A casca da palavra, por Luzia Almeida
Reflexão percorre obras de Mário de Andrade e Drummond para explorar o sentido das palavras na poesia
O primeiro poeta pensou, ou melhor, sentiu algo, o pensamento veio depois carregado de tragédia ou de vulcão, não sei. Sei apenas que é uma força que move lógica e emoção e deságua na mão do poeta. O fato de um poeta sentir algo é maravilhoso porque o sentimento associado à lógica da linguagem gera poesia. A poesia é filha da linguagem e nem sempre identificamos uma tragédia ou um vulcão como metáfora: o que salva é o poema diante dos olhos com gosto de fantasia.
Os outros poetas que vieram depois, seguiram a trilha do coração e houve literatura, como se observa em “A meditação sobre o Tietê” de Mário de Andrade:
”É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
[...]”
A linguagem poética investiga o significado das palavras para investir no sentimento... é um absurdo de beleza que nos convence de que a palavra não é só casca. A noite de Mário de Andrade apropria-se de uma noite metafórica e isto é admirável porque nunca saberemos na íntegra o significado de noite: cada pessoa tem sua própria noite. Quando pensamos na noite com sentimento é uma coisa, sem sentimento a noite não tem lua: é neutra, mas mesmo sem lua a noite é questionável. Mesmo sem lua, a noite é como a palavra, tem casca.
Todas as noites juntas não formam uma constelação, mas basta uma estrela no céu para que a noite se vista de luar. A palavra amplia-se ou se encolhe dependendo do coração ou da mão do poeta. Mas também a palavra pode ser engessada, é uma tragédia!... porque o abismo que nela há fica desconhecido e perde-se nas cores da casca e, assim, não assusta ninguém. Na verdade, nem tudo é abismo, há mares também e lagoas, como a de Drummond: “Eu não vi o mar. / Não sei se o mar é bonito. / não sei se ele é bravo. / O mar não me importa. / Eu vi a lagoa. / A lagoa, sim. / A lagoa é grande / e calma também”. O poeta tem a coragem de apresentar preferências, é muita ousadia preferir a lagoa ao mar: “Na chuva de cores / da tarde que explode / a lagoa brilha / a lagoa se pinta / de todas as cores. / Eu não vi o mar. / Eu vi a lagoa...”. A lagoa de Drummond e a noite de Mário são amostras de cascas arrancadas de palavras que poderiam se perder. A palavra lagoa não rima com noite, mas também tem cheiro de poesia.
A tragédia e o vulcão escondidos por dentro das cascas são incógnitas apenas decifráveis na pele do coração.
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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