Profecias Autorrealizadoras ou Espaço Existencial para Crescer
Em todas as culturas, crenças têm papel fundamental na formação das subjetividades individuais. Elas estão no nosso imaginário coletivo e se misturam aos nossos desejos e valores. As crenças sobre as quais me refiro aqui não são apenas religiosas, dos grupos aos quais pertencemos, mas também às crendices, superstições, bem como aos significados que vamos conferindo às nossas experiências singulares.
Passamos a crer em determinadas “verdades” conforme uma lógica interna. Esta lógica está impregnada na nossa percepção e inclui nossa sensibilidade, a Cultura que absorvemos através da educação, as nossas vivências particulares e o modo como se estabelecem as nossas relações, especialmente na infância e na juventude.
Essas crenças dizem respeito ao mundo externo, mas também ao nosso mundo interior — o que sentimos e o que pensamos a respeito da realidade que nos cerca, bem como o que pensamos e sentimos sobre nós mesmos. E é nesse contexto que se constitui também a nossa autoestima.
Em 1965, o psicólogo Robert Rosenthal conduziu um experimento sutil que consistiu em informar professores sobre o alto potencial intelectual de alguns alunos. Essa informação foi dada aos educadores pelo diretor da escola. Não havia outra informação além dessa. Espontaneamente, os professores começaram a agir diferente com esses estudantes. Concederam-lhes mais atenção, os incentivaram, tinham com eles mais paciência do que com os demais. Ao longo dos meses, esses alunos foram tendo desempenhos claramente superiores. O que os professores não sabiam é que esses alunos não tinham um histórico que os diferenciasse dos outros estudantes ou qualquer outra característica que lhes conferisse status superior. Os jovens apontados, neste experimento, como promissores, foram escolhidos de forma totalmente aleatória.
Esse experimento mostrou muitas coisas. A primeira, talvez, é que as nossas relações são essenciais para o modo como vamos expressar nossas potencialidades no mundo. O ambiente emocional e psicológico que nos rodeia é o espaço existencial, fundamental para o nosso crescimento e pode funcionar para nos estimular, se positivo, nos deixar à deriva ou dificultar o desenvolvimento das nossas potencialidades. Esse estudo corroborou a pesquisa de Marian Diamond, que mais tarde ficou conhecida como a descoberta da nossa plasticidade cerebral. Diamond, em laboratório, demonstrou que nosso cérebro se transforma conforme nossas experiências. Boas experiências, ou como ela chamou, experiências enriquecedoras, promovem maiores conexões neurais.
Leonardo Lacca, diretor-assistente e preparador de elenco de O Agente Secreto, à Folha (05.02.2026), afirmou: “quando você é visto, você existe. Você começa a existir mais”. E é isso também o que Rosenthal provou com seu experimento. Para existirmos, precisamos do olhar do outro, para nos desenvolvermos precisamos do olhar benevolente de um outro.
No meio científico, o resultado desse experimento ficou conhecido como “efeito Rosenthal”; entre psicólogos e educadores passou a ser chamado de “profecias autorrealizadoras”. Vê-se que, para nos desenvolvermos plenamente precisamos da confirmação dos responsáveis pela nossa educação, precisamos dos pais, dos professores, da sociedade como um todo. Necessitamos que nos deem crédito, que nos escutem com atenção e sensibilidade. Precisamos que nos estimulem, nos apoiem, que nos acompanhem e encorajem, criando condições para que as nossas ideias, talentos, projetos e desejos possam, de fato, se realizar.
Quanto mais somos vistos, mais existimos. Quando somos bem-vistos, maior é a nossa autoestima, o que nos confere autoconfiança para nos arriscarmos e nos desenvolvermos. É interessante notar que isso vale tanto para indivíduos como para uma nação. Quando somos amados, nos sentimos seguros para irmos ainda mais além. Quando somos amados aprendemos que temos valor. E é através dessa experiência que formamos a noção de quem somos e crescemos em nossa autoestima. Por isso, amizades, boas parcerias e novas experiências podem promover novas aprendizagens. Como podemos estabelecer, sempre, durante toda a vida, novas relações, e temos a plasticidade cerebral a nosso favor, sempre há tempo.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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