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A plantação de livros, por Luzia Almeida
Reflexão propõe uma sociedade onde livros sejam cultivados com o mesmo valor dado às tecnologias e ao consumo imediato

A plantação de livros, por Luzia Almeida
Em “A plantação de livros”, Luzia Almeida transforma a leitura em metáfora de resistência cultural e humana. (Foto: Pixabay)

Publicado em 29/05/2026

A ideia de plantar livros não é de todo fantástica. É uma metáfora intelectual, uma metáfora conveniente à medida que a tecnologia avança e esse avançar segue em todas as direções se considerarmos o bem e o mal. A tecnologia poderia (deveria) impedir os vícios e as banalidades. Poderia? Deveria? Não sei. As pessoas poderiam amar os livros e cultivá-los como cultivam hortas e pomares, porque um livro, não é um “objeto sólido” e é mais belo que uma maçã, ainda que não tenha vitaminas.

Plantar livros na sociedade poderia viralizar (outra metáfora!...) e ver um estudante lendo no corredor da escola não seria um sonho, seria rotina e como consequência teríamos outros contextos sociais. Um estudante lendo no corredor de uma escola ou na biblioteca ou no ônibus... é algo que lembra muito uma antiga alegria, uma paisagem. Os livros conectados aos jovens é a bússola de que precisa um país.

Assim, é preciso despertar as mentes para este cuidado. É preciso sofrer estratégias para angariar atenções e viver esta metáfora bendita: a plantação de livros. E com ela o eterno convívio com as mentes mais brilhantes de todos os tempos e o sentido de liberdade a partir de uma mente educada que se tornou crítica e imune a doutrinações. É a partir de um livro que se percebe a solidão como um fato, como uma necessidade. Como disse a escritora Clarice Lispector na obra “Água viva”:

"E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."

Esta representação do ser humano apresentada por Lispector, em si, já é uma convocação para a plantação de livros. Embora, nem todos considerarão, a investida deve ser sempre a favor da humanidade que sente, que pensa, que sente dor na multidão. A solidão de que trata a escritora é tão própria e comum que somente a palavra pode abrandar. A separação de que somos vítimas e o nome íntimo e a construção de segredos e a vida toda... A vida toda não basta sem livros. Não basta aprender a ler é preciso aprender a ler o silêncio em todas as suas tonalidades. O silêncio que nos convoca a percepções. O silêncio que grita aos nossos olhos, o silêncio que somos nós mesmos. Solidão.

Os livros têm poder e nos esquecemos disto. Somos tão práticos e vulneráveis que não atentamos para prioridades. Somos convencidos de tantas cores que esquecemos que o azul das páginas, muitas vezes, liquida o vermelho das paredes.

E seguimos com as sementes guardadas.

 

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Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


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