Beatriz Harger recria cores e ressignifica tradição do Corpus Christi
Exposição apresentada na Vinícola Villa Francioni abre calendário comemorativo dos 25 anos do espaço em 2026
A tradição efêmera dos tapetes de Corpus Christi, que colore ruas e mobiliza comunidades, ganha nova permanência pelas mãos da artista plástica e primeira-dama de Florianópolis, Beatriz Harger. Inspirada por anos de observação e registros fotográficos, ela transforma elementos como cor, textura e simbologia em obras que transitam entre o figurativo e o abstrato, propondo um olhar sensível sobre uma manifestação cultural que desaparece poucas horas após ser criada.
Nesta entrevista ao Imagem da Ilha, Beatriz detalha o percurso criativo por trás da exposição apresentada na Vinícola Villa Francioni, que marca a abertura do calendário comemorativo dos 25 anos do espaço em 2026. Entre memórias, referências e experimentações, ela também revisita a própria trajetória, revelando como a arte, presente desde a infância, encontrou novos caminhos até se consolidar como linguagem central de expressão.
A conversa integra uma série especial dedicada ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em março. Ao longo das próximas semanas, o Imagem da Ilha publicará novas entrevistas com mulheres de diferentes áreas, destacando trajetórias, desafios e contribuições que ajudam a contar histórias relevantes da sociedade catarinense.
Na abertura da exposição a artista, ladeada pelo marido e prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, a curadora Meg Tomio Roussenq, Édson Machado, Daniela e Adriana Freitas, da Vinícola Villa Francioni e o enólogo Nei Rasara, apresenta os conceitos e a história de sua arte. (fotos: HBN/imagemdailha)
Imagem da Ilha: Beatriz como foi seu início de carreira, você já começou como artista plástica?
Beatriz: O desenho remonta minha infância, já que com 10 anos eu fazia aula de desenho lá em Blumenau, com a artista Rose Darius. Uma coleguinha ia para música, outra para o balé e eu disse: "Não, eu quero o desenho". Mas aí a gente vai estudando, faz o ginásio, o científico e o vestibular. Aí eu pensei em fazer Arquitetura. Minha mãe disse: "Não. Arquitetura é só para rico rsrs".
E como eu gostava de desenho, de geometria e matemática, pensei, vou fazer Engenharia Civil. Fiz, passei. Depois como eu tinha passado no concurso da Caixa fui trabalhar lá. Quando saí da Caixa, minhas filhas ainda eram pequenas, pensei, "enquanto elas estiverem na escola, eu não vou ficar em casa sem fazer nada".
Então fui fazer Direito. Com os princípios do Direito, eu me entendi muito bem. Porque a lei pode mudar, mas o conceito, a honestidade e a lealdade continuam. E eu me dei muito bem no Direito. Na engenharia era difícil para tirar uma nota seis, e só com muito custo. No Direito, eu tirava boas notas. Acho que já estava com maturidade na vida pessoal. Em seguida, o Topázio e eu abrimos a empresa. E eu fui trabalhar, no RH com a parte trabalhista, já que tinha passado na prova de Direito Trabalhista da OAB. Na empresa a gente cuidava muito para desenvolver uma cultura de respeito para o pessoal se sentir bem.
Imagem da Ilha: Mas o desenho sempre esteve presente?
Beatriz: Sim, sempre comigo. Às vezes, eu estava em uma reunião, e do nada pegava um pedaço de papel e começava a desenhar.
Aí o Topázio olhava e dizia: "Beatriz...." era para eu parar..rsrs. Eu desenho o tempo todo, se estou no avião, estou rabiscando. Se estou esperando uma filha voltar da aula, estou desenhando. É muito bom. Um dia tu vai e desenha, segue um caminho para cá. No outro dia continua e já vai por outro caminho, mas eles continuam com uma "conversa entre eles".
Na próxima exposição, eu vou mostrar ao público essa segunda parte, que chamo de "seres imaginários", porque realmente eles não existem, mas apresentam o mesmo traçado, a mesma linguagem.
Eu tenho mais de 50 peças prontas. Até o final do ano sai essa exposição.
Imagem da Ilha: Como surgiu a ideia de retratar os tapetes da procissão nesta exposição?
