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Mosaicos de Sátiro revelam potência social da arte
A vida do arte-educador que substituiu a violência por cor, técnica e cuidado coletivo

Mosaicos de Sátiro revelam potência social da arte
Reconhecido como Mestre Baleia, o artista espalha obras pela cidade e forma jovens em oficinas que unem reciclagem e consciência ambiental. (Fotos: Acervo pessoal)

Publicado em 25/11/2025

E o nosso Personagem da Semana é Sátiro dos Santos Filho, nascido e criado no Morro do Mocotó, que perdeu a mãe aos 4 anos e o pai aos 9. Cresceu enfrentando o peso precoce da ausência familiar, encontrou cedo o trabalho duro e, ainda adolescente, mergulhou na realidade da criminalidade local. Hoje, a cena se inverte: ele volta ao mesmo morro não como sobrevivente, mas como referência. Arte-educador, homenageado, parceiro de artistas consagrados e conhecido por alunos e vizinhos como Tio Baleia ou Mestre Baleia, ele se tornou uma figura que atravessa fronteiras sociais para “salvar” jovens pela arte do mosaico. Sua história, que começou por acaso numa obra, se transformou em propósito.

As sobras que mudaram tudo

O encontro com o mosaico nasceu entre restos de material da CASACOR 1999, na Mansão Estilos, na Lagoa da Conceição. Sátiro trabalhava na construção quando percebeu que ali, entre sobras, havia matéria-prima. O reaproveitamento já fazia parte do seu olhar. Ele conta que sua relação com o reciclado ganhou força depois de mais de duas décadas como gari, sendo 16 anos na coleta convencional e 6 na coleta seletiva. “Eu fui o primeiro gari de Florianópolis a entrar dentro de uma cooperativa”, lembra. Nas cooperativas, aprendeu a distinguir lixo de material reaproveitável e passou a resgatar peças que mais tarde se tornariam arte.

Do trabalho na obra, levou para casa pequenas sobras e começou a criar quadros simples, com temas como Avaí e Figueirense. Mostrava tudo aos sobrinhos no morro. O apelido Tio Baleia vem dali, e também os primeiros ensinamentos. Ele recorda as correções das crianças com carinho: “Eles diziam: ‘Tá torto aqui, tio Baleia’. Eu ouvia e acatava. Não era crítica, era incentivo. Eles estavam me ensinando.” Ele desmontava e refazia. Ali surgia o rigor que marcaria sua assinatura.

 

Conhecido como Mestre Baleia, ele atua em favelas, instituições de ensino e espaços culturais, unindo técnica, disciplina e afeto.

 

O foco que antecede o sucesso

Na mesma época, Sátiro ainda nem dominava a técnica, mas já falava com convicção sobre seu futuro. Ele conta que sempre teve foco, desde os nove anos. A ex-esposa o lembrava: “Tudo o que tu faz dá certo”. E ele repetia a frase que hoje faz questão de frisar: “O sucesso do meu trabalho é inevitável”. Isso o acompanhou ao longo da vida. “Eu sempre fui bom no que eu fiz, sempre. Eu sempre tive que ser o melhor. Com 14 anos eu era chamado de Mestre Baleia. Como assim? O neguinho magrelo que anda de pé no chão ser chamado de mestre?”, recorda. A determinação virou marca.

Com o tempo, aperfeiçoou o olhar. Ele se lembra do dia em que precisou refazer o trabalho do próprio mestre, um São Jorge para o restaurante Ori, no Abraão. “Não descia aos meus olhos”, conta. Esperava o colega sair e refazia tudo. O episódio se tornou cômico e decisivo. “Um dia ele voltou, me viu refazendo e disse: ‘Mestre, tá desmanchando. O mosaico é para ver de longe’. Eu falei: ‘Vou fazer um mosaico para tu ver de perto’.” A partir dali, Sátiro desenvolveu um estilo próprio, com traços definidos e precisão minuciosa.

Do lixo à arte que espalha consciência

Hoje, painéis de Sátiro estão distribuídos por praticamente toda Florianópolis. Ele estima que quase não há bairro sem um mosaico seu. O reaproveitamento segue central. “A reciclagem é parte fundamental do nosso trabalho. Estamos tirando material do meio ambiente e dando consciência ambiental às pessoas”, explica. Em muitos bairros, moradores guardam sobras para entregar ao artista, que transforma descarte em obra.

Sua história como artista também ganhou reconhecimento institucional: homenagens no Colégio Anísio Teixeira, na Secretaria de Educação, a Medalha Joana de Gusmão na Câmara de Vereadores e tributos em outras escolas. Ele também criou peças para marcas importantes, como um mosaico para Eduardo Van Doren, da Vans, e chegou a produzir tênis para a empresa, em São Paulo.

 

Obras de mosaico chegam a parcerias com empresas de destaque.

