00:00
21° | Nublado

De mãos dadas com o tempo, por Luzia Almeida
Um ensaio poético sobre o valor do instante e a sabedoria de viver cada dia como uma vida inteira

De mãos dadas com o tempo, por Luzia Almeida
Luzia Almeida propõe um olhar poético sobre o tempo e o valor de viver o presente. (Foto: Pixabay) ***Clique para ampliar foto

Publicado em 24/10/2025

Sêneca, um grande pensador da filosofia estoica, disse “Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida”. E ele está correto, há muita vida em 24 horas. Mesmo que estejamos tão preocupados com alguma coisa, ou tão estressados... a vida permanece encarando-nos, esperando que façamos a inferência sobre sua importância e cheguemos ao ponto do sorriso. O sorriso é o resultado da inferência.

Pensar no tempo dispensa relógios, porque o tempo é além das possíveis cordas e baterias. Os ponteiros são marcas ingênuas que não podem suportar o peso de uma meia noite nem de uma noite inteira de luar. Pensar no tempo sugere um descaso com certas dedicações que teimamos em efetuar. É melhor esquecer o tempo e suas marcas, suas lembranças e curiosidades. É melhor encarar a vida e viver cada minuto. É melhor esquecer o dia da festa e viver a véspera — tanto o dia da festa quanto à véspera têm 24 horas. Hoje é o grande tempo que quer nos abraçar... façamos um trato com o ele. Façamos um trato!...

Hoje é o grande dia da leitura, porque um livro é mais preciso que um relógio, um livro capta os olhos e registra o sorriso (da inferência): o tempo-amanhã pode apagar o sorriso e isto é muito perigoso. Então, vamos com o livro e com os poemas que nos ensinam coisas superiores, como o poema de Drummond: “Não serei o poeta de um mundo caduco / Também não cantarei o mundo futuro. / Estou preso à vida e olho meus companheiros. / Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. / Entre eles, considero a enorme realidade. / O presente é tão grande, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. O poeta entendia de tempo como ninguém: essa representação poética que nos abraça e encanta, a partir de “mãos dadas”, tem uma urgência temporal de vida, não a vida que se projeta num idealismo romântico, mas a vida hoje com todas as suas cores, suas dores e seus apelos.

A vida é sonora, é musical… é preciso que se entenda isto. É preciso ser amigo do tempo-hoje e encarar a vida, porque quando as mãos se tocam acontece um acorde além de um acordo: “não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. O poeta desnuda o tempo para apresentá-lo como barro: “O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente”. Drummond encara o tempo de frente e sem tentativa de fuga. Fugir para onde? Para o passado? Para o futuro? Não! Ele encara o presente como náufrago e vive as suas horas como se fossem eternas e, assim, lembramos a personagem “Alice no país das maravilhas” quando pergunta ao Coelho: “Quanto tempo dura o eterno?” E ele responde: “Às vezes, apenas um segundo”: essa resposta ecoa nos versos de Vinícius de Moraes: “Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. A vida não é feita de tempo, é feita de eternidades.

O poema “Mãos dadas” está inserido na obra “Sentimento do mundo” e foi publicado em 1940. Os noticiários da época faziam referência à Segunda Guerra Mundial iniciada no ano anterior à publicação, mas isso ficou no passado, as mãos de hoje, unidas, podem escrever um poema de vida e ser instrumentos de amor e de paz.

 

 

 

Para ler outras crônicas da Luzia Almeida, nossa brilhante colunista clique AQUI

Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI

Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.

Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!

Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp

Comentários via Whats: (48) 99162 8045

 

 

 

 


Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


Ver outros artigos escritos?