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O Tempo e o Corpo, por Denise Evangelista Vieira
A perda da contemplação e da memória é questionada diante da velocidade da vida contemporânea

O Tempo e o Corpo, por Denise Evangelista Vieira
Ao longo da vida, perdas e transformações deixam registros visíveis, que vão além da estética e revelam trajetórias pessoais. (Foto: Canva)

Publicado em 03/05/2026

No seu poema A Arte de Perder, Elisabeth Bishop faz uma espécie de autoironia, anunciando que suas tantas perdas não são nenhum mistério, e nada sério. Com o passar do tempo as perdas vão se acumulando, perdemos parentes, amigos, cenários. Gradativamente, sem nos darmos conta, se tivermos sorte, perdemos também a juventude.  

Depois dos séculos 18 e 19, no Brasil, fomos perdendo o gosto pelas curvas sinuosas do Barroco. Passou a ser bonito o que era menos dramático, mais liso e mais reto. Das curvas passamos a apreciar as retas, dos volumes, fomos preferindo os planos. Espaços e objetos admitiram outro paradigma, que privilegiava o racional e o lógico, a otimização da produção e do lucro, ao poético. Aos poucos fomos perdendo espaços para apreciar o tempo e tempo para percorrer espaços.

Em alguns lugares, também do Brasil, esse passado, cheio de detalhes, convive lado a lado com o presente. E se olharmos com mais atenção é ele que vai nos contar como era aquela época quando edificada, quais valores carregava e poderá nos ajudar, por contraste, a perceber a nossa complexa realidade de hoje.   

Com o avanço da modernidade, assim como na arquitetura e nas artes em geral, o que valorizávamos na estética dos nossos corpos também sofreu transformações. De lá para cá fomos apreciando menos as curvas, menos os detalhes nas vestimentas, mais a praticidade, mais a ligeireza e o movimento. O que, paradoxalmente, avança no tempo, o velho, com marcas, manchas e drapeados vai sendo rechaçado. Mais velozes, vamos perdendo, também, “as horas gastas bestamente”, e isso não seria nada sério?

Sem tempo para a contemplação e para a reflexão vamos anuviando a trilha que nos mostra de onde viemos e como chegamos onde chegamos. Com a insistência de apagar os registros, nos nossos próprios corpos, talvez estejamos perdendo, justamente, aquilo que nos faz expandir como pessoas, a vida que vivemos. 

Com manchas e ondulações, o corpo velho nos conta que atravessou  caminhos, nem sempre fáceis, não a todo momento alegres, mas que foi talhado também por frustrações, dores e derrotas. Pensando neste texto, olho a minha pele e vejo as três marias e as mariazinhas, vejo o céu então em mim, tão grande, silencioso e onipotente quanto o tempo que atravessamos, com toda a força que nos percorreu. 

A beleza de um corpo velho está no que palmilhou, nas marcas da pele, no brilho dos olhos, na maneira de caminhar, num corpo que testemunhou o próprio percurso, que  atravessou a história, realizou sonhos e quiçá, ficou mais sábio. 

No corpo envelhecido estão os sinais das decisões pretéritas, dos medos e dos desejos presentes, das escolhas que continuamos fazendo todos os dias. Ver beleza no corpo velho é estar consciente da passagem do tempo, é aceitar a viagem, é perceber a transitoriedade, que não estanca mesmo se, ilusoriamente, desejarmos parar numa estação qualquer. Ver beleza no corpo velho é aceitar o certo e o incerto do que já não é mais,  e estar aberto para o surpreendente que ainda virá.

 

Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.

 

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Sobre o autor

Denise Evangelista Vieira

Denise Evangelista Vieira

Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.


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