Beatriz: Eu olhava para os tapetes da procissão na rua e pensava, como dar uma sobrevida para aquela arte. Aí comprei um rolo de 50 metros x 1,50, e comecei a pintar. Pintava 2 metros de cada vez. Cada dia fazia um pedaço. Daí no dia seguinte, já começava com uma outra energia, e fazia outro. Eu gosto muito dessas cores. Então, trabalhar com essas cores primárias é muito agradável. Na procissão, eles usam essas cores primárias geralmente porque eles colorem o sal com pigmento vermelho, amarelo, azul ou verde. Então, o tapete da procissão traz aquelas cores. Eu fotografava, e como gostava dessas cores fui fazendo o tapete. Então, é muito agradável.
Clique AQUI e veja o video de como essa história começou.
Eu dizia que é gostoso como passar manteiga no pão. Porque escolho aquela cor e assim vou pintando e aquilo vai deslizando.
Essa textura (no quadro abaixo) representa os verdes, os galhos que eles (turmas de escolas) usam na montagem dos tapetes. O desenho da uva que eu fiz em homenagem ao vinho que é usado na Eucaristia.

Obras dialogam com tradição religiosa a partir de uma perspectiva contemporânea.
Imagem da Ilha: E esse abaixo ao que remete?
Beatriz: Esse aqui são vários tapetes, que é como se aqui fosse uma equipe, e ali outra equipe... Então eu coloquei esses para lincar, para unir os os grupos.
Uma das peças que formaram o tapete de acesso à Catedral.
Imagem da Ilha: Como que é o processo criativo? Você vai, fotografa e pinta a partir da tua fotografia ou você pinta da memória do que você viu?
Beatriz: Alguns são da fotografia. O primeiro de 2009 foi pela fotografia. E também tem um na minha casa que era na época da Madre Paulina, que hoje é Santa Paulina. Porque nos tapetes eles homenageiam alguns santos.
Então aqueles são como se fosse uma transferência do tapete fotografado para uma tela. Mas depois de fotografar ano após ano, aquilo já absorvia os desenhos. E tem uns que que repetem, que tem uma maior recorrência e daí aquilo vai saindo.
Imagem da Ilha: Você comentou na pergunta anterior que decidiu fazer os painéis a partir do que você viu...do que fotografava...
Beatriz: Sim, pensei...como posso transcender o temporário dos tapetes de grão? Já que no dia seguinte, como o próprio prefeito falou, a limpeza urbana limpa tudo em uma hora. Então assim é no vídeo, onde mostra todas as fases da confecção, eles prontos e depois a procissão. No final tem a foto, depois que as pessoas passaram.
Então, eu chamo aquilo de abstrato, porque é como se aqui todo mundo tivesse pisado e daí não vai mais ficar quadrado, vai ficar uma mistura. Vai ficar uma imagem abstrata. Então, faz parte do meu plano nas próximas pinturas, pintar o abstrato, pois fica muito bonito.
Se eu fosse pensar em fazer um abstrato, eu não teria aquela capacidade de imaginar como o resultado. Agora, se você fotografa o resultado, sempre dá uma imagem bonita.

Texturas e cores nas obras de Beatriz Harger representam adaptações da tradição religiosa ao cotidiano urbano.
A partir de um olhar que nasce da observação e se transforma em interpretação, o trabalho de Beatriz Harger amplia o sentido dos tapetes de Corpus Christi para além da estética e da tradição local. Ao transpor para a pintura uma manifestação de origem medieval, construída coletivamente e marcada pela efemeridade, a artista revela as múltiplas dimensões que atravessam essa prática, da fé à memória, da experiência comunitária à construção simbólica.
Organizada em estandartes e marcada por elementos que remetem à Eucaristia, às formas geométricas e aos materiais tradicionais, a exposição também evidencia o diálogo entre registro e criação, entre o documental e o abstrato. Nesse percurso, a obra deixa de ser apenas representação para se tornar reflexão sobre o tempo, a permanência e as transformações culturais.
Ao preservar em tela aquilo que nas ruas desaparece em poucas horas, Beatriz não apenas registra uma tradição, mas propõe um novo modo de vê-la: como patrimônio vivo, capaz de se reinventar e de manter seu significado mesmo em uma sociedade em constante mudança.
No vídeo: Beatriz Harger revela ciclo dos tapetes de Corpus Christi
Entrevista: Hermann Byron Neto
Decupagem e edição: Carolina Beux
Edição final: Hermann Byron Neto
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