Quando a bomba explode, por Luzia Almeida
Poetisa chama atenção para o perigo nuclear nos dias de hoje
Quando a bomba explode reconhece-se imediatamente de onde ela veio e onde ela explodiu porque uma bomba é finita, é material e só pode acontecer no tempo e no espaço, ela tem emissor e destinatário e é impossível esconder essas verdades. A bomba que explodiu em Hiroshima e Nagasaki, por exemplo, foi enviada pelos Estados Unidos em 1945. O emissor foi reconhecido, o destinatário e as consequências também. O problema da bomba é que ela não tem um único emissor, são vários emissores.
A Literatura observa a bomba a partir da inteligência e da sensibilidade. Isto pode ser visto conforme a metáfora de Vinicius de Moraes no poema “Rosa de Hiroshima”: “Pensem nas crianças / Mudas, telepáticas / Pensem nas meninas / Cegas inexatas / Pensem nas mulheres / Rotas alteradas / Pensem nas feridas / Como rosas cálidas / Mas, oh, não se esqueçam / Da rosa da rosa / A rosa hereditária / A rosa radioativa / Estúpida e inválida / A rosa com cirrose / A anti-rosa atômica / Sem cor sem perfume / Sem rosa, sem nada”. O poema de Vinicius de Moraes fotografa a destruição causada pela bomba após a queda: são as consequências de destruição previsíveis: feridas, mudez, cegueira, morte etc. Não podemos esquecer os dias 6 e 9 de agosto de 1945 porque a memória é o grande triunfo da História. O fato é o registro, a memória é o troféu da humanidade. Quem lança uma bomba, de acordo com as consequências, quer esquecer o que fez uma vez que não pode voltar atrás e evitar a desgraça alheia. Sim, quando alguém lança uma bomba contra civis é um perdedor e não poderá esquecer o que fez por conta dos registros.
A Literatura associada à História abraça e fortalece à humanidade no sentido da resistência contra os poderosos desse mundo. A Literatura é uma lupa, um outdoor que expõe “quem” e “o quê” causou destruição. Isso também pode ser observado no romance “Germinal” de Émile Zola, publicado em 1885, na França e “Um conto de duas cidades” de Charles Dickens, publicado em 1859, no Reino Unido. Ambos os romances apresentam a bomba da opressão e da fome de um povo.
Vinicius de Moraes, Émile Zola e Charles Dickens são tipos de Castro Alves clamando por justiça frente ao sofrimento de um povo. A Literatura fez essas fotografias para que possamos atentar para as injustiças que um ser humano pode sofrer e os caminhos da luta por justiça: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade / Tanto horror perante os céus?!”. A escravidão era loucura e era verdade. O horror da opressão continua até hoje, cabe a nós seguirmos na luta pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade.
“Pensem nas meninas” e nos meninos.
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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