Assim se passaram os anos... Por André Vasconcelos
Uma garagem na Lagoa da Conceição, uma bronca na véspera de Natal e muita vontade de aprender
Observação: essa crônica é uma homenagem a todos os amigos que fiz na minha cozinha e no meu salão, e que me transformaram no cozinheiro que sou… e em especial Fafá, minha esposa que esteve comigo em todos os momentos da minha jornada!
Que lugar é esse da foto???
Se reconhece, você não é da geração Y, os millennials, muito menos da geração Z, os centennials… aliás, no tempo que esse espaço surgiu, nem sabíamos que fazíamos parte de alguma geração com comportamento e nome definidos…
Eu, da geração Baby Boomer, onde a estabilidade, o trabalho e o crescimento é como uma obrigação, convivia muito com a geração X, da transição tecnológica, e juntos vivemos a chegada da internet…
Mas a estabilidade ou o medo nunca fizeram parte da minha personalidade…
Sempre tive cara de pau pra fazer o que tinha vontade e talento para aprender como fazer o melhor possível.
E uma bela noite, chegando de uma semana de muito trabalho “internado” em um estúdio fotográfico, produzindo cenas e cenários, junto com um grupo de publicitários loucos, sou recebido pela minha recente esposa com uma bronca: “nossa casa não é restaurante nem balada, se gosta tanto de cozinhar e festa, monte um restaurante pra você!”
Tenho a impressão que ela se arrepende dessa bronca até hoje!
Isso era véspera de Natal de 1995.
E em pouco mais de dois meses, depois de muita madeira, serrote, tintas, pincéis, marteladas no dedo e noites sem dormir, uma garagem, uma meia-água no centrinho da lagoa, dava lugar à um novo espaço!
No dia 29 de fevereiro de 1996, uma segunda-feira, nascia o Bistrô “Muito Além do Jardim”, e como no filme que batizou o Bistrô, uma alucinação do personagem central mudou o destino de muita gente!
Eu entendia tanto de cozinha e administração de restaurante à época, quanto entendia de física nuclear ou nanotecnologia!!!!
O cardápio era uma soma de sabores que gostava e que fazia no meu dia à dia com uns pratos de restaurantes que frequentava e admirava!
Todo prato era batizado com o nome de um ator ou atriz … cinema sempre foi minha arte favorita, ao lado da gastronomia!
Porque não unir os dois????
Onde mais alguém poderia comer Catherine Deneuve ou beliscar o Brad Pitt?
A Catherine era uma massa di grano duro tricolore com cogumelos variados, funcho, tomates cereja e pecorino… o Brad, uma mousse de chocolate muito amanteigada!!
Era o que sabia fazer … e tudo era muito saboroso, segundo os primeiros frequentadores cobaias!
E assim começou a minha vida de profissional da gastronomia!
As referências que tinha de cozinha vinham dos lugares que frequentava, de botecos à restaurantes estrelados, da cozinha de casa e da curiosidade que surgiu ainda na minha infância lendo as receitas do Suplemento Feminino do Estadão… isso mesmo, cozinha era um tópico feminino…
Ainda teve outra “mulher” que me inspirou: a revista Claudia Cozinha, à principio um encarte da Revista Claudia, revista feminista antes ainda da “queima de sutiãs”...
Cozinha era coisa de mulher… ou melhor, de dona de casa!!!
O foco deste encarte era ter receitas rápidas que no máximo em 30 minutos chegava à mesa um prato da cozinha regional brasileira valorizando produtos locais.
Esse discurso foi adotado pelos moderninhos da cozinha que lutam por estrelas antes de saber ao menos cozinhar e observar as estrelas… o simples valorizando o simples!
Só nos anos 1990 é que as informações culinárias passaram a ser mais democráticas, e os insumos mais à mão com a abertura do mercado de importação. e profissionais surgiram a Revista Gula e eventos gastronômicos como o Boa Mesa…
Lia compulsivamente a Gula e fui em todas as edições da Boa Mesa…
E isso fez com que minha cozinha fosse tomando forma!
E o Bistrô tornando-se referência.
Mas o que mais formou minha cartilha gastronômica, foram os clientes que viraram amigos e amigos que se tornaram clientes.
Nunca fui um grande apreciador de carne bovina, portanto, colocá-la no meu cardápio exigiria muito estudo e dedicação.
Só que a história do meu aprendizado foi bem diferente…
Alguns clientes se tornaram tão amigos que entraram na minha cozinha para ensinar como gostavam de preparar suas carnes prediletas.
O Paulo Gil, empresário da construção, me ensinou o ponto perfeito do filé mingon usando como abafador uma lata de Nescau.
Toninho Ramos me mostrou como era o ponto e a montagem do prato de entrecot que mais gostava, e sempre que possível, servia à ele até em eventos particulares.
O mestre PKB, e seu filho Ricardo, me banhavam com dicas da cozinha clássica e dos melhores insumos e sabores… do caviar à tainha grelhada.
A arquiteta Eliane Klenner praticamente me obrigou a fazer o crème brûlée perfeito, com a receita original do Laurent Suaudeau!
O doutor Luiz De Vicenzi por vezes não satisfeito em simplesmente apreciar meus pratos, tentava reproduzir em sua casa, e, segundo sua doce esposa Lucinha, em vão!
Um famoso apresentador de tv pediu para fazer da minha mousse de chocolate, um moelleux au chocolat que é um sucesso até hoje no meu cardápio.
E se for citar tudo que aprendi com os desejos e anseios dos meus clientes, que se tornaram amigos e inspiração, e o quanto essas vivências enriqueceram o meu conhecimento gastronômico, passaria mais trinta anos contando histórias de Bistrô.
E lá se foram trinta anos … e a gastronomia tornou-se a protagonista da minha vida.
Com uma coleção de cardápios e receitas que se assemelham a uma colcha de retalhos onde cada pedacinho está carregado de emoção e gratidão.
Uma cozinha que tem no seu alicerce a amizade, o estudo e a dedicação!
Memórias que não estão gravadas nas nuvens dos Datacenters!
A nova geração deve achar muito triste não ter essas memórias gravadas na nuvem para poder acessar quando quiser!
Na realidade, para os da geração Baby Boomer, me parece muito triste ter que acessar a nuvem para ver suas memórias!
Para mim, Baby Boomer, essas memórias estão guardadas no meu coração e na minha memória real… e se um dia essas cenas desaparecerem da minha memória, é porque elas já não têm mais importância!!!
E assim se passaram 30 anos…
Gratidão…
E obrigado aos que me seguem, não nas redes sociais, mas nos corredores de supermercados, nas feiras livres e espaços orgânicos.
Que venham mais trinta!
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Sobre o autor
André Vasconcelos
Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!
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