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Uvas ácidas demais para o seu tempo, por Eduardo Araujo
Castas deixadas em terrenos menos valorizados começam a ganhar destaque com a mudança das condições climáticas

Uvas ácidas demais para o seu tempo, por Eduardo Araujo
Uvas que durante décadas foram consideradas ácidas demais, magras ou difíceis de amadurecer começam a ganhar protagonismo em diferentes regiões vinícolas. (Foto: Divulgação)

Publicado em 17/09/2026

Toda região vinícola tem aquela uva que ninguém pedia. A que ficava plantada nos piores pedaços de terra, nas encostas mais frias, nos vinhedos que não eram ideias para Chardonnay nem Pinot Noir. Uvas "ácidas demais", "magras demais", que sempre entregavam um vinho um degrau abaixo do que o produtor realmente queria mostrar. Hoje, com o planeta esquentando um grau de cada vez, algumas dessas uvas está silenciosamente virando protagonista.

A lógica é simples. Acidez alta era um problema quando a uva mal conseguia amadurecer. Numa safra mais quente, a mesma acidez vira estrutura com frescor, capacidade de guarda. Aquela uva continua lá, igual, mas o clima mudou muito.

Na Borgonha, a Aligoté foi por décadas a irmã pobre do Chardonnay, plantado nos terrenos que não mereciam nem denominação Villages, servido gelado e misturado com licor de cassis para adoçar e disfarçar a acidez brutal. A mesma acidez que hoje é o que todos buscam. Thibault Liger-Belair, um dos nomes mais respeitados da Côte de Nuits, trata seu Bourgogne Aligoté Clos des Perrières com o mesmo cuidado que dedica aos seus principais tintos, ele está plantado numa parcela excelente e calcária. O resultado é salino, tenso e com corpo, longe do estereótipo de vinho de aperitivo.

No vale do Ahr, talvez o mais ao Norte do mundo dedicado a vinhos tintos, na Alemanha, o Frühburgunder (Pinot Precoce) sempre foi visto como capricho de agrônomo. É uma mutação precoce do Pinot Noir, amadurece duas ou três semanas antes da variedade original, o que virava problema num clima curto e frio, somado a casca fina e produtividade baixa. Meyer-Näkel, referência absoluta da região, mostra por que essa uva antiga está recebendo tanta atenção agora: mais leve que o Spätburgunder clássico, mas com profundidade surpreendente.

Já no Jura, o Trousseau é, das castas autorizadas, a que mais precisa de sol para madurecer, o que sempre a deixou em segundo plano diante de Poulsard e Pinot Noir. Fumey-Chatelain batizou sua parcela mais antiga de "Le Bastard", referência direta ao Bastardo português, sinônimo histórico da mesma uva. É um nome que carrega décadas de status de segunda linha, hoje estampado numa das cuvées mais celebradas da casa.

Na Grécia, o Xinomavro carrega a história no próprio nome. Xino é ácido, Mavro é preto. Durante décadas foi tida como difícil demais, ácida e tânica demais para o gosto internacional, comparada aos Nebbiolo mais “nervosos”. Aqui a virada do jogo não é só sobre o clima, mas sobre mudança de paladar e técnica de vinificação, mas o padrão se repete: o que afastava bebedores há vinte anos hoje atrai justamente quem busca frescor e um perfil de envelhecimento mais Barolo do que Cabernet. Thymiopoulos é hoje um dos produtores mais respeitados para entender o potencial da uva.

E talvez o caso mais simbólico seja o Melon de Bourgogne, base do Muscadet. Foi expulsa da própria Borgonha em 1709, acusada de dar vinhos amargos quando não madurecia direito, e encontrou refúgio no litoral atlântico do Loire como sinônimo de vinho barato para acompanhar ostras, iguaria local. A crítica especializada já vem chamando Muscadet de termômetro do aquecimento global, porque a mesma acidez que soava como defeito agora sustenta vinhos com mais fruta e mais profundidade. Jérôme Bretaudeau, em Clisson, trabalha parcelas de solo gabro com um cuidado quase borgonhês, provando que a uva tem um potencial incrível e muito mais a dizer do que o rótulo genérico permitia.

O fio que une esses casos não é sorte nem moda, é a realidade de um novo clima padrão em regiões seculares. Se quiser sentir isso na taça, vale procurar um Bourgogne Aligoté do Thibault Liger-Belair, um Frühburgunder do Meyer-Näkel ou um Melon de Bourgogne do Bretaudeau. Uvas que sempre foram as mesmas, interpretadas com o clima de hoje.

 

 

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Sobre o autor

Eduardo Machado Araujo

Eduardo Machado Araujo

Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers


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