As Emoções como Bússolas, por Denise Evangelista Vieira
Reflexão propõe novo olhar sobre o papel das emoções na construção das decisões e da identidade humana
“Pensar, não esqueçamos, remete ao pensare latino: ao mesmo tempo ‘julgar e pesar’. Privilegiamos o ‘julgar’ com a perspectiva judicativa e normativa que conhecemos, e esquecemos o ‘pesar’. Pesar o que no ser humano é denso, terreno. Levar em conta o pesadume da vida, seu peso, talvez seja isso mesmo o que permitirá apreciá-la: saber lhe dar o seu justo valor.”
Michel Maffesoli
Talvez não seja necessário falar sobre a força que a cultura e as especificidades de cada período histórico exercem sobre os indivíduos. Mas é interessante notar como a partir do século XX houve uma explosão de manifestações em todas as áreas do conhecimento como não víamos, com a mesma pluralidade, antes, na História — pluralidade e efervescência. Desde o século XVIII, com a primeira revolução industrial, a humanidade vem passando por mudanças profundas, com impactos diretos, não só na maneira de produzir bens, como na estética, na relação entre sociedades, das sociedades com a natureza e com o tempo, entre os indivíduos e suas realidades, entre um indivíduo e outro indivíduo.
Em ritmo acelerado, como as máquinas que inventamos, estamos fragmentando tarefas, nos dividindo em núcleos familiares e sociais cada vez menores, passando de cidadãos a meros consumidores. Fomos nos tornando, gradativamente, mais e mais materialistas, ao ponto de nós mesmos nos tornarmos produtos que precisam se vender.
Em termos de pensamento, me parece, acentuamos uma tendência do próprio pensamento que exclui mais do que inclui. Talvez a necessidade de encontrar um sentido nos leve a fazer sínteses apressadas. Temos a tendência de achar que uma “coisa” ou é de uma maneira ou é de outra. Não aprendemos a pensar que “as coisas” podem ser melhor compreendidas se nos aventurarmos a olhá-las de diferentes perspectivas. Ao invés de concluirmos que uma perspectiva sentencia a verdade sobre algo, talvez devêssemos passear por diferentes caminhos, como quem coloca luzes sobre um objeto de vários lados, tentando enxergá-lo com mais clareza, na sua inteireza.
A forma como compreendemos as nossas emoções também está condicionada pela realidade que nos cerca, pelo pensamento hegemônico, por heranças filosóficas. Na sociedade pós-moderna ela persiste, embora dando claros sinais de padecimento, sendo vista como alguma coisa a ser dominada e menos importante do que o pensamento racional. É o que ainda resta do pensamento cartesiano, que desconsiderou, pelo menos inicialmente, o corpo e suas emoções, como partes constituintes do ser.
Filosofias nascidas a partir do século XIX, como a fenomenologia, por exemplo, e uma nova ciência que começa a se tornar realidade, com o advento da interdisciplinaridade, surgem da compreensão de que não podemos ser divididos em partes, mas precisamos nos ver na nossa integralidade.
António Damásio, neurocientista, faz um importante alerta, afirmando que as emoções são como uma bússola para as tomadas de decisão. Sem elas perdemos a capacidade de estabelecer uma hierarquia de valores que permite, antes de qualquer coisa, nos vermos como seres integrais e complexos.
Neste momento da nossa história, quando a consciência feminista parece alcançar cada vez mais pessoas, furando bolhas, é simbólico notar uma mudança de status social em relação às emoções. Através das atribuições sociais, algumas para os homens e outras para as mulheres, ao longo dos séculos, houve uma tentativa forçada que admitia uma emocionalidade maior ao sexo feminino e as tomadas de decisão à racionalidade masculina. À mulher era, até certo ponto, permitido sentir, aos homens decidir. Essa falsa divisão está nos levando a um colapso. Homens e mulheres, pessoas de todos os gêneros, têm emoções e precisam aprender a dialogar com elas.
Outra manifestação importante dessa mudança recente de paradigma é o fato de escolas, no mundo inteiro, estarem alterando seus currículos para incluir espaços onde as crianças possam aprender a “ouvir”, falar e lidar com suas emoções.
Emoções recalcadas, não compreendidas e não elaboradas acabam por transbordar de qualquer maneira e não é raro que elas se transformem em padrões reativos, como manifestações de desespero, melancolia, raiva e ódio, parecendo brotar do nada. Dialogar com as emoções é um processo de aprendizagem. Aprender a observar as próprias emoções, ouví-las sem rejeitá-las, sem fuga ou distração, sem repressão ou juízo de valor, é subverter a tentativa social de asfixiar o que sentimos. Psicólogos, pais e educadores têm papel fundamental como facilitadores nesse processo.
Talvez seja esse o caminho mais importante para aprendermos a redirecionar nossas escolhas como indivíduos e sociedade. Sem a bússola das emoções criamos uma falsa noção de nós mesmos. Sem o sentir, mutilamos nosso próprio pensamento. Sem considerarmos nossas emoções, não reconhecemos nossos limites, nossas verdadeiras necessidades, tampouco nossas vulnerabilidades.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com
Para ler outras crônicas de Denise Evangelista Vieira, nossa brilhante colunista clique AQUI
Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI
Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.
Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!
Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp
Comentários via Whats: (48) 99162 8045
Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
Ver outros artigos escritos?
Notícias relacionadas Ver todas
21° | Nublado