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Presente de Natal, por André Vasconcelos
Entre reis magos, Saturnália e Papai Noel, tradição natalina ganha novos significados

Presente de Natal, por André Vasconcelos
A tradição de presentear no Natal surgiu antes do cristianismo e atravessou séculos de história. (Foto: Divulgação) ***clique para ampliar foto

Publicado em 24/12/2025

Hoje vou falar da festa onde mais comemos, mas não vou falar de comida… ou pelo menos vou tentar não escrever sobre comida…

Três sábios do Oriente - da Pérsia, da Índia e da Arábia - observaram simultaneamente um fenômeno celestial, a Estrela de Belém, e partiram em uma jornada guiados por essa estrela até os arredores de Jerusalém, em um rústico vilarejo na Judéia conhecido como “Cidade de Davi”... era Belém.

Na manjedoura encontraram o “rei dos judeus” e a ele ofertaram três presentes simbólicos: o ouro, representando a realeza, o incenso, uma alusão à divindade pois era um símbolo das orações que subiam do altar para o trono, e por fim, a mirra usada para embalsamar corpos, anunciando ali o sacrifício do redentor!

Os três reis magos simbolizavam o mundo reconhecendo Jesus como o Salvador!
Surgia aí a tradição de presentear no Natal!

Ledo engano…

Primeiro que os três reis andaram por dias e só chegaram ao local do nascimento no dia seis de janeiro… atualmente Dia dos Reis!
Os presentes chegaram atrasados para o Natal!!!

Hoje, “haters”, os maldosos da internet, comentariam que os magos esperaram a promoção pós-Natal para comprar os presentes mais baratos!

E a tradição ocidental de presentear no final de dezembro é bem anterior ao nascimento de Jesus, um hábito que vem da Roma antiga, de outra festa, a maior da época, a Saturnália.

Politeístas que eram, a Saturnália era dedicada à Saturno, o deus do tempo, em uma época que o tempo era marcado e definido pelos eventos climáticos, e o mais importante deles, era o solstício de inverno que no calendário juliano, implementado 45 a.C., essa data era 25 de dezembro.

Coincidências históricas!
Coincidências???

Enfim, a Saturnália era a festa para comemorar o fim das grandes colheitas, da época do trabalho mais pesado, semelhante à um início de férias escolares dos tempos atuais.

E nessa festa, era tradição trocar presentes, como velas que simbolizavam a luz do sol que voltaria após o inverno, e também estatuetas de terracota, numa alusão ao povo que vivia da terra de onde ele vinha… “viemos do barro”!

No fim disso tudo, quando o Cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano no final do século IV, como numa salada de frutas, misturou-se tudo e o costume da festa e da troca de presentes, se incorpora a chegada dos três reis magos com seus presentes… surge a troca de presentes de Natal para festejar o nascimento de Jesus.

Tudo ia bem até que um dia algum “sem noção” criou o “amigo secreto”, ou “amigo oculto”, e transformou a tradição de presentear em uma festa de discórdia!

Outro símbolo de Natal, atualmente ao lado do peru temperado e das aves gigantes temperadas que tornam a ceia de Natal algo padrão e indigesto, é o distribuidor de presentes oficial no Natal que chamamos de Papai Noel.

Ele nasceu Nicolau em uma família cristã da Turquia e perdeu os pais ainda jovem, e se dedicou a pregar a palavra de Cristo até um dia se tornar um bispo católico.

E não só em dezembro doava presentes, fazia isso ao longo de todo o ano, abrindo mão de suas posses em favor dos mais necessitados, principalmente na Alemanha e Holanda do século VI… e foi canonizado!

Do termo “São Nicolau”, em holandês Sinterklauss, surgiu Santa Claus, como chamam o Papai Noel em inglês.

Antes de continuar a falar da tradição de presentear, quero deixar aqui meu protesto gastronômico: onde estão os perus naturais, sem temperos???

Percorri, tanto físico, quanto digitalmente, léguas atrás de um peru sarado e saudável, sem tempero químico injetado por múltiplas agulhas em uma sessão de tortura da pobre ave e sem aquele botãozinho vermelho que atesta que o assado passou do ponto!

Quase em vão… achei dois exemplares criados em quintal de amigos na Serra.

Logo teremos perús com botox, silicone no peito, e preenchimento de crista à venda nos açougues mais elegantes da cidade… ou serão peruas?

Protesto finalizado, voltemos aos presentes.

Particularmente, adoro presentear, talvez mais do que ganhar presentes.

E de todos os presentes que lembro emocionado que recebi, poucos foram comprados em alguma loja ou na internet!

Meu melhor presente comprado: minha primeira bicicleta… uma Caloi, com a qual perdi muitas porções de pele de joelho e cotovelo, quebrei alguns ossos e dentes e me diverti muito!

Só se falava em Caloi na minha época em função de uma das mais brilhantes campanhas publicitárias … bilhetinhos com a mensagem “Não esqueça da minha Caloi” espalhada por todos os lados… ninguém com mais de 40 anos esqueceu!

Lembro também do relógio que ganhei do meu avô no Natal dos meus quinze anos.

Mas realmente, os presentes que mais marcam são aqueles que não têm preço, têm valor e marcam nossas memórias:

um telefonema inesperado no dia de Natal de um amigo que há muito não encontra…

um bilhete na árvore de Natal de alguém que você convive diariamente mas nunca lembra de dizer o quanto ama…

uma flor “roubada” de um jardim qualquer enfeitando a mesa do café da manhã…

um abraço apertado do vendedor de verduras que te aguenta o ano todo cobrando perfeição nos seus produtos…

um profissional respeitado te exaltando em uma entrevista gastronômica…

ou até meia dúzia de ovos de pata que o fornecedor de ovos separou para poder fazer aquele bolovo inspirado na receita do chef Daniel Boulud!

O melhor presente é aquele que te surpreende e te emociona!

E felizmente, construí uma boa história em todas as profissões que exerci, e que me trouxeram muito desses presentes em forma de momentos especiais, amigos e lembranças.

E estou certo que meu maior presente na vida, veio de Deus, do Cosmos e de qualquer coisa superior que acreditamos: o saber e o gostar de cozinhar e servir!

Agradeço à vida todos os dias esses presentes em forma de receitas, docinhos, chocolates, ovos pochés, cremes brûlée e tantos testes que dão mais errados que certos… ser cozinheiro é meu maior presente!

E quero presentear com meu carinho todos os amigos que têm esse sentimento, não só pela cozinha, mas pela vida, que é um presente.

Feliz Natal… e bom apetite!

 

 

 

 

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Sobre o autor

André Vasconcelos

André Vasconcelos

Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!


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