O caso da Dra. Tatiana é sintoma de país sem projeto, por Vinícius Lummertz
O debate sobre a polilaminina ultrapassa um caso individual e revela obstáculos históricos do Brasil para transformar pesquisa em ativo econômico estratégico
O caso da polilaminina, associado ao trabalho da doutora Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisa em matriz extracelular voltada à regeneração neural e ao tratamento de lesões medulares, ocupou por alguns dias o noticiário e as redes sociais como mais um episódio destinado ao ciclo rápido da indignação televisiva e das redes sociais. Ela não teria obtido a patente internacional para si, para a UFRJ e para o Brasil por falta de recursos. O que se revelou, porém, não é um fato isolado nem um simples tropeço administrativo, mas um sintoma da dificuldade estrutural do país em transformar conhecimento científico em ativo econômico estratégico.
Na economia contemporânea, patente não é apenas um mero instrumento jurídico; ela integra o núcleo da soberania tecnológica. É por meio dela que se define quem licencia e quem paga royalties, quem atrai capital e quem depende, quem participa das cadeias globais como desenvolvedor e quem permanece como comprador. Em 2024, os depósitos internacionais via PCT foram liderados pela China, com cerca de 70 mil pedidos, seguida pelos Estados Unidos e Japão. O Brasil registrou 637. À luz da “crise da Dra. Tatiana”, essa diferença deveria ter provocado um debate nacional consistente. Mas, óbvio que não.
Mais reveladores são os pedidos “por origem”, que medem a vitalidade interna do sistema de inovação. A China supera 1,8 milhão de depósitos; os Estados Unidos ultrapassam meio milhão. Esses números refletem escolha estratégica. Nessas nações, propriedade intelectual é tratada como infraestrutura de poder, com financiamento permanente, escritórios de transferência tecnológica robustos e metas claras de inserção internacional. Guerra econômica na terra, e nós no mundo da lua.
No Brasil, ao contrário, o orçamento público específico para apoiar a internacionalização de patentes é pequeno ou inexistente como política estruturada. Qualquer valor destinado a essa finalidade representa fração mínima diante das cifras que o país perde recorrentemente em ineficiências, escândalos de gestão ou no custo elevado dos juros decorrentes do descontrole fiscal. A desproporção entre desperdício e investimento estratégico revela ausência de prioridade.
Esse quadro dialoga diretamente com a formação de capital humano. No Brasil, menos de 15% dos diplomados no ensino superior concentram-se nas áreas de engenharia, produção e construção. A China forma anualmente algo próximo de 1,5 milhão de engenheiros, número que supera várias vezes o total brasileiro e representa proporção significativamente maior dentro do conjunto de graduados chineses. Além disso, a ênfase chinesa em matemática, física e ciências aplicadas vem crescendo, enquanto no Brasil essas áreas perdem participação relativa no total de formandos. Essa diferença estrutural aparece, inevitavelmente, na capacidade de gerar ciência aplicada, inovação industrial e patentes.
Produzimos pesquisa de qualidade, ainda assim, e formamos profissionais competentes, mas em escala insuficiente e sem coordenação sistêmica. Criamos ilhas de excelência em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, mas não consolidamos um sistema nacional capaz de transformar descobertas em ativos globais com continuidade. Operamos como arquipélago, não como projeto de país.
Esse descompasso torna-se ainda mais grave na era da inteligência artificial. A IA encurta o tempo entre hipótese e descoberta, acelera a pesquisa em saúde, energia e indústria e intensifica a corrida global por propriedade intelectual. Quem não protege rapidamente perde vantagem competitiva em meses. A ausência de estratégia consistente de patentes, já onerosa em ciclos tecnológicos tradicionais, torna-se exponencialmente mais danosa quando a velocidade da inovação é multiplicada infinitamente.
Sem mecanismos estáveis para financiar depósitos internacionais, traduções técnicas e manutenção ao longo de anos, continuaremos repetindo o mesmo roteiro: pesquisa avançada, reconhecimento científico e fragilidade institucional na etapa decisiva de internacionalização. O resultado é um país que investe menos do que deveria em formação e depois importa tecnologia pronta.
Para estados como Santa Catarina e polos como Florianópolis, que consolidaram vocação criativa e tecnológica, essa discussão é central. Um país que tratasse propriedade intelectual, engenharia e ciência aplicada como política de Estado ampliaria enormemente o potencial dessas regiões. O episódio da doutora Tatiana poderia ter sido o ponto de partida para um debate nacional sério sobre rumo estratégico. Tornou-se, no entanto, debate televisivo e de redes sociais. Assim está o Brasil atual. E é justamente por isso que as patentes revelam, com tanta clareza, o que nos falta: projeto de país!
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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