesse ínterim, eu engravidei aqui no Irã, mas preferi ter minha filha no Brasil, a Kiyara. O nome dela foi escolhido pelo pai, nome de origem persa que significa simples e humilde. Kiyara atualmente tem 14 anos, ela nasceu em Florianópolis. Depois que ela nasceu ficamos mais 6 meses no Brasil, então a gente voltou ao Irã para a família do Ali conhecer a Kiyara. E como ela era pequena e ainda não frequentava escola, a gente ficava mais ou menos 6 meses no Brasil, 6 meses no Irã. Quando Kiyara fez 6 anos, ela precisava se alfabetizar e aí pensamos "agora onde é que a gente vai morar?" A dúvida apertou, porém decidimos nos fixar aqui, pois a minha sogra era viúva e estava adoentada,  só podia contar com os cuidados da minha cunhada, cuidadores e tal, mas estava muito puxado e cansativo para minha cunhada, entretanto no Brasil tem meu pai, minha mãe e o meu irmão, apesar dos meus pais, hoje em dia serem idosos, na época eles estavam muito bem de saúde, mas minha sogra não. E foi por esse motivo que resolvemos morar aqui no Irã em  abril de 2018 e estou aqui até hoje.

 

Catarina e Ali no Lago Chitgar, lago artificial localizado no bairro de Chitgar, em Teerã. 

 

Imagem da Iha - Como foi a adaptação da sua família à vida no Irã? 

Catarina C. Komiya - Para mim não foi um choque cultural, porque eu já conhecia o Irã desde 2003. Eu já sabia os costumes, já conhecia a comida, os hábitos e tal. A minha filha Kiyara, ela fala as duas línguas super bem, o português e a língua persa, que é a língua falada no Irã. Então não foi difícil ela se adaptar na escola.

 

Imagem da Iha - Quais diferenças culturais mais chamam a sua atenção no Irã? 

Catarina C. Komiya - Muitas coisas são bem diferentes do que estamos habituados. Por exemplo, o ano vigente  é o ano 1405, o mês é diferente,  e o dia também. Aqui segue-se o calendário persa, não o calendário gregoriano como no Brasil. O ano novo aqui no Irã é em março, geralmente no dia 20 ou no dia 21, depende da posição do sol. O ano novo persa começa exatamente na hora que começa o equinócio de primavera aqui no hemisfério norte, sendo assim, é um dos calendários mais precisos do mundo, cada ano é um horário diferente. A religião que predomina é a muçulmana, porém, antes  da Revolução Islâmica em 1979 a religião era o  zoroastrismo, que se baseava nos ensinamentos do profeta iraniano Zoroastro. Com a revolução de 79, as mulheres tiveram que se cobrir e usar o véu ou chador (pano preto que cobre os cabelos e corpo). Bebida alcoólica é proibida no Irã. As pessoas são muito calorosas, são bem parecidas com os brasileiros; acredito que até mais… Porque o brasileiro tem medo, por causa da segurança, mas aqui eles são muito ingênuos, a violência urbana é bem menor comparado com o Brasil. Podemos conversar tranquilamente com o celular na mão que tem pouco perigo. A receptividade e gentileza dos iranianos é incomparável; se eles sabem que você é estrangeiro e pede  alguma informação na rua, eles ajudam com maior prazer, por vezes querem até levar ao lugar desejado, e até te convidam para ir às suas casas, sem nem te conhecem direito, dizem: “Vem na minha casa, vamos lá” e tal. É um povo muito querido, muito, muito, muito. Como eu moro numa cidade grande, na capital do país em Teerã, me sinto segura em relação a violência urbana; claro que existem roubos e assaltos, e muitos problemas como em toda capital; trânsito intenso, poluição, etc. Mas é relativamente tranquilo!

 

Em Teerã, no museu Golestan, Catarina com seu marido, sua cunhada e uma amiga brasileira que foi conhecer o Irã.


 

Imagem da Iha - A imagem que muitas pessoas têm da mulher iraniana corresponde à realidade? 

Catarina C. Komiya - A gente acha que no Irã, as mulheres são muito submissas, subjugadas, sabe? Eu até brinco com meu marido, eu falo: "Nossa, você teve sorte de casar comigo; imagina se você tivesse casado com uma iraniana?!” (rsrs) Elas são mandonas, sabem o que querem, são espertas, exigentes. O melhor carro da família, é para elas. Como a maioria no mundo, as mulheres se cuidam, fazem procedimentos estéticos, vão ao salão de beleza semanalmente, frequentam universidades, participam do mercado de trabalho, sendo médicas, engenheiras, advogadas, e até, às vezes líderes de algum setor. A minha sogra (falecida), era muito matriarca, meu marido, um homem feito de 50 anos, toda vez que ele ia fechar algum negócio, realizar alguma compra, ele “pedia permissão” para ela. Porque no Irã é assim, eles respeitam e valorizam os mais velhos, respeitam a hierarquia. Então, às vezes, a imagem que temos sobre a mulher iraniana é um pouco distorcida. 

