Hercílio Luz - a ponte que uniu margens e projetou Florianópolis para o Brasil
No início do século XX, quando a engenharia ainda dependia mais da precisão do olhar do que da tecnologia digital, erguer uma ponte como a Hercílio Luz era um gesto que ia além da técnica. Era, sobretudo, um ato de fé no futuro. Concebida em 1919 pela empresa norte-americana Robinson & Steinman, a estrutura já nascia à frente de seu tempo, projetada inclusive para suportar bondes elétricos que jamais chegaram a cruzá-la, reflexo de um país em constante transformação.

Ponte 2 - Joel Pacheco.
Com seus 821 metros de extensão, a ponte estabeleceu uma ligação física e simbólica entre ilha e continente. Seus números impressionam: viadutos de acesso que somam quase 500 metros, um vão central de 339 metros suspenso com precisão quase artesanal e torres que se elevam a 75 metros de altura, fincadas em pilares submersos a 16 metros abaixo do nível do mar. Tudo isso concebido em uma época em que cálculos eram feitos à mão e decisões exigiam não apenas conhecimento, mas coragem.
A grandiosidade da obra, no entanto, não se limita às dimensões. Sua construção foi um verdadeiro feito logístico e técnico. Mais de 5 mil toneladas de aço atravessaram oceanos desde os Estados Unidos até Florianópolis, fabricadas por gigantes da indústria como a United States Steel Products Company e a American Bridge Company. Cada peça era previamente moldada e numerada, transformando o canteiro em uma engrenagem de precisão absoluta.

Ponte 3 - Fernando Teixeira.
Nas fundações, outro capítulo de complexidade: mais de 14 mil metros cúbicos de concreto, sustentados por cerca de 29 mil barricas de cimento importado da Dinamarca. Para enfrentar o ambiente hostil do fundo do mar, utilizou-se material especial, resistente à corrosão da água salgada, uma escolha que demonstra o cuidado com a durabilidade de uma obra pensada para atravessar gerações.
A partir de 1922, sob a supervisão dos engenheiros Irmãos Corsini, a construção ganhou ritmo e organização. O canteiro de obras tornou-se um ponto de encontro entre culturas e conhecimentos: aço norte-americano, insumos europeus, técnicas internacionais e a força de trabalho local. Um esforço coletivo que transformou o sonho em realidade.

Ponte 4 - Joel Pacheco.
A inauguração, em 13 de maio de 1926, ocorreu sob chuva, mas carregada de significado. Sem a presença de seu idealizador, Hercílio Luz, falecido dois anos antes, a ponte foi entregue pelo governador em exercício, Antônio Vicente Bulcão Viana. Mais do que uma obra de engenharia, aquele momento simbolizava o fim de um isolamento histórico e o início de uma nova integração entre os catarinenses. Foi também decisivo para inserir definitivamente Florianópolis no cenário nacional, conectando-a de forma mais eficiente ao continente e impulsionando seu desenvolvimento econômico, social e urbano.
Canteiro de obras - lado continental - Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de SC.
Hoje, um século depois, a Ponte Hercílio Luz permanece não apenas como cartão-postal, mas como testemunho vivo de uma época em que construir exigia ousadia, engenho e visão. Após décadas de interdições e um longo processo de restauração, sua reabertura em 2019 devolveu à cidade muito mais do que uma ligação viária. A ponte reafirmou seu papel essencial na vida urbana de Florianópolis: é caminho para quem se desloca, espaço de lazer para quem a atravessa a pé, cenário cotidiano de atividades físicas e, ao mesmo tempo, um dos mais importantes atrativos turísticos do país.
Celebrar seus 100 anos de inauguração é, portanto, mais do que revisitar o passado, é reconhecer a grandeza de uma obra que não apenas uniu margens, mas projetou uma cidade para o Brasil e segue, até hoje, conectando pessoas, histórias e gerações.
Assinatura do contrato para construção da ponte Hercílio Luz - Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de SC.
Como parte dessas celebrações, no próximo dia 13, às 17h, data em que a ponte completa seu centenário, será inaugurada a exposição fotográfica/iconográfica Ponte Hercílio Luz 100 Anos – Conectando Gerações. A mostra, realizada por mim e pelo arquiteto/fotógrafo Joel Pacheco, acontece na Alameda Adolfo Konder, na cabeceira insular da ponte, convida o público a percorrer, por meio de imagens, a trajetória dessa obra que atravessa o tempo. Fica o convite para que todos prestigiem esse momento especial, para nós e para a cidade.
Assista o vídeo sobre o centenário da Ponte - Clique AQUI
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Sobre o autor
Fernando Teixeira
Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFSC), mestre em Geociências e Doutor em Educação Científica e Tecnológica (UFSC), natural de Florianópolis. Atualmente tem se dedicado à fotografia.
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