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Festival de Berlim termina amanhã e ainda não tem um candidato forte ao Urso
Mas duas produções chamam a atenção e serão exibidas no Brasil. Saiba quais!

Festival de Berlim termina amanhã e ainda não tem um candidato forte ao Urso
Entre os destaques está “Rose”, de Markus Schleinzer. Ambientado no século XVII e filmado em preto e branco, o longa acompanha uma mulher que assume identidade masculina para sobreviver em uma comunidade rural marcada pela opressão. (Foto: Divulgação)

Publicado em 20/02/2026

Neste sábado, às 16h30 no horário de Brasília, o mundo do cinema estará com seus olhos voltados para a divulgação dos vencedores do Urso de Ouro e de Prata da 76ª edição da Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim. São vinte produções que concorrem na mostra competitiva e, diferente dos anos anteriores, nenhum filme desta vez se sobressai como favorito da crítica ou do público.

O problema não é a oferta de bons filmes. Ao contrário, há excelentes obras de qualidade inquestionável, mas o cenário político contribui para a incerteza diante da difícil leitura que o júri, comandado pelo diretor Wim Wenders, vai ter. Engajado e político, o perfil da Berlinale sempre dialogou muito com os filmes selecionados e os eventuais ganhadores. Mas esse ano, em especial, o descompasso político entre a direção do festival, o júri e os patrocinadores parece não contribuir para um julgamento isento da qualidade artística das produções.

Dois longas em especial me chamaram a atenção. E vou aqui falar sobre eles porque é quase certo que os dois estarão nas telonas brasileiras até o fim desse ano ou início de 2027. O primeiro é Rose, do diretor austríaco Markus Schleinzer. Confesso que fui à sessão um tanto desesperançosa. Filme de época (século XVII), filmado num rigoroso preto e branco, falado em alemão, baseado em fatos reais, exibido às 9 horas da manhã de um dia de temperaturas negativas em Berlim e num cinema bastante distante de onde estou hospedada. Quase desisti. Mas ainda bem que não, porque o filme é simplesmente maravilhoso e surpreendente. A impactante interpretação de Sandra Hüller, num papel masculino, mostra a atuação de uma atriz monumental. Aliás, ela foi indicada ao Oscar pelo excelente desempenho em “Anatomia de uma Queda”, no ano passado.

A atuação de Sandra Hüller, indicada ao Oscar por Anatomia de uma Queda, é apontada como um dos pontos altos da competição.

 

“Rose” faz um mergulho profundo na dura rotina de uma comunidade rural do século XVII onde estar vivo diante da fúria da natureza (frio, tempestades, animais selvagens) já é por si só um ato de resistência extremo. A protagonista assume então uma identidade masculina na esperança de poder conquistar terras, trabalhar, caçar e fazer tudo o que não podiam as mulheres da sua época. O filme é antes de tudo um drama sobre a opressão do patriarcado e mostra, apesar de algumas centenas de anos terem se passado, que há ainda muito sobre estereótipos de gênero nos dias atuais. Vale cada minuto. E se o Urso fosse meu, eu o daria de olhos fechados, na categoria melhor atriz, para Sandra Hüller.

 

Rainer Frimmel e Tizza Covi, diretores.

 

Al Cook confirmado no Brasil

O segundo longa, que aposto algumas boas fichas nele, teve sua sessão première exibida somente ontem, e por isso há pouca menção na imprensa por enquanto. Trata-se do filme “The Lioneliest Man in Town”, coincidentemente outra produção austríaca, dirigido por um casal talentoso que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente aqui em Berlim: Tizza Covi e Rainer Frimmel.

O filme é sobre Al Cook (nascido Alois Koch), e protagonizado por ele mesmo, do alto dos seus oitenta e poucos anos. Cook é um músico vienense apaixonado por Blues (e Elvis Presley), nasceu no mesmo apartamento que ainda vive e é inquilino, no terceiro distrito de Viena. Aliás, o único inquilino porque o prédio já foi totalmente desocupado. Uma construtora o comprou e vai demolir em alguns dias.

 

Diretores e Al Cook na premiere em Berlim.

 

O filme mostra a rotina e a disciplina desse músico solitário, em meio aos seus discos, livros, fotografias e musicais antigos, junto de diversos instrumentos de corda e equipamentos de gravação num estúdio que ele mantém no porão. A impressão é que estamos nos anos 60 ou 70. A Tv é super antiga, de tubo, os toca-discos anteriores aos modelos 3 em 1, e o telefone dele é um Nokia anos 90. Talvez o objeto mais recente.

E é este homem profundamente solitário e obsoleto, mas imensamente satisfeito com sua rotina cultural e toda sua história construída como músico, que vai ser despejado. Pressionado a deixar o apartamento - já lhe cortaram a água, a eletricidade, ele é submetido a barulhos e invasões a todo tempo - ele resiste bravamente, ao mesmo tempo que começa a organizar a venda do seu patrimônio inestimável.

O filme é leve, com pitadas bem colocadas de um humor inteligente, e a direção primou pelo detalhismo e beleza plástica dos inúmeros objetos do cenário. Some-se a isso uma trilha sonora arrebatadora. A história, que tinha tudo para ser deprê grau mil - afinal estamos falando de um idoso solitário que é despejado da única casa que teve na vida - mostra a beleza dos dias, o amor à música, o valor da rotina e da solitude. Al Cook é apaixonante. Pessoalmente, inclusive. Tive a honra de estar num jantar com ele e toda equipe de produção/direção e elenco. Uma lenda viva.

O filme retrata o músico vienense Al Cook, que interpreta a si mesmo aos oitenta e poucos anos, enfrentando o despejo do apartamento onde vive desde que nasceu.

 

“The Lioneliest Man in Town”, algo como o homem mais solitário da cidade, ainda não tem título em português, mas seus direitos já foram adquiridos pela Autoral Filmes, de Florianópolis, para distribuição no Brasil. Como será lançado mundialmente em Viena no mês de outubro, a previsão é de que em novembro ou dezembro deste ano ele já esteja nas salas de cinema brasileiras. Não deixe escapar.

Amanhã volto aqui pra contar quais foram afinal os vencedores da Berlinale 2026.

 

 

 

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Sobre o autor

Karin Verzbickas

Karin Verzbickas

Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha


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