O Amor é Indivisível, por Denise Evangelista Vieira
É na aprendizagem do diálogo amoroso que eu confirmo a minha humanidade e reconheço a humanidade do outro
Estávamos na praia conversando sobre a vida e meu irmão me disse a frase, que na hora me pareceu muito engraçada e um tanto perturbadora, mas que talvez seja o maior mistério de todos: “por que coube a mim ser eu mesmo?” Era como ele lembrava da reflexão feita por Felipe, amigo da personagem Mafalda, das tirinhas do cartunista argentino Quino. O amigo de Mafalda, na verdade, disse: “Justo a mim me coube ser eu”. Dulce Critelli, escrevendo sobre a mesma frase, sentenciou: “ser quem só a gente mesmo pode ser é quase uma desolação.” Talvez por isso mesmo existam, como forma de rebeldia, esses seres que conhecemos como atores.
Em algum momento, quem sabe, possamos ver respondida essa pergunta que enseja outras mais. Por que nascemos com determinados genes? Por que no Brasil? E nesta família? E justo nessa geração? Enquanto não respondemos a essas questões, podemos afirmar que boa parte do que somos é fruto das escolhas de um sem número de pessoas que vieram antes de nós. Outra, das escolhas que nós mesmos passamos a fazer quando, mais crescidinhos, ganhamos alguma autonomia. Escolhas que também são afetadas, todo o tempo, pelas escolhas feitas por nossos contemporâneos.
Para nos aproximarmos um pouco dessa ideia, da formação de um “eu”, vamos considerar o mito de Narciso, que é explorado e entendido de diferentes maneiras pela Psicologia. Há um entendimento que o localiza como uma fase, muito primitiva, do nosso desenvolvimento. Para a psicanálise, o conceito de narcisismo remete a um investimento libidinal instintivo que tem como função a autopreservação, nos primeiros meses de vida e para além deles, não direcionado só para si, ao longo de toda a vida.
O deslocamento que fazemos de nós mesmos para os outros vai se dando gradualmente. É como se, ao nascermos, não soubéssemos muito que somos parte de um universo muito mais amplo que se estende além das nossas próprias necessidades imediatas. A maneira pela qual essa passagem vai se dando depende muito de como essas necessidades vão sendo atendidas — mesmo antes de nascer —, e como vamos sendo conduzidos para desenvolvermos habilidades relacionadas à socialização. Muitos fatores entram nessa conta e certamente não conseguiremos abarcar aqui as suas inúmeras variáveis. Mas podemos nos arriscar a explorar alguns aspectos.
Enquanto, no mito de Ovídio (43 a.C - 17 d.C.) o que Narciso ansiava, era aquele ser que via, nas “águas límpidas e prateadas”, a noção que ganhamos de nós mesmos é dada pelo olhar e pelo entendimento dos outros. Se nas fases iniciais não nos diferenciamos, como Narciso, do ambiente que nos rodeia é através da relação com os outros que vamos ganhando forma e diferenciação. Noção que, com muitas flutuações, vai ganhando um desenho mais completo, na medida em que envelhecemos.
Narciso, quando percebe que não pode ser correspondido, chora, turvando a água. É assim que se estabelecem as nossas primeiras sementes defensivas, que poderão resultar em padrões maiores, caso não possam, de alguma forma, ser reparados. Ou seja, paradoxalmente, para deixarmos a fase exclusivamente narcísica, precisamos do olhar e da atenção do outro, precisamos ser “narcisados”, especialmente, nos primeiros anos de vida.
O desenvolvimento da nossa capacidade de enxergar o outro vai depender muito da qualidade das relações que se estabelecem no nosso processo de crescimento que, entre outras coisas, necessita de cuidados, atenção e amor. É nos enxergando através dos olhos amorosos dos nossos cuidadores, que ganhamos a noção do nosso próprio contorno, como alguém que existe separado dos demais. Quando há a compreensão, por parte de quem é responsável por nós, sobre o que manifestamos como necessidade, muito antes do desenvolvimento da fala, é que nos tornamos potencialmente capazes de aceitar, conviver e respeitar as necessidades e os direitos dos demais; se a água turvar, é ali, no contexto amoroso, que restabeleceremos o nosso contorno.
