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Castelão: Revivendo um clássico, por Eduardo Araújo
Uva tradicional portuguesa recupera prestígio com vinhos autênticos e foco no terroir

Castelão: Revivendo um clássico, por Eduardo Araújo
A Castelão, uma das uvas mais portuguesas, retoma seu lugar entre os vinhos de destaque do país. (Foto: Eduardo Araújo)

Publicado em 13/11/2025

Há uvas que carregam o peso da sua história. Em Portugal, a Castelão é uma delas. Conhecida por alguns sinônimos como João de Santarém, Periquita, seu mais famoso nome e até mesmo confundida com a Trincadeira, esta é historicamente uma das mais portuguesa das castas tintas. De bagos pequenos e de pele grossa, adapta-se com uma resiliência impressionante aos solos quentes e arenosos do litoral, produzindo vinhos de cor rubi, aromas de frutas vermelhas maduras, notas selvagens de tomilho e, quando bem vinificada, uma acidez viva e precisa.

No entanto, essa mesma versatilidade e popularidade se tornaram sua maldição. A história da Castelão no século XX é indissociável do fenômeno “Periquita”. A emblemática marca da vinícola José Maria da Fonseca, da Península de Setúbal, tornou-se um sucesso tremendo. Era o vinho das reuniões familiares, dos almoços de domingo, um nome em que todos sabiam de cabeça. Mas o sucesso pode gerar problemas e a demanda gerou superprodução. A Castelão, que era valorizada por seu carácter, foi sendo produzida em quantidade, não em qualidade. O mercado ficou inundado com vinhos simples, de pouca complexidade, que desgastaram a reputação da casta. A imagem do "vinho de mesa simples” foi logo criada e isso é difícil de tirar.

Esta é uma história que se repete no mundo do vinho. Quem se lembra da febre do Beaujolais Nouveau nas décadas de 80 e 90? O frenesi em torno do primeiro vinho do ano tornou-o um fenômeno global, mas a corrida para abastecer o mercado resultou em vinhos apressados e frágeis, que levaram a região a uma crise de identidade que até hoje tenta se recuperar. Tal como a Gamay em Beaujolais, a Castelão foi vítima do seu próprio sucesso comercial.

Mas as castas tradicionais são resilientes. E é na nova geração de produtores, com uma filosofia orientada para o terroir, que a Castelão vive o seu renascimento. Eles entenderam que esta uva, longe de ser uma simples produtora de volume, é um espelho que absorve e reflete com fidelidade o seu terroir. Assim como uvas nobres e reconhecidas, como a Pinot Noir, a Castelão se expressa lindamente em diferentes parcelas.

A mesma Castelão que num solo arenoso de Setúbal dá um vinho de fruta macia e taninos suaves, transforma-se completamente em solos calcários de Lisboa ou de Alcobaça. Aqui, ganha tensão, mineralidade, um frescor atlântico e uma elegância que surpreende. A altitude, a proximidade do mar e a composição do solo (argila, calcário, areia) desenham características distintas na taça. Estes novos vinhos não são genéricos; eles contam a história de um terroir específico de Portugal.

Produtores como Rodrigo Martins, da Espera Wines em Alcobaça, são os exploradores dessa nova fase. Trabalhando com vinhas velhas e métodos minimalistas, ele extrai da Castelão vinhos de uma precisão e frescor notáveis. São vinhos que falam a língua atual do consumidor: menos álcool, mais acidez, um perfil gastronómico vibrante que atendendo a sede por vinhos mais leves e autênticos.

Afinal a Castelão não precisa de um novo marketing. Precisa voltar às origens e se parecer mais com um Periquita da década de 1970 que provei na José Maria da Fonseca, elegante, preciso e surpreendentemente jovem pra idade. Naquela época, nas suas primeiras safras a quantidade era limitada e o potencial completamente explorado.

 

 

 

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Sobre o autor

Eduardo Machado Araujo

Eduardo Machado Araujo

Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers


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