A mulher de papel , por Luzia Almeida
Para muitas mulheres no Brasil, hoje, permanecer viva é desafiar as estatísticas de feminicídio. Permanecer viva é desafiar várias condutas machistas declaradas abertamente na sociedade e embora a Lei Maria da Penha exista, ainda não é suficiente para combater tamanha violência que se manifesta como se a impunidade fosse dada como certa. A Lei Maria da Penha é o começo de uma luta de sobrevivência para muitas vozes que estão caladas e acuadas porque o medo superou a esperança de vida (no sentido mais digno da palavra). É preciso refletir nas causas e nas consequências da violência doméstica e na mulher no contexto de cidadania.
A vida, de acordo com a poetisa Cecília Meireles, precisa ser reinventada: “Mas a vida, a vida, a vida, / a vida só é possível / reinventada”. A reinvenção da vida passa pelo conhecimento que se aquire no decorrer do tempo. Passa também pelo esforço de mulheres profissionais que juntam a outras mulheres e homens no combate à violência doméstica. Este esforço pode ser verificado na íntegra hoje na Escola Estadual Ministro Alcides Carneiro em Ananindeua a partir de uma palestra dada pela delegada Dra. Maria Regina Cardoso Rodrigues que trabalha na Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM de Ananindeua-PA). Ela teceu considerações sobre a Lei Maria da Penha e sobre o ideal de mobilização social a favor da vida das mulheres no contexto nacional e isso com exemplos e muita simpatia. A palestra foi esclarecedora e oportuna, por isso me animei a entrevistá-la considerando sua expertise neste trabalho tão importante.
As perguntas feitas à delegada são inquietações e buscas de soluções compartilhadas por milhões de brasileiras e de brasileiros que não se conformam com dados estatísticos que apontam para um cemitério de gênero. Assim, perguntei: qual o maior entrave na luta contra a violência doméstica? E ela gentilmente respondeu considerando primeiro a falta de prevenção. De acordo com a delegada: “a prevenção deve ocorrer nas escolas, nas comunidades, na sociedade de modo geral ... de que adianta colocar na cadeia uma pessoa que não vai se ressocializar, é mais fácil prevenir para que aquela pessoa não caísse ou não adentrasse no sistema penitenciário” e neste sentido ela complementa: “somente a educação vai dar consciência do princípio maior que é o respeito. É a falta do conhecimento e do respeito que faz com que as pessoas tenham gosto pela impunidade”. A falta de conhecimento e de respeito operam como elementos banalizadores deste fenômeno social.
Ainda, apontei a violência doméstica como uma consequência de determinados comportamentos: perguntei sobre qual seria a causa? E ela respondeu que a causa “são modelos violentos reproduzidos”. E reafirmou que “somente a prevenção” poderia coibir esse mal. Assim, a educação pode ser entendida como uma vacina social a favor de vidas humanas e isto faz sentido se considerarmos o tempo que os jovens passam na escola expostos ao conhecimento e aos valores que se contrastam aos modelos violentos vividos, muitas vezes, no ambiente familiar.
A paz e a dignidade de uma sociedade implicam o gênero feminino também como ator social digno de cidadania. Uma sociedade estruturada, equitativa e humana não pode supor que as mulheres sejam de papel.
Por Luzia Almeida
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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