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A rainha do meu reino, por André Vasconcelos
Busca pelo tempero esteve ligada à expansão portuguesa e à chegada ao Brasil

A rainha do meu reino, por André Vasconcelos
Considerada “ouro negro” na Idade Média, a pimenta-do-reino influenciou rotas comerciais e decisões políticas que redesenharam o mapa do mundo. (Foto: Divulgação) ***CLIQUE PARA AMPLIAR IMAGEM

Publicado em 09/04/2026

De sabor forte e picante, a pimenta-do-reino é um marco na história da alimentação e do mundo.

Mercadores muçulmanos a traziam ao ocidente, onde genoveses e venezianos faziam a distribuição em todo o Velho Mundo, isso lá nos idos do século XII quando foi apelidada de ‘ouro negro’, tamanho o seu valor.

À época, facilitar o acesso a esse tempero era primordial devido a seu uso como conservante de carnes na forma de embutidos.

É quase inacreditável que um punhado de pimentas foi a responsável por tantas mortes e tantas descobertas, na verdade, a busca por essa especiaria foi uma das principais causas da expansão e apogeu do Império Português no Oriente.

Foi também a causa da descoberta do Brasil, pois, como sabemos, o fidalgo Cabral, que comandava uma frota a mando de D. Manuel I para refazer o caminho que Vasco da Gama tinha descoberto um ano antes, se perdeu, e ao se perder, nos achou!

Somos filhos-da-pimenta, um erro de rota, um acaso picante.

Esta trepadeira originária da região indo-malaia foi introduzida no nordeste brasileiro por jesuítas vindos de Timor e Macau ainda no período colonial, mas devido às características climáticas, hoje o Espírito Santo é responsável por 60% da produção seguido do Pará, e o Brasil, que já foi líder na década de 1990, ocupa o segundo lugar entre os maiores produtores.

Quando falamos em pimenta-do-reino verde, preta ou branca, estamos falando da mesma planta e do mesmo fruto, só que em três estágios diferentes de maturação e processos específicos de beneficiamento.

As pimentas verdes provêm das espigas ainda não maduras que, debulhadas, passam por várias soluções e drenagens antes de serem conservadas em salmoura.

A pimenta verde tem uma picância suave, sendo estrela de vários pratos como o clássico tornedor au poivre vert!

A preta é colhida ao atingir dois terços de sua maturidade, com coloração que vai do verde claro ao amarelado, é seca ao sol de quatro a seis dias, revolvidas constantemente, para garantir secagem e coloração escura uniforme.

Quando maduros, com os frutos em tons que vão do amarelo ao vermelho, as espigas estão prontas para ser beneficiadas em tanques, onde são maceradas e lavadas muitas vezes em solução com calcário para obtermos a pimenta-do-reino branca, preferencialmente secas ao sol para valorizar seu sabor e perfume.

Existe ainda uma quarta variante deste mesmo fruto, muito rara: a pimenta-vermelha, onde as espigas muito maduras, quase púrpura, são processadas como a verde, isto é, uma conserva fresca com um sabor rico e impressionante!

Mas atenção para não confundir a pimenta do reino vermelha com a pimenta-rosa que é outro fruto de outra árvore: a aroeira, e essa nós conhecemos bem e, às vezes, até usamos de maneira sensata!

Aliás, por definição, a pimenta rosa nem pimenta é!

A pimenta-do-reino não só enriquece a gastronomia com sua fragrância intensa e frutada: é usada como defensivo agrícola natural e na medicina, seu principal agente, a piperina, alcaloide encontrado em sua casca escura, vem sendo largamente estudado e vários mitos estão caindo por terra, onde o fruto passa de bandido a herói.

Esse agente provoca a liberação de endorfinas, pois quando se ingere a pimenta, são ativados receptores sensíveis na língua, informando o cérebro, com uma mensagem primitiva e genérica, que a boca estaria pegando fogo, e como resposta a esse incêndio, vêm a salivação e a transpiração no intuito de refrescar esse fogo, atuando como um termogênico natural.

Ativa também a fabricação de endorfinas, nos dando uma sensação de bem-estar e de euforia: um ‘banho de morfina’, uma verdadeira fonte de prazer.

Trocando em miúdos, a pimenta-do-reino, e suas primas pimentas, são o ‘grande barato’ de qualquer receita, uma droga legal, saudável e de consumo liberado.

 

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Sobre o autor

André Vasconcelos

André Vasconcelos

Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!


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