O Tempo e o Corpo, por Denise Evangelista Vieira
A perda da contemplação e da memória é questionada diante da velocidade da vida contemporânea
No seu poema A Arte de Perder, Elisabeth Bishop faz uma espécie de autoironia, anunciando que suas tantas perdas não são nenhum mistério, e nada sério. Com o passar do tempo as perdas vão se acumulando, perdemos parentes, amigos, cenários. Gradativamente, sem nos darmos conta, se tivermos sorte, perdemos também a juventude.
Depois dos séculos 18 e 19, no Brasil, fomos perdendo o gosto pelas curvas sinuosas do Barroco. Passou a ser bonito o que era menos dramático, mais liso e mais reto. Das curvas passamos a apreciar as retas, dos volumes, fomos preferindo os planos. Espaços e objetos admitiram outro paradigma, que privilegiava o racional e o lógico, a otimização da produção e do lucro, ao poético. Aos poucos fomos perdendo espaços para apreciar o tempo e tempo para percorrer espaços.
Em alguns lugares, também do Brasil, esse passado, cheio de detalhes, convive lado a lado com o presente. E se olharmos com mais atenção é ele que vai nos contar como era aquela época quando edificada, quais valores carregava e poderá nos ajudar, por contraste, a perceber a nossa complexa realidade de hoje.
Com o avanço da modernidade, assim como na arquitetura e nas artes em geral, o que valorizávamos na estética dos nossos corpos também sofreu transformações. De lá para cá fomos apreciando menos as curvas, menos os detalhes nas vestimentas, mais a praticidade, mais a ligeireza e o movimento. O que, paradoxalmente, avança no tempo, o velho, com marcas, manchas e drapeados vai sendo rechaçado. Mais velozes, vamos perdendo, também, “as horas gastas bestamente”, e isso não seria nada sério?
Sem tempo para a contemplação e para a reflexão vamos anuviando a trilha que nos mostra de onde viemos e como chegamos onde chegamos. Com a insistência de apagar os registros, nos nossos próprios corpos, talvez estejamos perdendo, justamente, aquilo que nos faz expandir como pessoas, a vida que vivemos.
Com manchas e ondulações, o corpo velho nos conta que atravessou caminhos, nem sempre fáceis, não a todo momento alegres, mas que foi talhado também por frustrações, dores e derrotas. Pensando neste texto, olho a minha pele e vejo as três marias e as mariazinhas, vejo o céu então em mim, tão grande, silencioso e onipotente quanto o tempo que atravessamos, com toda a força que nos percorreu.
A beleza de um corpo velho está no que palmilhou, nas marcas da pele, no brilho dos olhos, na maneira de caminhar, num corpo que testemunhou o próprio percurso, que atravessou a história, realizou sonhos e quiçá, ficou mais sábio.
No corpo envelhecido estão os sinais das decisões pretéritas, dos medos e dos desejos presentes, das escolhas que continuamos fazendo todos os dias. Ver beleza no corpo velho é estar consciente da passagem do tempo, é aceitar a viagem, é perceber a transitoriedade, que não estanca mesmo se, ilusoriamente, desejarmos parar numa estação qualquer. Ver beleza no corpo velho é aceitar o certo e o incerto do que já não é mais, e estar aberto para o surpreendente que ainda virá.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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