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Leia, assista e sinta o amor em “O Filho de Mil Homens”
Baseada na obra de Valter Hugo Mãe, o filme de Daniel Rezende é um poço de sensibilidade, empatia, amor e quietude, com uma fotografia que vale ser visitada nas telonas

Leia, assista e sinta o amor em “O Filho de Mil Homens”
“O Filho de Mil Homens” chega aos cinemas com direção de Daniel Rezende e roteiro inspirado na obra de Valter Hugo Mãe, explorando amor, solidão e pertencimento com poesia e sutileza. (Foto: Divulgação)

Publicado em 04/11/2025

Não fosse pela cronologia dos fatos, tamanha a fidelidade histórica recíproca, seria difícil dizer quem nasceu primeiro: o livro ou o filme. As obras, respectivamente de Valter Hugo Mãe e Daniel Rezende, tratam em profundidade de complexos sentimentos humanos com uma leveza e competência extremas. Difícil de encontrar, em nível de contar nos dedos, obras literárias que conseguiram ser tão bem traduzidas para a linguagem do cinema, sem perder a essência, deixar passagens importantes pelo caminho ou sequer distorcer características primárias dos seus personagens. Rezende, na minha opinião, conseguiu não só traduzir como melhorar a descrição de Mãe nas principais cenas, abrindo espaço para a arte se manifestar lindamente na tela, por meio de uma fotografia majestosa, assinada por Azul Serra. Também por isso, “O Filho de Mil Homens” é uma obra que merece ser assistida no cinema, ainda que a tentação de ir para sofá de casa seja cada vez maior, já que a promessa é de que o filme estreie na Netflix no próximo dia 19.

Os personagens são densos, e por carregarem em grande parte sentimentos de agonia, abandono e dor, conseguem transformar ausências e feridas em puro amor. A narrativa das histórias entrelaçadas mostra sentimentos intangíveis, difíceis de serem materializados em palavras, mas que conduzem os personagens para um fio de ligação que não é o de sangue, mas o amor possível, entre os diferentes. Tanta complexidade mereceu do roteiro e da direção habilidades supremas: um elenco que convence e comove, um tratamento fotográfico impecável e uma quietude tratada com recursos de sons de vento, mar, água, passos de gente, que conduzem com exatidão à mesma tempestade de sensações de quem leu o livro de Mãe.

Eu comecei a ler o livro “O Filho de Mil Homens” um dia antes de ir ao cinema assisti-lo, e terminei poucas horas antes. Quando assisti ao filme, no Paradigma Cine Arte, a sensação foi de ler o livro pela segunda vez, mas com novos olhos e ouvidos, capazes de dar cor e vida e materialidade aos personagens que haviam pulado das páginas de Mãe. Pode-se dizer que Rezende operou um milagre neste trabalho tão impecável, não fosse a competência que já lhe é peculiar, aliada à experiência de outros grandes desafios cinematográficos já vividos por ele.

A voz divina de Zezé Motta que entoa trechos finamente pinçados do livro, abrindo cada pequeno capítulo do filme, dá um charme ao todo, além de pontuar as passagens e marcar o tempo. Rodrigo Santoro, no papel de Crisóstomo, o protagonista, se supera a cada novo trabalho e mostra uma maturidade que se instala no ator. Todo o elenco, com destaque para Camilo (Miguel Martinez), Francisca (Juliana Caldas), Antonino (Johnny Massaro) e Isaura (Rebeca Jamir) encarnam deliciosamente seus personagens.

Mas, prepare-se, o filme tem uma lentidão na primeira meia hora – necessária ao entendimento dos contextos – que exige foco. Também não é um filme de obviedades rasas, vai pedir raciocínio e discernimento para entender as conexões das histórias paralelas. Do meio para fim, tudo fica mais amarrado, entendível e a história flui numa suavidade e ritmo próprios que a vontade é que o filme não mais acabe.

Nota da colunista: Valter Hugo Mãe, foi escrito aqui em maiúsculas porque assim o escritor permitiu. Até pouco tempo, e durante boa parte da sua carreira, ele se apresentava como “valter hugo mãe”, porque queria garantir um pensamento mais contínuo e poético, refletindo a língua da forma como é falada (aliás, vale observar que nos créditos finais do filme, todos os nomes da ficha técnica aparecem em minúscula, numa clara homenagem ao autor da obra). Porém, o tempo passou, e o que era uma marca, foi abandonado recentemente - o autor voltou a escrever e a assinar com maiúsculas justamente para evitar que seus livros, que buscam a poesia da humanidade de personagens no limite da sobrevivência, fossem reduzidos aos "romances escritos com minúsculas".

Serviço:

Onde assistir: https://www.paradigmacinearte.com/
A partir de 19 de novembro: Netflix

 

 

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Sobre o autor

Karin Verzbickas

Karin Verzbickas

Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha


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