Santa Catarina em primeiro lugar, por Vinícius Lummertz
Debate eleitoral mira propostas, metas e compromissos com o Estado
Santa Catarina entra em ano eleitoral para escolher governador, senadores e as bancadas federal e estadual. E, como tem ocorrido no Brasil, há o risco de a eleição virar um concurso de biografias, ou de destruição de biografias, embalado por tendências nacionais, afetos e antagonismos que pouco dizem sobre o que será feito aqui. Para um Estado que vai bem, isso seria um desserviço. Em 2026, o voto precisa ter um norte simples: Santa Catarina em primeiro lugar.
Não se trata de “fechar os olhos” para o país. Trata-se de lembrar o óbvio institucional: governador governa Santa Catarina; senadores representam Santa Catarina; deputados federais defendem Santa Catarina em Brasília; deputados estaduais legislam para Santa Catarina. Se a campanha troca esse foco por rótulos nacionais, a democracia vira torcida, e torcida não entrega o melhor possível em saneamento, escola, mobilidade, segurança, saúde e competitividade.
Santa Catarina é hoje uma economia diversificada, com indústria competitiva, agro forte, serviços em expansão, logística e portos como vantagem estrutural, além de uma base tecnológica destacada ainda que não internacionalizada. O crescimento, a melhora de indicadores sociais e o dinamismo do mercado de trabalho não caíram do céu. Foram, em boa medida, consequência de escolhas, continuidade administrativa e instrumentos que funcionaram porque houve direção. A verdade: Santa teve bons governos nas últimas décadas. E hoje, Brasil afora, muitos governadores têm aprovação acima dos governos federais.
Essa é a palavra-chave: direção. Santa Catarina já viveu ciclos em que decidiu planejar e colheu. O Plameg, no início dos anos 1960, foi um marco de planejamento por metas, com investimentos e prioridades claras, capaz de organizar a máquina pública e alinhar o Estado a um projeto de modernização. Décadas depois, o Plano 15, associado ao ciclo de Luiz Henrique da Silveira, recolocou o método no centro do campo ao combinar descentralização, gestão por resultados, internacionalização da economia e uma visão de competitividade fiscal responsável e de ambiente de negócios previsível. Criou-se o estado de menores impostos do Brasil.
Planos, quando viram instrumentos, deixam legado. O Pró-Emprego, deste período, ajudou a atrair e expandir investimentos, consolidar cadeias industriais, serviços e logística, e reforçar a vocação catarinense de crescer com base produtiva, e não por impulso artificial de gasto. É a diferença entre slogan e engenharia política: incentivos calibrados, contrapartidas, prazos, avaliação e execução. Isto continua, mas pode ser melhorado. Outros ciclos também produziram direção quando colocaram metas no papel e cobraram entrega. Isso pode ser melhorado.
O ponto é que plano não pode ser peça de arquivo nem marketing de campanha. Plano precisa ser compromisso público, com escolhas, indicadores e cobrança. Em democracia representativa, o pacto que sai da urna não é pacto de simpatia: é pacto de plataforma. Se não houver plano escrito, e se o que está escrito não for repetido na comunicação e debatido com seriedade, a eleição se reduz a emoção. E emoção sem contrato costuma terminar em menores resultados do que os possíveis. E quais seriam os possíveis para a próxima década.
Mais do que isso, planos não são apenas para quem disputa o Executivo. Partidos que não lançarão candidato a governador, mas apoiarão uma chapa, deveriam apresentar suas teses, condições e prioridades: o que negociaram, o que defenderão, o que consideram inegociável. O mesmo vale para legisladores: candidaturas ao Senado e às casas parlamentares deveriam explicitar suas teses, suas votações prioritárias e seus compromissos de transparência. Representar é representar um conteúdo, não apenas biografias.
Santa Catarina já deu um passo civilizatório quando a sociedade organizada passou a exigir compromisso público de não elevar impostos e os governos, em geral, respeitaram essa régua. Agora é hora de dar o passo seguinte: exigir plataformas claras, com prioridades numeradas, metas mensuráveis e prazos. Quem quer governar deve dizer o que fará primeiro, o que ficará para depois, o que não fará e como financiará o que promete. Também deve explicar como pretende medir resultados, porque o que não se mede não é gerenciável; e o que vira discurso costuma ser esquecido no primeiro choque de realidade, tanto que muitos sequer se lembram em quem votaram.
Há temas que não podem continuar no terreno do genérico. Educação precisa ser tratada à luz da inteligência artificial e do novo mundo do trabalho: alfabetização real, matemática, ensino técnico, gestão por escola, metas por município e transparência. Saúde precisa ser discutida com produtividade: filas, regionalização, atenção básica, telemedicina, gestão hospitalar e indicadores por região. Infraestrutura exige escolhas: mobilidade urbana, acessos, saneamento, resiliência climática, habitação e ordenamento territorial, já que crescimento populacional pressiona serviços e infraestrutura. Há que considerar que Santa Catarina é foco de imigração e do maior crescimento populacional do país.
E há o tema empurrado para debaixo do tapete: privatizações, concessões e parcerias. Em um Estado com limites reais de investimento, discutir pedágios, saneamento, ativos e modelos de PPP não pode ser tabu ou heresia, é maturidade. O Paraná é o exemplo ao lado. O eleitor tem direito de saber qual é o desenho, quais são as garantias, qual é o risco, qual é a regulação e quem paga a conta. “Sou contra” e “sou a favor”, genéricos, não servem: o que importa é o modelo e a proteção do interesse público. Visão.
O mundo inteiro se reorganiza, enquanto respiramos: tecnologia, energia, comércio e geopolítica mudam rápido. Até regimes não democráticos publicam planos e os executam metodicamente, desde Beijing até Abu-Dhabi. O paradoxo brasileiro é ter democracia e, frequentemente, dispensar a parte que dá sentido a ela: plataforma, metas e prestação de contas. Santa Catarina pode ensinar o Brasil mais uma vez. Santa Catarina em primeiro lugar significa isto: menos debate nacional e mais contrato público de prioridades — escrito, dito e cobrado. Quem fizer saíra na frente.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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