Mãe e filho, num filme iraniano forte, por Karin Verzbickas
Pelos olhos sensíveis do diretor Saeed Roustaee, filme estreia nesta quinta em Florianópolis com exclusividade no Paradigma Cine Arte
Denso, sensível e intenso. Um drama que expõe conflitos morais e denuncia a difícil vida de mulheres iranianas que precisam conciliar o papel de mães perfeitas, esposas submissas e profissionais provedoras. “Mãe e filho” (Woman and Child), longa que estreou em Cannes no ano passado, é do aclamado diretor de Teerã, Saeed Roustaee. O filme discorre sobre a vida de Mahnaz, a excelente e belíssima atriz Parinaz Izadyar. Ela é uma enfermeira viúva e mãe solo tentando criar seu filho adolescente rebelde, Aliyar, em uma sociedade patriarcal.
A trama explora a maternidade sob pressão, culpa, luto e sobrevivência afetiva em uma sociedade que oprime a mulher. A crítica internacional tem elogiado o filme por seu retrato realista que destaca a ambiguidade moral da protagonista e a direção competente que explora o confinamento emocional e social.
Com boa parte das cenas gravadas em cubículos mal iluminados ou em ambientes externos, que revelam por vezes um balançar desconfortável de câmeras, o filme é pra tirar qualquer um da zona de conforto. Plasticamente e moralmente.
Apesar de linear do ponto de vista cronológico, este drama sustenta uma narrativa marcada por reviravoltas. “Mãe e Filho” constrói um retrato denso de conflitos familiares e dilemas emocionais. A entrega potente e sensível da protagonista conduz o espectador por uma jornada de dor, resistência e transformação.
O mais interessante é que a condução do diretor não deixa margem para julgamentos. É como se o desenrolar das situações, nem sempre seguindo o melhor modelo moral, fossem por si justificadas na própria condição opressora dos personagens.
Perda, traição, luto, revolta, culpa, vingança... cada sentimento ali colocado é uma espécie de fruto gerado pela árvore da conjuntura política, social, econômica, religiosa e histórica no Irã. Não há bandidos ou mocinhos. Seria mais fácil se houvesse, mas o diretor Saeed Roustaee parece ter optado por evidenciar em cada expectador esse conflito moral, frio e intenso.
O que mais me tocou nesse filme não foi o turbilhão de emoções que movimenta o enredo, mas especialmente os silêncios. O longa, em suas duas horas e onze minutos de duração, nos premia com a força de olhares (entre as irmãs, entre a protagonista e mãe, entre mãe e filho, e, principalmente o olhar profundo da menina caçula para seus algozes) que falam mais que qualquer diálogo.
Esse silêncio imposto são pausas necessárias para o entendimento e valorização da emoção de cada personagem, são camadas profundas sendo adicionadas a cada respiro da trama.
Por ser o primeiro longa de Roustaee no Brasil, e por ser o primeiro filme depois da sua prisão no Irã, digamos que “Mãe e Filho” chega para marcar. A ferro e fogo.
O longa apresenta um retrato realista da vida de mulheres no Irã, explorando dilemas morais e relações familiares complexas sem recorrer a julgamentos simplistas.
Que diretor é esse?
Saeed Roustaee é um dos principais nomes do cinema iraniano recente, com filmes que circulam em importantes festivais, tanto no Oriente como no Ocidente. “Life and a day”, de 2016, foi seu longa de estreia, que conquistou grande repercussão e se destacou no Fajr Film Festival.
A obra de Roustaee é marcada por um olhar direto sobre questões sociais no Irã, especialmente desigualdade, crise econômica e estruturas familiares em tensão, o que já lhe custou a prisão no seu país.
Mãe e Filho, que concorreu ao Palma de Ouro em Cannes em 2025, marca retorno do diretor depois de ser condenado à prisão no Irã, o que mobilizou uma onda de apoio ao cineasta com nomes como Martin Scorsese.
Estreia nos cinemas nesta quinta-feira, dia 30, com exclusividade em Florianópolis no Paradigma Cine Arte. Confira horários e compra de ingressos aqui.
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Sobre o autor
Karin Verzbickas
Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha
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