Nas palavras do filósofo Martin Buber (1878 - 1965), “o homem se torna Eu na relação com o Tu.” É no espaço que se estabelece pelo diálogo que se cria o “entre-dois”, a comunicação que não apaga as diferenças mas que as reconhece, funda o espaço público no qual o indivíduo pode existir com responsabilidade.
Sentimentos como a raiva, explosões que sinalizam nossos descontentamentos, nossos conflitos inconscientes, são naturais na infância porque é ali que estamos aprendendo a lidar com as nossas emoções. Quando tratadas com atenção, compreensão e diálogo, terão um contexto favorável para a superação da fase narcísica primária. Os vínculos que se estabelecem através do diálogo, não da opressão, ou da falta de compreensão, potencializam o desenvolvimento de relações sociais mais próximas do que podemos reconhecer como saudáveis — ou seja, é através de uma educação dialógica que uma comunidade se torna capaz de se estabelecer, não de maneira amorfa, como uma massa, mas capaz de incluir a alteridade, o outro, o diferente.
Guimarães Rosa nos diz que “o homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita.” Nesse sentido, a neurocientista Cintya de A. Haselmann afirma que o caminho está no autoconhecimento, não na supressão dos sentimentos difíceis. Para ela, a habilidade de nomear e ouvir as mensagens que a raiva, a tristeza e o medo tentam comunicar nos permite responder às circunstâncias, fazendo escolhas, e não reagindo por impulso, guiados pelo inconsciente.
Nelson Mandela — que não se considerava mais virtuoso ou altruísta que qualquer outro ser humano — em sua autobiografia afirmou que a liberdade é uma entidade indivisível. E que se, através da discriminação e da opressão, qualquer pessoa se encontrasse aprisionada, ele mesmo também estaria. E deu um passo maior, compartilhando o que descobriu nos anos de prisão e isolamento: “a fome pela liberdade do meu povo tornou-se uma fome pela liberdade de todos os povos, brancos e negros. Eu sabia tão bem quanto sabia qualquer coisa que o opressor tem que ser libertado tão certamente quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de um outro homem é um prisioneiro do ódio, ele está preso atrás das grades do preconceito e da pobreza de espírito. Não sou verdadeiramente livre se estou tirando a liberdade de outra pessoa, tão certamente quanto não estou livre quando a minha liberdade é tirada de mim. O oprimido e o opressor igualmente têm sua humanidade roubada.”
A educação baseada fora do diálogo e da compreensão provoca barreiras defensivas que dificultam o investimento libidinal para além de si mesmo. O oprimido que não consegue superar a opressão, tende a reproduzir, como padrão defensivo, a mesma opressão. A aceitação da alteridade passa pelo diálogo amoroso e pela construção de um eu que se compreende como indivíduo com limites, valor, capaz de se transformar por meio do conhecimento e do autoconhecimento.
Assim como a “liberdade é indivisível” o amor também é. É na aprendizagem do diálogo amoroso que eu confirmo a minha humanidade e reconheço a humanidade do outro. Como atores, inconformados com o desígnio de viverem aprisionados num único papel, é conhecendo o personagem e seu contexto, o próprio e o dos outros, que poderemos nos mover com liberdade entre as margens que as circunstâncias permitirem.
Compreender nossos processos de subjetivação, permite que superemos o determinismo do passado e do inconsciente, nos dando a possibilidade de reinventar formas de ser e de viver numa sociedade segura para todos. Ou dito de outra maneira, a superação dos nossos padrões defensivos individuais estão intimamente ligados à dissipação das nuvens coletivas que encobrem a nossa bondade.
Nota da autora: Estou saindo de férias e gostaria de agradecer a toda a equipe do Imagem da Ilha, pelo espaço, acolhimento e parceria, nesse primeiro ano de portal. Também quero agradecer aos revisores, Francisco Xavier Medeiros Vieira, Fernando Evangelista, Bárbara Vieira e Luísa Evangelista, cada um com o seu olhar e precioso auxílio no aprimoramento dos textos e das ideias que compartilho aqui. Por último, desejo agradecer aos leitores que me honram com a sua leitura e com as suas considerações sempre muito generosas.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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