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Baleia e Orelha: da ficção à realidade medieval, por Luzia Almeida
A literatura brasileira transforma ficção em espelho social e levanta questionamentos sobre tortura e impunidade

Baleia e Orelha: da ficção à realidade medieval, por Luzia Almeida
Baleia, de Vidas Secas, e Fortunato, de A causa secreta, ajudam a compreender como a empatia pode ser suplantada pela violência, fenômeno ainda presente na sociedade. (Foto: Pixabay)

Publicado em 13/02/2026

Um dos personagens mais instigantes da literatura brasileira é a cadela Baleia do romance “Vidas secas” de Graciliano Ramos. Instigante é a maneira como o autor descreve a conduta do animal que é parte da família e que, por vezes, conseguia alimento para todos: “Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho”. Assim, numa terra seca e morta de alimentos, a cadela Baleia é beijada em forma de agradecimento: “Sinhá Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensanguentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo”. A miséria recorria ao animal na luta pela sobrevivência e o animal respondia à altura de suas condições com um preá.

A literatura fotografa a sociedade e nos concede ângulos e luzes. A literatura, na caneta de Graciliano Ramos, aproxima-se de nós com personagens que nos ajudam a entender o próximo nas suas dificuldades e não somente pessoas entendem as necessidades humanas, animais também, embora sejam desprovidos de raciocínio, eles alcançam, pelo instinto, o patamar da empatia e da solidariedade. A cadela Baleia é esse animal empático e solidário, chamar Baleia de animal é uma hipérbole: “Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras”. Era quase gente.

A cadela Baleia foge da ficção (das páginas de Graciliano) e nos abraça com sua generosidade, com sua fraternidade instintiva e nos convida a refletir sobre comportamentos violentos para com os seus semelhantes, comportamentos que se amoldam à tortura da Idade Média. Infelizmente, não é um exagero dizer que pessoas maltratam até os bichos mansos e, pior ainda, chegam à torturar... e por quê? Apenas pelo prazer de ver o sofrimento alheio. Tal conduta foi relatada por Machado de Assis no conto “A causa secreta”: Fortunato era um personagem que sentia prazer nas dores humana e animal. Ele era duplamente perverso... e o autor ficou tão espantado com esta psicopatia que não hesitou em fazer a denúncia no conto. Ficção à parte, a realidade dos atos de Fortunato saiu varando os séculos e aportou nas praias brasileiras. É assustador! E o que se pode fazer para evitar esse tipo de violência? Esta não é uma pergunta de retórica, esta pergunta precisa causar insônia na sociedade, um tipo de insônia tratável somente com a pacificação entre seres humanos e animais. A sociedade precisa ficar alerta, acordada e viva para combater todo tipo de maldade (também contra os animais).

Se a cadela Baleia está inserida num contexto ficcional, o cão Orelha, em si, apresenta as marcas das torturas reais da Idade Média e a justiça que pode ser aplicada no que se refere a este crime está aquém do nível das dores que ele sentiu. Sem justiça, teremos em pouco tempo a banalização da tortura animal como já temos a banalização do feminicídio.   

 

 

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Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


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