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Saúde e a boa gastronomia, por André Vasconcelos

Saúde e a boa gastronomia, por André Vasconcelos
Crônica provoca reflexão sobre o prazer de comer em uma sociedade que transforma alimento em vilão. (Foto: Divulgação)

Publicado em 23/10/2025

Quando elas existiam, era um apreciador de bancas de revistas, mesmo com quilos de revistas de magricelas e sarados posando nas capas vendendo boa forma - não saúde - com dietas milagrosas, onde geralmente os alimentos saborosos são taxados de vilões.

Em contraponto, nas mesmas bancas, esculturas culinárias estampavam capas de revistas que viraram hit: Gula, Prazeres da Mesa, Menu, Gosto...

Hoje, guardando a devida proporção, bancas de revistas são quase, escrevi QUASE, as famigeradas redes sociais!

Porém, em bancas de revistas, para escrever em revistas, era necessário no mínimo ter cultura, conhecimento e fundamento… geralmente jornalistas ou profissionais específicos eram quem escreviam em revistas.

Hoje, qualquer ignóbil pode escrever em redes sociais o que bem entender que certamente terá muitos “cordeiros” que lerão e o seguirão como se fosse uma referência… mas geralmente é só um ser procurando se destacar em uma sociedade tão doente quanto a alimentação que consomem.

Mas como comer bem, de forma caseira e saudável, em uma sociedade doente?

Como explicar esse, cada dia maior, interesse na boa gastronomia em tempos de prateleiras de supermercados transbordando produtos lights e diets, livres de gorduras e de açúcares e, principalmente, livres de sabor?

Como aceitar que um produto que tem menos gordura, menos açúcar, menos produto, enfim, é tudo menos, custe tanto mais?

Essa tendência off-gordura/açúcar, se é que podemos chamar esse movimento neurótico de tendência, vem afetando diretamente a evolução da gastronomia, e chega a distorcer uma evolução que parecia natural.

Natural, aliás, é o que todo alimento deveria ser!

Natural não é light, diet, leite desnatado, clara de ovo e manteiga com menos gordura!

Natural é leite de uma vaquinha tirado de manhã e, muitas vezes, tomado antes mesmo de esfriar com a caneca cheia não só de leite, mas também de carinho!

Sou fã do binômio quantidade/qualidade: consumir menos quantidade e mais qualidade.

E do leite criaram coisas “saudáveis” incompreensíveis, como a massa de modelar batizada de queijo light, um subproduto do já sem sabor queijo branco.

Não que não goste de queijo branco: o italiano pecorino é branco como a ovelha que produz o seu leite, assim como é branco o queijo da Serra da Estrela produzido com o mesmo leite em uma microrregião de Portugal.

O branquíssimo árabe chancliche vem da cabra, e o milanês mascarpone é branco como o creme de leite da vaca, porém ácido e fresco no sabor.

Todos brancos, deliciosos, gordurosos e calóricos.

Mais vale meia fatia de um deles a uma peça de um queijo light sem-gordura-sabor.

Exceção à regra são os queijos de búfala, brancos e magros, mas saborosos... principalmente servidos com muito azeite, mas, mesmo saudável, o azeite é gordo!

Há uma lenda gastronômica que diz que quanto mais amarelo é o queijo, mais calórico, gorduroso e prejudicial à saúde ele é.

Se assim for, quero o alaranjado queijo holandês mimolette no meu leito de morte, e no epitáfio algo como: “aqui jaz alguém que foi feliz, um pecador gastronômico”!

Mas não só o leite e seus derivados são crucificados pelos guardiões da boa forma, eles mudam o alvo conforme a dieta ou remédio da moda: o ovo vai de vilão a herói conforme a interpretação do momento!

A carne vermelha é excomungada dos cardápios diante de explicações infundadas.

Os transgênicos são taxados de grandes vilões, mesmo sem saberem o que é, e nem de há quantos séculos a transgenia, na sua definição básica, é praticada.

Vez por outra, por mais orgânica e natural que seja, a batata entra nessa lista negra, ao lado de outros alimentos que fizeram parte da evolução humana.

Como a grande e saborosa vilã, hoje na berlinda: a farinha de trigo!

Carrega pecados em forma de fios de macarrão, em discos de pizza, cupcakes enfeitados e até em pãezinhos perfumados e crocantes!

E o que dizer dos açúcares em forma de doces, sorvetes, bolos e chocolates?

Desde o brasileiro brigadeiro – bolinho de chocolate com granulado criado para ser distribuído em festas e comícios da campanha de um Brigadeiro, “que é bonito e é solteiro” como dizia o slogan de sua candidatura – até os mais sofisticados macarrons, são o grande pecado de devotos gourmants e gourmets.

Temos que apreciar muito cada momento e cada garfada em receitas de qualidade para sermos gastronomicamente felizes em tempos em que o IMC é um referencial.

A conclusão que chego é que é uma arte harmonizar prazer à mesa, nos pratos e nos copos, com uma vida saudável, não necessariamente magra ou feliz.

Por fim, não tem como levar a sério dietas da moda, cantadas e endeusadas por “personal bombers”, nutricionistas-celebridades, médicos-globais e tantos outros “profissionais” que criam e inventam moda sem nenhuma referência ou coerência, que emergem diariamente dos pontos mais obscuros das redes sociais e encontram quem os aplaudam e os sigam.

Outra triste conclusão é que, analisando o meu IMC, constatei que tenho um sério problema: estou abaixo da altura ideal e preciso urgentemente crescer pelo menos dez centímetros!

Vou me esforçar para isso, mas comendo tudo que me faz feliz!!!

Bom apetite!!

 

 

 

 

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Sobre o autor

André Vasconcelos

André Vasconcelos

Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!


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