Hermitage: A força do Rhône Norte, por Eduardo Araújo
Terroir histórico da França molda alguns dos Syrahs mais complexos do mundo
Existem alguns lugares no mundo que se tornaram o exemplo perfeito de algumas uvas. A colina de Hermitage, na margem esquerda do Rio Rhône, é um desses terroirs. Quem viaja de Lyon em direção Mediterrâneo avista, após pouco mais de uma hora de estrada, uma colina imponente sobre a vila de Tain-l’Hermitage. É uma visão de tirar o fôlego, ainda mais somado a história e a geologia que fazem parte daquela encosta.
Diz a lenda que, em 1224, o cavaleiro Gaspard de Stérimberg retornou das Cruzadas exausto das guerras. Em busca de paz e penitência, ele recebeu permissão da Rainha Branca de Castela para viver como um eremita no topo daquela colina. Gaspard construiu uma pequena capela, plantou vinhas e o resto é história: o retiro do eremita (hermit) deu nome a uma das denominações de origem mais míticas e cobiçadas do planeta.
O que torna Hermitage único é a sua exposição solar perfeita, voltada ao sul, protegendo as uvas dos gelados e fortes ventos Mistral do norte e dado a Syrah uma luz que gera maturação perfeita. Mas não se engane, Hermitage não é um bloco único de vinhedo. Seus 136 hectares formam um mosaico complexo de solos e inclinações que dão origem aos chamados lieux-dits, ou parcelas com características distintas. Entre outras, temos o calcário e sílex com cascalho de Le Méal, o granito puro de Les Bessards e Les Greffieux com suas ravinas e solos mais férteis.
Desta complexidade nascem vinhos de uma força monumental. A Syrah em Hermitage atinge uma profundidade única: notas de frutas negras, pimenta moída, couro e uma nota ferrosa, de sangue e carne, que é a assinatura da região. São vinhos que não pedem, mas exigem tempo de guarda. Um grande Hermitage pode facilmente evoluir por duas ou três décadas, transformando potência em uma elegância “borgonhesa”.
E embora a Syrah seja a protagonista, não podemos esquecer seus raros brancos, os Hermitages Blanc. Feitos a partir das castas Marsanne e Roussanne, são vinhos untuosos, com aromas de madressilva, damasco e uma nota de mel de acácia, envolvendo o paladar com uma textura aveludada.
No topo da colina, avistamos a icônica La Chapelle. Há aqui uma curiosidade que confunde muita gente: embora o vinho mais famoso da casa Paul Jaboulet Aîné leve o nome de "La Chapelle", a empresa é proprietária apenas da pequena construção. Os vinhedos de vinhas velhas que a rodeiam pertencem a outra potência local, a Maison Chapoutier. Estive no vinhedo com a presença dos dois vizinhos e o clima não era tão amistoso.
Contudo, se Hermitage tem um rei, seu nome é Jean-Louis Chave. Enquanto muitos produtores buscam isolar cada parcela, a família Chave (que cultiva vinhas ali desde 1481!) acredita na arte da assemblage. Jean-Louis é o mestre em combinar a estrutura granítica de uma parcela com a opulência de outra, criando um vinho que não é apenas a soma das partes, mas a expressão definitiva e mais clássica da colina.
Beber um Chave Hermitage no seu tempo perfeito é, de certa forma, repetir o gesto de Gaspard de Stérimberg: é fazer uma pausa no caos do mundo para contemplar a força da natureza e a paciência do tempo.
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Sobre o autor
Eduardo Machado Araujo
Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers
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