Comer ou não comer, eis a questão!
A discussão sobre o foie gras reacende o debate sobre o consumo de carne e a seletividade na defesa dos animais

Salvem os patos????
Não sei por que, ou talvez saiba e prefira ignorar, sempre que cito foie gras em um grupo informal, dois terços dos presentes me olham como se eu fosse Hannibal Lecter, o psicopata canibal do filme “The Silence of the Lambs”!
Aliás, um dos oitenta clássicos do Oscar: recebeu a estatueta por melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz e melhor roteiro!
E quanto à tradução do titulo, “O Silencio dos Inocentes”, ‘lamb’ pode até ser traduzido como inocente, pois significa uma pessoa fácil de ser enganada, sensível e ingênua.
Mas em gastronomes, 'lamb' é cordeiro: o silêncio dos cordeiros… Dizem que estes animais de tão sensíveis, choram quando estão para ser abatidos, em um silêncio sepulcral!
Porque as pessoas não se comovem com o sacrifício de inocentes cordeirinhos e organizam ONGs para defender patos e gansos?
Será que na visão destes 'ecólogos' só os patinhos sofrem e têm alma? Na verdade, qualquer criação que tem como objetivo a alimentação dos seres humanos é totalmente desumana desde o início da história!
Estamos falando de animais criados para corte, que não são humanos, e, portanto, não podem ser tratados como tal, assim como humanos não podem ser tratados como animais, como vêm acontecendo no decorrer da história sem a proteção de ONGs, afinal, isso não deve dar muito retorno na mídia.
Mas tudo começou com os homens das cavernas! Estes usavam suas clavas para abater tudo que queriam comer, inclusive mulheres, sendo que com a caça eram menos carinhosos.
Abatiam animais bem superiores em tamanho e força desferindo golpes até a presa ir ao chão, e os carneavam ainda vivos.
Se ONGs existissem na época, a raça humana provavelmente teria sido extinta, banida da face do planeta por inanição. E o fato de não comer carne vermelha não alivia em nada a culpa de ninguém.
Talvez, segundo os 'eco puristas', os peixes também não tenham alma! Em tanques de criação de peixes a ocupação por metro quadrado chega a ser cem vezes maior que na natureza.
Salmões, tilápias, trutas, camarões e até pitus vivem mais apertados que os velhinhos em Copacabana, bairro onde são quatro os habitantes por metro quadrado, segundo alguns, o bairro mais populoso do mundo.
E as verduras: será que elas têm alma?
Afinal são seres vivos.
Nos idos anos 1980 um grande amigo em campanha política que tinha como bandeira a ecologia, era o mais carnívoro de todos e alegava que os animais eram abatidos antes de irem para brasa, já sem alma, enquanto nós, os 'garoto-modelos-que-só-comem-verduras', devoramos ferozmente alfaces vivas, e quanto mais vivas, mais gostávamos delas, principalmente se tivessem com alma.
Outro alvo das críticas ecologicamente corretas é a carne de vitela, afinal, é um bebezinho-boi de alma pura, tão inocente quanto os cordeiros que gourmets assassinam para alimentar pequenos burgueses em restaurantes caríssimos!
Pensando friamente, é muito mais cruel criar bois em espaços confinados mais assépticos que UTIs neonatal, onde as bezerras virgens tomam cerveja constantemente para aliviar o estresse da clausura, são massageadas com esponjas naturais embebidas em saque, e sacrificadas com cortes milimetricamente estudados para que desmaiem antes de falecer: este é o gado de Kobe cuja carne custa em média U$ 600 o quilo.
E os pobres frangos que vivem na superpopulação das granjas e não chegam a caminhar um quilômetro durante toda a sua curta existência de 45 dias.
Se soltarmos um destes frangos sozinho no quintal de uma vovozinha do interior, aquelas vovozinhas que alimentam suas penosas com milho e resto de comida, o galináceo de granja não ficará nem em pé, pois não tem musculatura para isso!
São como servidores do governo das metáforas: só conseguem viver encostados! Mas voltando ao ganso, o processo de gravage, que consiste numa superalimentação forçada, pode até ser cruel, mas é um processo que foi inspirado na natureza.
Esse tipo de ave se alimenta até o cansaço no outono para carregar o corpo de gordura, inclusive o fígado que chega a pesar um quilo, visando concentrar energia para alçar longos voos de migração para as regiões mais quentes.
Relatos da idade média citam a caça aos gansos de outono para serem confitados e consumidos no rigoroso inverno europeu, e seus fígados, consumidos frescos levemente grelhados ou cozidos em vinho e álcool de uva: as famosas terrines.
Como cozinheiro, também tenho meus preconceitos, e pré-conceitos, que ao longo dos quatorze anos de Bistrô tive que superar para desenvolver a minha gastronomia: contemporânea, brasileira, orgânica e com todas ricas e confortáveis nuances.
Do foie gras a abóbora vermelha, passando pelos insetos fritos da China, cachorros assados do Vietnã e outros tantos quitutes, tudo é alimento que com criatividade e parcimônia, podem render momentos de inigualável prazer.
Bom apetite!
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Sobre o autor

André Vasconcelos
Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!
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