Revisitando a cidade - memórias de um ilhéu de coração

Escrever sobre uma cidade muitas vezes torna-se algo desafiador. Ainda mais quando se trata de um lugar pelo qual a paixão fala mais alto do que as percepções que temos a seu respeito. Esse organismo complexo e em constante transformação guarda segredos e histórias fantásticas, mas que infelizmente aos poucos vêm se perdendo, haja vista a velocidade desses tempos modernos que invariavelmente nos afasta das relações interpessoais, tão salutares e necessárias à preservação da identidade de um lugar. De vez em quando é preciso parar e escutar com atenção o que têm a nos dizer pessoas que já viveram mais do que nós e guardam na memória recordações de outros tempos, pois isso nos possibilita entender como chegamos até aqui, e como foi nossa trajetória até este momento. Uma cidade é feita da somatória de muitas contribuições, de erros e acertos, de avanços e retrocessos, de desejos e aspirações. É preciso conhecer seu processo de crescimento e evolução, pois só dessa forma conseguimos compreender o presente e assim refletir sobre que futuro desejamos para ela. Sentado num bar do Mercado Público, encontrei Décio Bortoluzzi, um velho conhecido com quem gosto de conversar para poder conhecer um pouco mais esta cidade que acaba de completar 352 anos de fundação. Ele veio para a ilha com os pais e avós quando tinha apenas dois anos de idade, e a família se instalou na rua Conselheiro Mafra, bem no coração da capital.
Décio Bortoluzzi - Da janela do Hotel via os navios aportarem na baía Sul.
Hoje com 82 anos e com uma saúde de dar inveja a muita gente, gosta de caminhar pelas ruas centrais de Florianópolis e assim revisitar um passado cheio de boas lembranças. Convidado a acompanhá-lo, me deliciei com inúmeras histórias de edificações que ainda resistem à força do poder imobiliário, além, é claro, de algumas passagens vivenciadas por ele neste recanto tão simbólico de Florianópolis. Conta que da janela do Hotel Central, de propriedade de seu avô, localizado próximo ao prédio da antiga Alfândega, onde morou por vários anos, via os pequenos aviões de uma empresa de aviação nacional pousarem nas águas tranquilas da Baía Sul, trazendo passageiros de outros cantos do Brasil, o que era motivo de espanto para a garotada da época. Dali também avistava os navios do Hoepcke, que chegavam e partiam do antigo cais do porto, desaparecido com a implantação do aterro daquela baía na década de 1970. Segundo ele, nos anos de 1950 a Felipe Schmidt era uma rua que já possuía um comércio pujante, repleto de boas lojas, enquanto a Conselheiro Mafra se mostrava bem mais acanhada, mesclando casas comerciais menos importantes, hotéis, bares, alguns prostíbulos e várias pensões, como a existente na torre sul do Mercado Municipal, muito utilizada por caminhoneiros que traziam as mercadorias a serem comercializadas naquele local.
Antigo Hotel Majestic - (Conselheiro Mafra com Trajano).
Décio se recorda, com nostalgia, de alguns bares existentes na região. O Universal, em frente ao extinto Hotel Querência, era bastante eclético. Pela manhã servia uma deliciosa banana recheada com café, difícil de resistir. No almoço, a chuleta era o carro chefe, e à noite se transformava no lugar preferido dos boêmios. Já o Bossa Nova, criado para homenagear o novo ritmo musical que surgia no país, nos anos de 1960, também era ponto de encontro de boêmios e intelectuais da cidade. No Mercado Público, o bar Goiano ficou marcado por receber João Gilberto, que acabara de cantar no Clube Lira e de lá havia se ausentado por causa do barulho excessivo, coisa que o astro detestava em seus shows.
À esquerda, antiga sede do Jornal O Estado. À direita sede da Filarmônica Comercial (Conselheiro Mafra).
Em parceria com Luiz Henrique Rosa, tocou durante o resto da noite, e a música varou a madrugada, para delírio dos presentes. Nas imediações também foi filmado “O preço da Ilusão”, uma obra de Salim Miguel no período do Cinema Novo. O bar São Pedro, localizado ao lado da Alfândega, e que tinha, segundo Bortoluzzi, o melhor pão com linguiça Blumenau da cidade, foi também cenário dessa película que teve sua estreia nos salões do antigo Clube Doze de Agosto, o que era comum naquela época. Caminhando pela Conselheiro, Décio, além de mostrar as edificações, fez questão de lembrar a importância de muitas delas para a cidade. O antigo Hotel Metropol, uma das construções mais imponentes da região, as edificações onde funcionavam os jornais “O Estado”, “A Gazeta”, “A Verdade”, as Lojas Hoepcke, os hotéis Majestic e Central, o beco dos segredos estão presentes em sua memória de maneira inabalável.
Antigo Hotel Metropol - uma das construções mais imponentes da região (Conselheiro Mafra).
Pelos lados da Felipe Schmidt, Bortoluzzi fez questão de ressaltar a importância do antigo Hotel Lux, palco dos melhores esquentas para os carnavais da época, e que funcionava no belo edifício construído nos anos de 1940, a resistente loja de tecidos Kotzias, que ali permanece desde 1910, além do famoso Ponto Chic, também conhecido como Senadinho. Do outro lado da Praça XV, a lembrança das rádios Diário da Manhã e Guarujá, dos cines São José, Ritz, Rox e Coral, das coloridas regatas na baía sul naqueles domingos ensolarados faz nosso anfitrião se emocionar e levantar algumas questões bastante pertinentes. Para ele, a perda de belas edificações históricas que deram lugar a edifícios sem graça, o distanciamento forçado do manezinho com o mar que batia às portas do mercado público, o desaparecimento dos cinemas de rua, a falta de livrarias na cidade, a ausência dos cafés que propiciavam animados bate-papos ou as conversas entre amigos em torno da centenária figueira da Praça XV de Novembro são coisas que o entristecem.
Ao fundo, à direita, Edifício São Jorge - antigo Hotel Lux - no térreo funcionava o famoso Ponto Chic, ou Senadinho. (Felipe Schmidt).
Para Bortoluzzi, Florianópolis, sobretudo seu casco antigo, como gostam de falar os espanhóis, necessita de muito mais carinho e atenção. Cuidados simples que podem torná-la mais bonita, mais atraente, mais humana e mais habitável. Ao terminar nossa incursão pelas ruas da cidade, fez questão de reforçar uma frase que gosta muito de usar e que achei interessante para finalizar este artigo, pois tem muito a ver com o que presenciamos ao longo de nossa caminhada: “Florianópolis é uma linda mulher, mas que não sabe se arrumar”! Tenho que concordar com ele!
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Sobre o autor

Fernando Teixeira
Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFSC), mestre em Geociências e Doutor em Educação Científica e Tecnológica (UFSC), natural de Florianópolis. Atualmente tem se dedicado à fotografia.
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