Imaginar é Preciso, por Denise Evangelista Vieira
Fantasia, memória e criatividade atuam como pontos de apoio para manter a saúde mental em ambientes saturados de tragédias
Peguei um Uber esses dias e o motorista foi me contando um pouco da sua trajetória profissional. Disse que por causa do trabalho morou em Minas Gerais, Goiás, Paraná e para completar afirmou: “Corri mais que notícia ruim.’’ Fiquei pensando sobre a disseminação de notícias ruins. Houve um tempo em que, talvez, por não serem largamente divulgadas, eram tidas como exceções e com as quais todos podíamos aprender. E precisamos aprender, precisamos valorizar a memória, conhecer nossa história, saber o que está acontecendo. Contudo, as notícias ruins se tornaram excessivas, e talvez estejamos exaustos com a sua hegemonia.
Paulo Freire, quando perguntado se é possível pensar em educação emancipadora sem utopias, respondeu “... eu acho que não é possível existir humanamente sem sonhos, sem utopias (...) somos seres na história que não prescindem do amanhã”. Dito de outra maneira, “a imaginação cumpre um papel de libertar o homem de sua condição de vida (...) assim sendo, a possibilidade de atuar com liberdade surge na consciência dos homens em função da imaginação. Isso quer dizer que os homens só podem atingir um grau de liberdade se forem criativos”. (Pelo Reencantamento da Psicologia - Sawaia, 2009). A imaginação é uma saída para aquilo que parece estar dado. É através da imaginação e da memória que podemos nos colocar como coautores mais conscientes na construção da realidade.
Entretanto, o que nos é familiar tende a ser aquilo que “esperamos” que nos aconteça; é como se aquilo que entendemos como a nossa própria realidade fosse percebida como toda a realidade possível. Por isso é tão importante desenvolvermos a capacidade de imaginar. Por isso, a fantasia, os jogos, as histórias, o brincar, atividades criativas, são tão fundamentais durante toda a vida, especialmente na infância. Uma das maneiras de compreendermos a saúde mental é observar a fluidez entre a fantasia e a realidade. A fixidez em qualquer um desses planos pode apontar para algum tipo de sofrimento psíquico.
Contemporaneamente estamos expostos a uma infinidade de informações de todo o mundo, em tempo real. As mídias, na sua maioria, dão um espaço maior para as tragédias e notícias ruins do que para as boas iniciativas, as conquistas em todos os campos do conhecimento e sobre novas práticas, capazes de inaugurar um mundo mais equilibrado e com mais capacidade para enfrentar desafios.
Assim como as alegrias, boas referências nos potencializam e nos dão fôlego, são verdadeiro oxigênio na nossa caminhada. Por outro lado, saber ou estar constantemente imerso em uma quantidade enorme de notícias e eventos catastróficos, nos debilita. Começamos a enxergar a realidade como ameaçadora, hostil e caótica. Temos dificuldade em elaborá-la e nos sentimos impotentes.
Não estou falando das tristezas pelas quais todos nós passamos, nem dos lutos, das frustrações e dos desafios inerentes à condição humana, e que por vezes vão requerer auxílio para serem atravessados. Refiro-me ao que passamos a chamar de realidade, como se fosse toda a realidade e como se ela fosse imutável.
Estamos caminhando para o final do ano. Todos nós estamos definindo, ponto por ponto, o “espírito do nosso tempo”. Talvez seja um bom momento para nos perguntarmos com que linhas vamos bordar o próximo ano. Que cores temos à nossa disposição? Qual a direção dos nossos desejos? Há como desenhar aquilo que desejamos ver se tornando realidade? E se não soubermos agora, poderíamos refletir um pouco mais a respeito? Conseguiríamos compartilhar, fazer trocas que nos ajudassem a descobrir? E se começássemos agora?
Daqui a algum tempo, gostaria de pegar o mesmo Uber e ouvir do S. Ricardo: “Corri mais que notícia boa!”. Para que possamos imaginar um futuro melhor, feito de sonhos e da nossa capacidade de imaginar, precisamos emergir daquilo que nos aprisiona e diminui. Precisamos buscar nossa porção melhor, descortiná-la e valorizá-la. Boas iniciativas, descobertas, bem perto de nós, existem ou estão sendo elaboradas – e nós precisamos saber para continuarmos acreditando em nós mesmos. Bons nortes são como luzes que se acendem quando a escuridão se avizinha, e nós necessitamos delas para continuarmos o nosso bordado. Esse bordado que, para ficar bonito, precisa de esperança.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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