 

Arte-educação como missão de vida

Se o mosaico é técnica, a educação é emoção. É nesse ponto que Sátiro se transforma. “A emoção de ser um arte-educador” é o que o move. O artista entra com naturalidade em nove ou dez favelas de Florianópolis. “Prefeito, secretário, ninguém faz isso. Eu faço”, diz.

No Morro do Mocotó, onde foi patrão do tráfico aos 18 anos, retorna hoje com outro propósito. “Eles dizem: ‘O professor tá aí com a nave’. E eu digo para eles: ‘Você sabe o que me deu essa nave? Foi trabalhar muito. E eu estou aqui para ensinar essa arte linda para vocês serem melhores do que eu. E aí vocês vão ter uma nave melhor do que a minha’.”

Em um dos colégios onde atua, seu impacto é visível. No Adotiva, a diretora já o recebeu dizendo que muitos alunos só participavam das aulas se ele estivesse presente. Ele lembra de João (nome fictício), aluno que desistiu de entrar no colégio ao saber que o professor não estava. “Eu disse para a diretora: ‘Vou lá no morro atrás dele’.” Foi. Subiu, pediu permissão ao pai do menino, chefe do tráfico, e buscou o aluno. Lá em cima, ouviu da mãe da criança uma frase que ele guarda como combustível: “Baleia, tu e esse teu trabalho, é a única coisa que tá salvando meu filho.”

Antes de se tornar arte-educador profissional, fazia tudo ganhando R$ 400 por mês nos contraturnos como gari. “Eu corria 5, 6 horas atrás no caminhão, chegava em casa morto, mas tinha 10 guris pequenos aqui no meu portão. Eu não conseguia nem descansar. Eu ia para dentro de um colégio dar a aula”. Sátiro ainda usava o que recebia como gari para pagar duas ajudantes. “Deus tá me pagando já. Eu tô sendo pago para estar aqui. É uma benção”, afirma.

A comunidade como parte da obra

A participação popular é outro elemento que o emociona. Cerca de quatro mil famílias já colocaram as mãos em mosaicos feitos por ele. Em todas as oficinas, ele faz a mesma pergunta: “Você conhece alguém que faz mosaico?”. A resposta quase sempre é “não”. Para ele, isso reforça o privilégio de compartilhar uma arte rara com tanta gente.

O encontro com Luciano Martins e a obra que virou marca

A parceria com o artista Luciano Martins começou em um colégio particular, o Guroo, onde Sátiro mobilizou os alunos para criar uma cidade sustentável de materiais reciclados. A dedicação da turma impressionou Luciano. “Quando eles iam lanchar, voltavam correndo para a sala”, conta. A química entre os dois artistas se manteve e resultou em peças conjuntas: santas, figuras e personagens.

 

A parceria entre Sátiro dos Santos Filho e Luciano Martins uniu dois universos criativos e resultou em obras que ampliam o alcance do mosaico e aproximam diferentes públicos da arte.

 

O ponto alto surgiu quando Luciano fez um desafio: dez santas. Sátiro entregou. Na nona, veio outra proposta: um Cristo. Ao terminar, o artista anunciou que viajaria para a Europa e que organizariam uma exposição na volta. Sátiro respondeu com ousadia: “Vou fazer agora a minha cereja do bolo”. Criou, então, uma Santa Ceia inteira em mosaico. Passou oito finais de semana praticamente sem sair da peça. “Eu comia em cima da obra”, lembra. O resultado encantou o parceiro e o público. 

Da construção civil ao reconhecimento

A caminhada desde a construção civil até o reconhecimento como artista renomado é vista por Sátiro como vitória. Ele lembra que, no começo, seu próprio mestre se negou a ensinar. Sátiro tentou convencê-lo a criar um projeto social, mas ouviu que não valia o risco caso alguma criança se machucasse. Anos depois, depois de ensinar mais de duas mil crianças, ele enviou ao antigo colega o vídeo de um menino que cortou o dedo. “Eu disse: ‘Este é um dos mais de 2.000 que eu já ensinei. Se eu tivesse que comprar 2.000 Band Aids, ainda ia estar feliz’.”

O conselho para quem quer transformar a vida pela arte

Aos jovens, ele repete o que aprendeu na prática: “A arte não é carreira fácil. Nenhuma é. Mas existe algo que eu chamo de energia, de foco. Eu sei que eu vou dar certo. Primeiro isso, depois botar o coração no que tu faz. Se tu põe o coração no que faz, ninguém vai te ganhar.”

Hoje, depois de difundir mosaicos por toda Florianópolis, ser homenageado por instituições, formar milhares de alunos, circular entre galerias e favelas, Sátiro se reafirma como um vencedor. Um artista que devolve para o mundo aquilo que acredita ter recebido como missão: transformar materiais, lugares e vidas.

 

Arte-educador e artista premiado, Sátiro reaproveita materiais descartados para criar obras e formar jovens que encontram na arte novas possibilidades de futuro.

 

 

Da redação

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