Tempo, tempo, tempo... tempo! Por André Vasconcelos
Entre receitas, memórias e tecnologia, o texto questiona onde estamos gastando nosso tempo
Cozinhar é um ritual. Profissionalmente ou não, segue ritos que garantem bons resultados, bons pratos e bons momentos à mesa!
Escolher a receita e definir insumos, separar equipamentos, porcionar, picar, … tudo isso pode parecer fácil, mas requer conhecimento e dedicação.
E do principal insumo, fala-se pouco: o tempo. Esse insumo é tão importante, que é o protagonista dos principais realitys de culinária!
Caetano Veloso - que habita este planeta há mais tempo que a maioria dos que lêem essa pretensiosa crônica, às vezes parece estranho em suas poéticas letras (Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun), mas na poética homenagem ao tempo, o baiano acertou!
O compositor de destinos certamente é o tempo.
O tambor de todos os ritmos é o tempo!
Só resta entrar em acordo com ele... tempo que te quero tempo!
Invariavelmente em encontros rápidos, com pouco tempo, todos fazem referência ao tempo, em geral da rapidez e da falta dele, e esta falta de tempo tornou-se o álibi dos nossos erros e irresponsabilidades.
O tempo que nos falta é aquele que não sabemos administrar!
O tempo que falta não é o tempo dedicado ao almoço com um amigo.
Muito menos o gasto com o preparo de um café especial diariamente!
O tempo perdido não é aquele que ficamos sentados na sala de cinema de mãos dadas ou dividindo uma pipoca, geralmente mais cara que uma refeição no Tuju.
O tempo que nos falta parece ser o tempo dedicado às redes sociais, aos smartphones, e tantas outras maneiras que facilitam nossa comunicação e nos afastam todo dia um pouco do mundo e do tempo real!
A internet nos roubou o tempo!
Quanto tempo era dedicado aos papos no telefone nos idos 1980? Quantas broncas levei por perder a noção de tempo conversando com a namorada de colégio pelo telefone, no tempo que tanto o fone, quanto o aparelho, tinham fio… o telefone sem fio veio muito depois!
Os minutos ao telefone eram contados e controlados, e quando em viagens internacionais então, os minutos eram proibitivamente taxados!
E pode parecer saudosismo, mas éramos bem mais livres quando os telefones eram presos à parede!
Falta-nos tempo para cuidar da saúde, mas quando ela se fragiliza e uma doença se apresenta, arrumamos tempo para curá-la, isto quando ainda dá tempo!
Falta-nos tempo para correr na praia ou no parque, mas encontramos para conquistar mais uns tostões, mesmo que não necessários.
Falta-nos tempo para cozinhar com a calma que esse ato merece, mas sobra tempo para qualquer joguinho online sem graça.
O tempo não é só a raiz e a cura de todos os males, é o principal ingrediente de todas as receitas, tanto culinárias, quanto médicas.
O tempo nas receitas é fundamental desde o tempo das nossas avós! E muito valorizado nos tempos atuais com seus insumos pseudo-inusitados!
Como as formigas gourmets do Repzik, que como tantos outros chefs, se julgam à frente do seu tempo!
Se tirassem um tempo para visitar as cozinhas de suas avós caipiras, encontrariam formigas em receitas como na farofa de içá, a formiga vulgarmente conhecida como tanajura, com sua grande e saborosa bunda!!!
Falta-nos tempo para conhecer a arte de cozinhar simples do passado e sobra tempo para a arrogância da gastronomia no tempo em que vivemos.
Ao lado da temperatura adequada, o tempo é o ingrediente secreto de algumas das maiores obras da confeitaria mundial: o marshmallow, os amaretti, o pudim de claras e até os aclamados macarrons, entre tantas outras jóias.
O pudim de leite sem furinhos é amigo do duo: tempo longo e calor suave!
Na culinária clássica, o confit de canard tem seu tempo preguiçoso e morno. Tempo morno como o da terrine de foie gras, que exige uma combinação milimétrica de tempo e calor!
E o que dizer da porchetta italiana?
A carne do porco se entrega a uma combinação perfeita de tempo e temperatura:
muito calor em pouco tempo para selar a carne
- muito tempo e pouco calor para cozinhar e fundir texturas e temperos
- muitíssimo calor e pouquíssimo tempo para pururucar a pele
= um prato perfeito!
O frango assado de domingo também tem seu tempo de assar com papel alumínio, tempo para regá-lo com o caldo da assadeira e tempo para dourar a pele... deliciosa combinação caseira.
Não teria tempo para citar todos os exemplos que mostram o quanto o tempo e temperatura são a alma de qualquer receita!
Sem eles temos somente uma lista de produtos, que por mais bem combinados que sejam, não garantem um bom prato.
Como na vida, na cozinha tudo depende do tempo: não pode faltar nem sobrar. Tem a medida certa e depende de cada um saber dosá-lo para obter o prato perfeito, em todos os sentidos.
Não consigo pensar em um ingrediente mais importante que o tempo na composição de uma receita.
O tempo é o senhor de todas as receitas, e, para mim, a saudade é o insumo mais inspirador: saudades de um sabor da infância, de um quitute da nossa vó, de um prato que marcou um momento especial, saudades de comer pipoca no banco da praça… tudo à seu tempo...
Tudo a seu tempo!
E segundo Mário Quintana, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo!
Saudades do tempo que o comer bem era terminar uma refeição sorrindo, e não postando uma foto sem alma nas redes sociais!
E que venha um ano com muito tempo para viver o que realmente importa.
E encerro com Caetano:
“Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo”
Bom apetite!!
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Sobre o autor
André Vasconcelos
Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!
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