00:00
21° | Nublado

Arte manual pode desacelerar mente sobrecarregada
Em meio à hiperconexão, atividades como bordado, pintura e cerâmica ganham força como ferramentas emocionais

Arte manual pode desacelerar mente sobrecarregada
Em uma rotina marcada por notificações constantes e excesso de estímulos, atividades manuais voltam a ocupar espaço como ferramenta de equilíbrio emocional. (Foto: Freepik)

Publicado em 22/05/2026

Desenhar, pintar, bordar, costurar ou modelar deixaram de ocupar apenas o campo do lazer e passaram a integrar conversas sobre saúde mental, ansiedade e reorganização psíquica. Em uma rotina marcada por excesso de telas, notificações e aceleração constante, atividades manuais vêm sendo retomadas como formas de reduzir a ruminação mental, restaurar foco e criar pausas cognitivas.

Segundo a psicóloga Maria Klien, o movimento não acontece por acaso. Para ela, existe um esgotamento coletivo provocado pela hiperestimulação contínua e pela dificuldade crescente de permanecer no presente.

“A ansiedade costuma projetar a mente para aquilo que ainda não aconteceu. O trabalho manual interrompe esse fluxo porque exige presença, coordenação, repetição e percepção concreta do tempo. Quando alguém costura, desenha ou pinta, o corpo deixa de operar apenas no campo da antecipação e volta a habitar a experiência real. Isso reorganiza pensamento, respiração e atenção”, afirmou.

Pesquisas recentes também passaram a observar os impactos dessas práticas no funcionamento emocional. Um estudo publicado em 2024 pela Frontiers in Public Health identificou associação entre atividades artísticas manuais e redução de sintomas ligados ao estresse psicológico e à ansiedade. Outro levantamento, conduzido pela University College London em 2023, apontou que práticas criativas podem contribuir para sensação de propósito, estabilidade emocional e percepção de bem-estar cotidiano.

Para Maria Klien, o efeito não está ligado apenas à produção artística, mas ao ritmo envolvido nessas experiências. “Existe um funcionamento repetitivo em muitas dessas atividades. O movimento contínuo cria previsibilidade para o cérebro. Em um cenário interno marcado por excesso de estímulo, insegurança e velocidade, ações que possuem começo, meio e fim oferecem uma sensação de organização psíquica. Isso diminui estados de alerta constantes”, explicou.

O crescimento de oficinas de cerâmica, bordado, pintura e desenho também revela uma transformação social mais ampla. Muitas pessoas passaram a buscar experiências menos digitais e mais sensoriais. Em alguns casos, essas práticas acontecem em grupo, fortalecendo vínculos e criando espaços de convivência fora da lógica acelerada das redes sociais.

“Há pessoas que encontram nesses encontros uma forma de pertencimento. Outras utilizam o trabalho manual como espaço de silêncio interno. Nem tudo o que alguém sente consegue ser elaborado apenas pela fala. A criação manual também funciona como linguagem emocional. Em muitos momentos, desenhar, costurar ou pintar se tornam formas de acessar conteúdos internos que ainda não conseguiram ganhar palavras”, disse a psicóloga.

A relação entre arte e saúde mental não é recente. O uso terapêutico de processos criativos atravessa diferentes abordagens clínicas e campos da psicologia. A diferença é que, atualmente, essas práticas passaram a ocupar um espaço mais cotidiano, associado não apenas ao tratamento de sofrimento psíquico, mas também à prevenção de sobrecarga emocional.

Maria Klien observa que o excesso de estímulos digitais modificou a relação das pessoas com concentração e permanência. “Existe uma dificuldade crescente de sustentar atenção em uma única experiência. O trabalho manual desacelera esse padrão porque ele não acontece na velocidade do algoritmo. Existe espera, repetição, construção e pausa. Isso produz impacto na maneira como o sistema nervoso responde ao ambiente”, ressaltou.

A discussão também aparece no campo da arte contemporânea. Na Biennale Arte 2026, em Veneza, a proposta curatorial prevê espaços de descanso dentro da exposição e instalações que convidam o público à pausa contemplativa, à escuta e à experiência multissensorial.

“Quando uma mostra da dimensão da Bienal de Veneza passa a incluir espaços pensados para repouso, respiração e desaceleração, isso revela algo sobre o nosso tempo. A pausa deixou de ser apenas uma recomendação clínica e passou a aparecer como gesto cultural. A própria obra de arte convida o visitante a interromper a pressa de ver tudo, nomear tudo e consumir tudo. Essa mudança dialoga com o que observamos na saúde mental: muitas pessoas não precisam apenas de mais estímulos, mas de experiências que devolvam presença ao corpo e silêncio à mente”, analisou Maria Klien.

O retorno dessas práticas também atravessa diferentes faixas etárias. Jovens adultos, adolescentes e idosos passaram a procurar hobbies ligados à produção manual como tentativa de reduzir ansiedade, melhorar foco e criar momentos de desconexão tecnológica.

“Nem sempre aliviar sofrimento emocional significa produzir mais desempenho. Às vezes, significa recuperar capacidade de presença. Em uma sociedade que normalizou excesso de estímulo, produtividade contínua e disponibilidade permanente, atividades simples podem funcionar como formas de reorganização interna”, concluiu.

 

 

Da redação

Para receber notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.

Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!

Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp!

Para mais notícias, clique AQUI

Siga-nos no Google notícias

Google News