“A política exige diálogo”, diz Julio Garcia em entrevista exclusiva
Deputado e presidente da Alesc reflete sobre quatro décadas de vida pública, mudanças no Parlamento e os rumos do país
Entrevista com o deputado Julio Garcia, presidente da Alesc
Ao longo de quase quatro décadas de vida pública, o deputado estadual Julio Garcia (PSD) consolidou-se como um dos nomes mais influentes da política catarinense. Reconhecido como hábil articulador e conciliador experiente, o parlamentar está no sétimo mandato na Assembleia Legislativa e na quarta vez como presidente. Desde o início da trajetória, na década de 1980, ele testemunhou e participou ativamente das transformações no Parlamento estadual. Antes, lembra, os debates eram restritos ao plenário. Hoje percebe que as discussões estão pulverizadas nas redes sociais. "Outra diferença é o pluripartidarismo. Atualmente temos mais de dez partidos representados na Assembleia, o que muda bastante a relação interna", afirma. Nesta entrevista exclusiva, o presidente da Alesc fala sobre as sessões itinerantes, avalia o desempenho das bancadas regionais e analisa o caminho do Brasil para superar a atual polarização. Julio também comenta sobre seu projeto político para 2026, decisão que representa a continuidade de uma vida dedicada à política e a oportunidade de levar sua experiência para o cenário nacional.
Imagem da Ilha: Presidente, qual o balanço das sessões itinerantes realizadas pela Assembleia Legislativa? Já foram oito até agora e em 2026 elas continuam, não é?
Julio Garcia: A iniciativa do ex-presidente Mauro de Nadal foi uma das melhores experiências da Alesc. Mantive porque acredito que é a melhor forma de aproximar o Parlamento dos cidadãos, levando a Assembleia para o interior. Por exemplo, a última sessão itinerante foi em São Miguel do Oeste: quanta gente daquela região não consegue vir até a capital. A ideia é montar um plenário na cidade, exatamente como se fosse na Assembleia. Assim, as pessoas conhecem o funcionamento do Legislativo. O mais interessante é a grande participação popular. Sempre muito público presente, lideranças que querem se manifestar, tanto que precisamos limitar inscrições. Entidades do terceiro setor, presidentes de câmaras, prefeitos, todos querem falar. Essa possibilidade de manifestações populares é o grande diferencial em relação às sessões na capital. Além disso, os deputados passam a conhecer melhor a realidade do estado. Com as itinerantes, todos circulam mais. Também colhemos subsídios para nossa atuação. Por isso, considero uma experiência muito bem-sucedida. Em 2025 demos continuidade e em 2026 também haverá sessões, no primeiro semestre, em função das eleições estaduais. Serão duas no início do ano.
Imagem da Ilha: Esta é a quarta vez que o senhor assume a presidência da Assembleia. O que diferencia a atual gestão das anteriores?
Julio Garcia: Comparando 2025 com 2005, que foi a primeira, a diferença é enorme, principalmente na comunicação. Esse é o nosso grande diferencial. Hoje, a prioridade, depois da atividade parlamentar, é a comunicação: fazer com que seja mais eficaz e que possa chegar ao cidadão. Outra diferença é o pluripartidarismo. Atualmente temos mais de dez partidos representados na Assembleia, o que muda bastante a relação interna. Em 2005 não tínhamos redes sociais, a comunicação era basicamente a TVL e um jornal impresso semanal. Hoje, tudo mudou. O Parlamento precisou se adaptar a essa nova realidade. Outra mudança foi na forma de debate: antes concentrados no plenário, hoje muito mais nas redes sociais. Antes, os debates em plenário eram acalorados e marcados pelo bipartidarismo: governo ou oposição. Hoje, com as emendas impositivas, os deputados estão mais focados nas suas bases do que em disputas de oposição ou situação. Outra mudança foi na forma de debate: antes concentrados no plenário, hoje muito mais nas redes sociais. O plenário fica praticamente restrito às votações.
Imagem da Ilha: E como o senhor acha que a população vê a Assembleia? Quais os legados desta legislatura?
Julio Garcia: Com essa multiplicidade de partidos, há também uma grande variedade de projetos e iniciativas. A Assembleia reflete um corte da sociedade. Na eleição passada tivemos o efeito Bolsonaro, que elegeu bancadas numerosas. Quem vem para cá capta o sentimento da população naquele momento. O legado desta legislatura é justamente essa diversidade de projetos, que geram debates e, em muitos casos, resultam em leis importantes. O legado desta legislatura é justamente essa diversidade de projetos, que geram debates e, em muitos casos, resultam em leis importantes.
