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Sem vitimismos, “Surda” é pura arte sonora e convite à empatia, por Karin Verzbickas
Filme que estreia hoje em Floripa diz muito mais sobre nós ouvintes que pouco escutamos do que sobre o drama da exclusão de quem é surdo

Sem vitimismos, “Surda” é pura arte sonora e convite à empatia, por Karin Verzbickas
Aclamado no Festival de Berlim, o filme “Surda” estreia em Florianópolis propondo uma experiência sensorial rara no cinema. (Foto: Divulgação)

Publicado em 14/05/2026

Não por acaso, Surda (Sorda) foi um dos melhores filmes do Festival de Berlim. O longa da espanhola Eva Libertad chega hoje às telas de cinema brasileiras, e de Florianópolis também, e promete emocionar.

Mais do que um filme sobre maternidade, mais do que um retrato das dificuldades de uma pessoa surda, este filme que é vencedor de três prêmios Prêmio Goya, aborda a complexidade das relações humanas e a difícil arte da interação, da empatia, da inclusão, da solidariedade, mesmo entre pessoas que se amam: pais, filhos, amigos, o próprio companheiro de vida.

Esse filme tem a peculiaridade de ter sido inspirado na sua protagonista (Miriam Garlo), que é surda de nascença e por isso trouxe tanto realismo e propriedade à sua condição retratada no filme. A diretora, Eva Libertad, é a sua irmã na vida real. E o seu parceiro de tela, o carismático Álvaro Cervantes, levou nada menos que três anos para aprender com maestria a linguagem de sinais.

 

Angela e Hector, a química maravilhosa do casal.

 

Por essas razões, há tanta verdade transbordando na atuação e em cada take.

Mas me deixa explicar primeiro do que se trata o enredo, de forma aqui bem suscinta: Ângela é uma mulher jovem, bonita, surda, feliz no seu casamento com Héctor. Ela tem muitos amigos com a mesma dificuldade auditiva, e seu marido, super parceiro e companheiro, é uma espécie de tradutor da vida para ela. Aprendeu a linguagem de sinais por amor e a inclui nos momentos em que a sociedade insiste em deixa-la de lado.

Tudo flui muito bem na vida do casal, a química entre eles é deliciosa, até que Ângela fica grávida e com a maternidade chegam um caminhão de dúvidas e questões entre eles nunca antes postas.

Numa das passagens marcantes do filme, a apreensão de saber se a filha nascida é surda ou não leva alguns meses até que a bebê possa ser submetida a um exame médico mais crível. Ela não é, a bebê “Ona” tem a audição perfeita. E nesse momento, algo se parte dentro da mãe. Ao mesmo tempo que parece estar aliviada e feliz pela filha, sente que a perdeu. Elas são diferentes.

Todo o fio condutor do filme te leva a sentir a sonoridade das coisas e das pessoas de uma forma nova, sob o prisma de quem não ouve. O liga e desliga do aparelho auditivo causa desconforto e guia o áudio do filme. O silêncio às vezes torna-se benção. O barulho, um ruído insuportável.

 

Amigos surdos e ouvintes em total conexão.

 

A batida da música eletrônica, sim, há uma cena em que um grupo de amigos surdos saem para a balada e dançam freneticamente, é percebida em sobreposição ao som, parece que sentimos a vibração debaixo dos pés, explodindo no peito. Essa sonoplastia não é só técnica, ela é um suporte ao entendimento de todo o contexto. Ela te transporta para o mundo de quem não é “ouvinte”, como eles, os surdos, nos definem.

Em suma, é um filme que te faz enxergar uma realidade distante para a maioria de nós. Afinal, como criar e se conectar com um filho se você não “ouve” e, portanto, não “vê” o mundo da mesma forma? E não precisamos ser exatamente surdos para estar nessa posição.

Onde assistir: Paradigma Cine Arte, sessão das 18h45, de 14 a 20/05.

Trailer oficial: YouTube

 

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Sobre o autor

Karin Verzbickas

Karin Verzbickas

Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha


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