 

Após a chuva, a água do mar na Ilha de Hormuz ganha tons de rosa e vermelho devido aos minerais presentes nas rochas da região, visíveis ao fundo da imagem.

 

Imagem da Iha - Quais lugares do Irã mais marcaram você? 

Catarina C. Komiya - O país é muito bonito, tem vários lugares maravilhosos para conhecer. Eu conheço pouco, acho que deveria ter viajado mais. Conheci alguns lugares, a região do Mar Cáspio, Damavand, a ilha de Hormuz, ilha de Qeshm, Isfahan, Yazd, Kerman, Bandar Abbas, Kish. Mas com tanta riqueza cultural, ainda há muitos lugares que quero conhecer. O Irã é  um país com muita história, cultura e arquitetura belíssima. É a antiga Pérsia. Em Shiraz estão localizadas as ruínas do antigo Império Persa, onde o rei Ciro, o grande, fez história!

 

Hoteis na Ilha de Hormuz.

 

Imagem da Iha - Existem muitos brasileiros vivendo no Irã? Como é essa comunidade? 

Catarina C. Komiya - As pessoas acham que existem poucos brasileiros vivendo no Irã, mas são quase 200 brasileiros espalhados pelo país. A maioria são mulheres casadas com iranianos, mas tem os que vêm a trabalho, alguns jogadores de futebol e trazem suas famílias. Certa vez conheci um casal que o marido trabalhava numa ONG, então ele veio com a esposa e filhos. E assim, cada um com uma história diferente! Tenho amigas brasileiras casadas com iranianos, e muitas vezes, a gente se reúne para confraternizar, especialmente no final do ano, Natal e Ano Novo, pois aqui essas datas não são comemoradas; é um jeitinho de matar a saudade da nossa cultura ocidental. 

 

Catarina e Kiyara aproveitam a estação de esqui de Bam-e Tehran.

 

Imagem da Iha - Como é o custo de vida e a rotina em Teerã? 

Catarina C. Komiya - O custo de vida no Irã é bem menor comparado com o Brasil, praticamente tudo. Eu moro na capital Teerã, é uma cidade com muitos contrastes, misturando antiga e bonita arquitetura com construções modernas; assim como em todo país. 

 

Imagem da Iha - Como é o seu dia a dia atualmente e quais são os seus planos? 

Catarina C. Komiya - Eu não trabalho fora, faço um trabalho voluntário online, ajudo a coordenar e faço revisão de uma revista eletrônica, mensal. Uma revista com mensagens edificantes. Acho que é uma maneira de me fortalecer mentalmente para enfrentar os desafios de ser expatriada em um país totalmente diferente do Brasil. Já passei por terremotos, guerras e situações desagradáveis, mas estou bem habituada com a vida no Irã. Porém, até o final desse ano, pretendo voltar ao Brasil para ficar um pouco com meus pais que são idosos e estão enfrentando alguns problemas de saúde. Ainda não sei se essa volta será temporária ou definitiva, vai depender dos acontecimentos durante o percurso!

 

Imagem da Iha - O que mais encantou você no Irã? 

Catarina C. Komiya - O que mais me encantou no Irã foram as suas belezas naturais. É um país de uma geografia muito rica e diversa, com montanhas, desertos, vales, ilhas e paisagens impressionantes. O mais interessante é que muitos desses lugares ainda são pouco explorados pelo turismo de massa, o que faz com que preservem uma beleza autêntica e quase intocada. Acho que esse é um dos maiores tesouros do Irã.

 

Tonekabon na província de Mazandaran.

 

Imagem da Iha - E o que mais decepcionou você no país? 

Catarina C. Komiya - Sobre o que mais me decepcionou foi perceber o contraste entre o enorme potencial do Irã e a realidade. É um país com uma natureza exuberante e uma história riquíssima e um povo muito acolhedor, mas muitos desses pontos ainda poderiam ser mais valorizados. As belezas naturais, por exemplo, são pouco exploradas, e algumas restrições, a burocracia e as dificuldades econômicas acabam limitando esse potencial. Tenho a impressão de que o Irã poderia mostrar muito mais ao mundo do que consegue hoje.

 

Imagem da Iha - Como você viveu o período da guerra e quais sentimentos ficaram? 

Catarina C. Komiya - Me trouxe um sentimento profundo de tristeza! Viver em uma região marcada por tensões e hostilidades, faz com que eu valorize ainda mais a paz. Independentemente de onde aconteça, quem mais sofre são as pessoas comuns, que só querem viver tranquilamente e cuidar de suas famílias e seguir suas vidas. Vou me apegar à esperança e torcer para que o melhor aconteça!

 

Entrevista e decupagem: Carolina Beux

Edição: Carolina Beux

Edição final: Hermann Byron Neto

 

Da redação

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