Na presidência pela quarta vez, o deputado revela como a comunicação e o pluripartidarismo mudaram o funcionamento da Alesc.
Imagem da Ilha: Essa participação maior nas redes sociais se conecta com as emendas parlamentares?
Julio Garcia: Não diretamente. As redes sociais são voltadas ao eleitorado de cada parlamentar, ainda que acessíveis a todos. Já as emendas impositivas têm impacto mais amplo, alcançando municípios e comunidades, independentemente de partido ou base eleitoral. As emendas impositivas se conectam com a sociedade de forma geral. Nem sempre só do eleitorado do deputado.
Imagem da Ilha: As bancadas regionais também foram uma novidade importante na Alesc. Como analisa essa iniciativa?
Julio Garcia: Sim, e geraram, inclusive, uma cota de emendas por bancada a partir das sobras do orçamento da Assembleia. Essa iniciativa despartidarizou a atuação dos deputados. Reunidos em bancadas regionais, parlamentares de diferentes partidos discutem juntos os assuntos da região. Isso melhorou muito a representação. Foi outra iniciativa importante do ex-presidente Mauro de Nadal, que mantive porque deu muito certo. No poder público, tudo o que é bom deve ter continuidade, independentemente de quem esteja no comando. Sempre faço questão de reconhecer que essas duas iniciativas – bancadas regionais e sessões itinerantes – nasceram na gestão do deputado Mauro. Seria um contrassenso interromper. Eu faço reuniões periódicas com as bancadas regionais para tratar das demandas.
Imagem da Ilha: O senhor é visto como articulador, conciliador e conselheiro. De onde vem essa vocação?
Julio Garcia: Vem da convivência. Comecei minha trajetória política em 1985, quando houve uma ruptura no antigo PDS, entre Esperidião Amin e Jorge Bornhausen. Eu optei por seguir a liderança do então senador Jorge Bornhausen. Foi quando foi criada a Frente Liberal. Acompanhei de perto aquele processo, disputei minha primeira eleição em 1986 e, desde então, convivo com políticos experientes. Aprendi muito com divergências e discussões. Isso foi forjando minha forma de enxergar e agir politicamente, sempre buscando conciliação.
Imagem da Ilha: Como o Brasil vai conseguir superar a polarização?
Julio Garcia: Ao ser questionado sobre qual a solução para o Brasil, o governador do Paraná, Ratinho Júnior, disse algo simples e certeiro: precisamos de um presidente normal, conciliador e agregador, que una o país. O presidente Lula teve uma grande oportunidade, mas a divisão e a polarização impediram avanços. Estamos vivendo uma crise grave, diferente da de 1985, quando saímos do regime militar para a democracia, mas igualmente decisiva. Tenho esperança de que a eleição do ano que vem seja um divisor de águas, elegendo um presidente que una o país internamente e o represente bem externamente.
Imagem da Ilha: O senhor acredita que a polarização continuará para o Senado e para a Câmara?
Julio Garcia: Deve continuar, mas com a ausência de Bolsonaro no cenário, teremos um novo ciclo. Teremos oportunidade de ter uma Câmara e um Senado que realmente possam contribuir para o país. Mas é preciso que o timoneiro, que o presidente, tenha esse espírito conciliador, que se relacione de maneira respeitosa e republicana com o Congresso, com o Judiciário e com as outras instituições. A figura do presidente pode fazer a diferença. O regime é presidencialista, mas temos um Congresso que age como se nós tivéssemos um parlamentarismo. O presidente é muito dependente do Congresso. Por isso, ele tem que ter muita habilidade nesse relacionamento.
Imagem da Ilha: O que motivou o projeto de disputar a Câmara Federal pela primeira vez em 2026?
Julio Garcia: Depois que eu me descobri como um ser político, me dediquei integralmente à política. Tive uma passagem breve pelo Tribunal de Contas de SC, mas a "clientela" do TCE também é composta por políticos e não perdi o contato. Meu desejo é continuar. Acho que com a minha experiência posso contribuir por mais um tempo. Como considerei que o meu período pela Alesc estava encerrado - sete mandatos e quatro vezes presidente - vou liberar a fila no nosso grupo político e sou pré-candidato para tentar uma cadeira a deputado federal.
Confira alguns detalhes da entrevista.
Da redação
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Sobre o autor
Fábio Gadotti
Jornalista com passagem pelos principais veículos de Santa Catarina
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