A COP30 e “A hora da estrela”, por Luzia Almeida
Literatura e meio ambiente se entrelaçam para explicar desigualdades e urgências climáticas discutidas em Belém
Pode até parecer bobagem, mas encontrei a COP30 num livro da Lispector, bem na página 44: “Pois que a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”. A metáfora do parafuso dispensável num tempo de COP30 procede se não descartarmos a visão de poderosos que olham de cima sem nenhum pudor ou olham como a “madama Carlota”.
Olhar de cima, ou simplesmente mentir é um registro de poder e o poder está ligado à carbonização. O poder também está ligado às estatísticas sejam elas quais sejam, por exemplo, a obra “A hora da estrela” de Clarice Lispector apresenta-nos a vida de uma moça nordestina quase perdida na cidade do Rio de Janeiro (ela é um número). É pobre, faminta e incompetente, ela está debaixo de um poder que a persegue desde criança: “Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão [...]. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata, única parenta sua no mundo”. A vida e a história da personagem Macabéa é uma base para se entender a 30ª Conferência das Partes (COP30) que acontece aqui em Belém e por quê? Talvez porque a personagem é vulnerável num grau hiperbólico e, assim, ela se parece com o planeta. Esta semelhança com o planeta, de certa forma, assusta-me e “De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza”. Esta semelhança produz uma metáfora para refletirmos com responsabilidade.
A novela de Clarice Lispector dá suporte para entendermos alguns assuntos tratados nesta Conferência, “Mas por que estou me sentindo culpado? E procurando aliviar-me do peso de nada ter feito de concreto em benefício da moça. Moça essa [...] que dormia de combinação de brim [...]. Para adormecer nas frígidas noites de inverno enroscava-se em si mesma, recebendo-se e dando-se o próprio parco calor”. A culpa de alguém que deveria ajudar (o narrador) e o frio de Macabéa são pálidas ilustrações sobre as condições climáticas que se observam. Eis a enumeração: ondas de calor, secas, chuvas torrenciais e inundações, ciclones e tempestades mais severas que, principalmente, refletem muita culpa e são respostas (aos atos humanos) ou de perguntas que argumentam a favor de um planeta que sofre e, até quando?!... Esta enumeração é resposta e nada além de resposta. Faz-se necessário estancar os atos humanos nesta Conferência. E que haja diálogos eficazes diferentes daqueles de Macabéa:
Ele: — Pois é.
Ela: — Pois é o quê?
Ele: — Eu só disse pois é!
Ela: — Mas “pois é” o quê?
Ele: — Melhor mudar de conversa porque você não me entende.
Ela: — Entender o quê?
Clarisse Fukelman, professora da PUC-RJ, ao analisar a obra de Lispector considera: “Em meio à tensão entre homem e mundo é que surge o debate em torno da palavra” e é a palavra o que temos hoje: matéria prima para consolidar soluções a favor do planeta. Oxalá não haja nenhuma “madama Carlota” infiltrada entre os conferencistas porque...
O planeta Terra é Macabéa, por favor, não o deixem atravessar a rua!...
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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