Centro de Floripa ganha plano urbano para 50 anos
Estudo preliminar elaborado com a Gehl Architects propõe intervenções no Mercado Público, rua Esteves Júnior e Beira-Mar Norte
Nesta segunda-feira (15), Florianópolis deu mais um passo estratégico para o futuro urbano da Capital. A CDL Florianópolis, a ACIF e o LUA (Laboratório de Urbanismo e Arquitetura) da cidade, apresentaram oficialmente o estudo preliminar de requalificação de espaços públicos do Centro, com foco em um horizonte de desenvolvimento pensado para os próximos 50 anos.
Durante a apresentação, que marca a etapa 2 do escopo geral, a equipe da Gehl Architects – escritório internacional liderado pelo arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, que coordena o estudo – compartilhou o projeto preliminar para três espaços públicos estratégicos que deverão receber intervenções futuras: a região do Mercado Público, a rua e a praça Esteves Júnior e a Beira-mar norte.
Projetos-piloto para o Centro
A apresentação do estudo preliminar foi feita pela arquiteta Rute Nieto Ferreira, da Gehl Architects, líder na condução do projeto. A metodologia aplicada, segundo Rute, combinou análises de dados urbanos, como densidade, áreas verdes, tráfego, comércio, mobilidade ativa e tempo de deslocamento, com leitura territorial e escuta qualificada. O plano preliminar foi estruturado a partir de cinco estratégias orientadoras, norteando tanto os projetos-piloto quanto a visão de longo prazo para o Centro da cidade:
Mobilidade sustentável – Propõe a construção de uma rede viária completa e multimodal, com foco em pedestres e ciclistas. O objetivo é tornar mais fácil, seguro e agradável caminhar, pedalar e utilizar o transporte coletivo, reduzindo a dependência do automóvel na região central.
Espaços públicos e resiliência climática – Prevê a criação de uma rede verde-azul de espaços públicos conectados, integrando áreas de destaque e lugares do cotidiano. A estratégia busca promover soluções baseadas na natureza, como calçadas qualificadas, vegetação nativa, superfícies permeáveis e maior integração com a orla, fortalecendo a adaptação às mudanças climáticas.
Bairros completos e inclusivos – Parte do conceito de “um Centro, múltiplas identidades”, com foco em fortalecer os bairros, ampliar o acesso a serviços essenciais, incentivar usos mistos e qualificar fachadas e áreas térreas, tornando os espaços mais ativos para quem vive, trabalha ou visita a região.
Projetar para crianças – Prioriza conexões seguras, acessíveis e lúdicas entre escolas, parques e áreas residenciais. A proposta inclui mais ruas e espaços voltados aos pedestres, com atenção especial às crianças e seus cuidadores, incentivando pausas, brincadeiras e deslocamentos seguros ao ar livre.
Turismo sazonal – Busca aprimorar a experiência de quem visita Florianópolis por meio da criação de novos polos de atração, melhor distribuição do fluxo turístico e valorização da cultura e do patrimônio. A estratégia aposta em espaços públicos de qualidade, atividades diversas e melhor orientação urbana ao longo do ano.
A partir das diretrizes, durante a fase de design do projeto, também foram definidos três espaços públicos estratégicos para desenvolvimento de projetos-piloto, além da elaboração de um masterplan para a região central, que orientará futuras intervenções de forma integrada.
Mercado Vivo – Zona do Mercado Público e Rua Francisco Tolentino
Considerada o coração histórico e simbólico da cidade, a área do Mercado Público é uma das mais movimentadas do Centro, mas ainda fortemente dominada por carros e estacionamentos visíveis. A proposta prevê priorização do pedestre, mobilidade ativa e qualificação do espaço público, transformando percursos em lugares de permanência e convivência, com a potencialização e até criação de novas praças. A Rua Francisco Tolentino surge como eixo estratégico para integrar comércio, gastronomia e transporte coletivo, ativando o Centro também nos fins de semana e no período noturno.
Zona Escolar – Rua Esteves Júnior (norte) e Praça Esteves Júnior
O trecho foi selecionado pelo potencial de se tornar um protótipo de rua escolar, com trânsito acalmado, uso compartilhado e maior segurança para crianças e jovens. A proposta transforma o trecho norte da via em uma rua-praça conectada à Praça Esteves Júnior, priorizando o pedestre e o brincar. As soluções testadas poderão inspirar intervenções semelhantes em outras zonas escolares da cidade.
Travessias seguras na Beira-Mar Norte – conexão entre o Centro e o mar
Apesar de ser um dos espaços mais emblemáticos de Florianópolis, a Beira-Mar Norte ainda apresenta barreiras significativas para pedestres e ciclistas devido à extensa via expressa. O projeto propõe aumentar a permeabilidade urbana, criando travessias mais seguras e confortáveis entre o Centro e o calçadão, fortalecendo a vida pública no entorno da orla e preparando a cidade para a integração com futuros equipamentos urbanos, como o Marina Parque.
Próximos passos
Após esta apresentação, o material entra em fase de contribuições técnicas e institucionais, que serão avaliadas pelo grupo executivo do projeto. A partir desse processo colaborativo, a equipe internacional avança para a elaboração do projeto final, a ser entregue em março de 2026. Segundo a coordenadora do LUA e responsável técnica pelo projeto, Tatiana Filomeno, a proposta é diferente de tudo que já foi feito e pensado para Florianópolis, justamente porque vai além de intervenções pontuais e busca construir uma visão integrada para o Centro. “O escopo inicial prevê o desenvolvimento de projetos conceituais tangíveis para espaços públicos selecionados e um plano estruturante para a área central, considerando conexões, mobilidade, espaços públicos e o ritmo urbano. Trabalhamos com ações de curto, médio e longo prazo, sempre priorizando as pessoas”, explica.
Tatiana ressalta ainda que o masterplan funcionará como uma ferramenta orientadora para futuras intervenções. “Essa estrutura urbana simplificada descreve prioridades espaciais e cria uma base para que os próximos projetos mantenham coerência, qualidade e alinhamento ao longo do tempo, inclusive além das áreas inicialmente estudadas.”
Para o presidente da CDL Florianópolis, Eduardo Koerich, o projeto representa uma oportunidade histórica de reposicionar a região como um espaço vivo e atrativo. “Estamos falando de um olhar estruturante e de longo prazo, que coloca as pessoas no centro das decisões urbanas. A CDL acredita que uma cidade mais qualificada, acessível e convidativa fortalece o comércio, gera mais segurança e impulsiona o desenvolvimento econômico de toda Florianópolis”, afirma.
Já o vice-presidente da Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF), Thiago Amorim, destacou o papel das entidades na construção de soluções urbanas sustentáveis. “Esse projeto nasce da união entre iniciativa privada, conhecimento técnico e diálogo com o poder público. É uma contribuição concreta das entidades empresariais para o futuro de Florianópolis, com foco em competitividade urbana, qualidade de vida e atração de investimentos”, pontua.
Características próprias
Ainda durante o evento, a equipe de trabalho do Gehl Architects reforçou que o projeto em Florianópolis segue a essência de experiências internacionais bem-sucedidas, mas com total adaptação à realidade local.
“O foco está na criação de espaços públicos mais seguros, acessíveis, ativos e democráticos, promovendo caminhabilidade, convivência e vitalidade urbana, em contraponto a modelos centrados no automóvel”, destacou a arquiteta Rute Nieto Ferreira. “Não se trata de replicar cidades como Nova York ou Copenhague, mas de aprender com princípios que funcionam e traduzi-los para o contexto cultural, social e geográfico de Florianópolis.”
O financiamento do estudo é realizado diretamente pela CDL Florianópolis e ACIF, sem custos diretos ao poder público. A implementação futura das propostas dependerá da priorização dos projetos e da definição de fontes de recursos, como instrumentos urbanísticos previstos em lei, a exemplo da Outorga Onerosa do Direito de Construir.
A expectativa é que o projeto se consolide como um plano estruturante de longo prazo, capaz de atravessar diferentes gestões e servir como referência para a transformação do Centro e, futuramente, para outros bairros da Capital.
Leia também:
- Capital sedia articulação inédita das reservas de surf
Da redação
Para receber notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.
Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!
Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp!
Para mais notícias, clique AQUI
21° | Nublado