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Pra não dizer que não falei das flores! Por André Vasconcelos
Couve-flor, alcachofra, alcaparra e rosas mostram que flores também podem fazer parte da gastronomia

Pra não dizer que não falei das flores! Por André Vasconcelos
A primavera chegou trazendo cores e perfumes, mas as flores também podem ocupar outro lugar: o prato. (Foto: Divulgação)

Publicado em 25/09/2026

Para quem viveu nos idos 1960 e 1970, pode até imaginar que esta seja uma coluna política de protesto... nada disso! Vandré compôs a música/poesia com esse título que tornou-se hino de uma geração que lutou contra os desmandos de um governo déspota.

Nasci no início dos anos 1960, era uma criança quando o presidente eleito foi deposto pelos militares… algo que alguns sonham que volte a acontecer. Falta de liberdade democrática, censura e repressão aos opositores. Censura à imprensa, à arte e à cultura! Época do Milagre Econômico: arrocho salarial, desigualdade social crescente e uma dívida externa também crescente.

O golpe provavelmente acabaria com as redes sociais com seus influencers e defensores de ideias que não estivessem dentro do manual moral dos líderes. Prefiro a liberdade de expressão e a liberdade de viver como quero! Prefiro a liberdade de cozinhar com os mais inusitados ingredientes, inclusive flores.

E por que não falar de flores???? Neste recém início da primavera, muitos artigos publicados tiveram como tema a nova estação e suas lindas flores! Ah, como é perfumada e colorida a primavera... e pode ser saborosa também!

Mesmo sem notar, muitas vezes temos flores à mesa, e não só nos arranjos em vasos, mas também nos pratos. A couve-flor não requer qualquer definição, o seu nome já diz... é flor!

Os brócolis são flores, tanto o “chinês”, que tem jeito de uma couve-flor verde e gosto de uma couve-flor mais fedida. Já os brócolis em rama são como buquês, sempre presentes nas feiras e pratos da minha infância como flores de verde vivo, crocantes e saborosas.

A alcachofra é outra que não nega o seu jeito de flor mesmo no prato: pétalas carnudas com sabor irrepreensível, e, ao finalizar a degustação de suas pétalas mergulhadas em manteiga quando quentes ou em um simples vinagrete quando frias, surge o miolo escondido em um fundo fibroso não comestível!

O que dizer desse miolo ladeado por pétalas que, de tão finas, derretem na boca??? Não é por nada que esse miolo é chamado de coração de alcachofra... impossível não se render a um tão doce coração.

A alcaparra é outra flor, ainda em botão, que, assim como a alcachofra, é consumida desde a antiguidade. Ainda em botão não aberto, a alcaparra, originária da Ásia, é colhida e colocada em uma solução de sal e vinagre, mas há quem a seque somente em sal, garantindo mais sabor e aroma para utilizá-las em pratos com muita personalidade, ou em molhos, como o clássico molho tártaro.

Vindo em nossos pratos floridos desde a antiguidade também está o açafrão, cujos pistilos estão entre os alimentos mais caros do mundo... esse tempero floral rende não só belos pratos, mas também belos textos de tão grande sua importância, cor e sabor...

Outra flor que atravessou o tempo e pousou no seio da Bahia, na Gabriela de Jorge Amado, foi o cravo-da-Índia, que apesar de ter gosto bem brasileiro e ter a Índia no sobrenome, é originário da Indonésia.

As flores tidas como ornamentais são ingredientes fundamentais no receituário mundial. A rainha delas, a rosa, tem presença marcante na culinária dos países bálticos e do Oriente, tanto no doce turco rahat loukoum, uma goma perfumada e de sabor delicado, quanto em geleias e na maward, uma água de rosas que inunda a cozinha árabe.

O perfume e cor da lavanda também encantam frescos ou em geleias, que fazem do clássico cheese cake, uma viagem inebriante.

A flor de laranjeira, componente que dá personalidade a licores como o Cointreau e o Grand Marnier, extrapolou as fronteiras das baklavas, malabies e das caldas de ataif de natas ou nozes e foi perfumar macarons e madeleines na França, doces, caldas e diferentes receitas na Espanha.

Não há espaço para falar de todas as flores culinárias, até porque, todas as ervas que usamos normalmente em nossos pratos, florescem, e suas flores são como um resumo de seus sabores e perfumes: intensas, coloridas e saborosas.

Temos entre tantas flores comestíveis primaveris: o amor-perfeito, perfeito na forma e cor, como amor eterno, o borago, a calêndula, a picante capuchinha, o doce dente-de-leão, o cítrico hibisco, as delicadas violetas, enfim, não faltam flores para darem sabor em uma cozinha criativa não importa a estação do ano.

E ainda podemos lançar mão do mel e do pólen, que nada mais são do que a compilação dos sabores e texturas de todas as flores. Cada mel, de cada florada, de cada região, nos apresenta um perfume e um sabor, nem sempre o mesmo da flor que o originou, mas algo que chamamos de terroir.

Mas esse insumo, o mel, merece uma doce crônica só dele!

Viva a primavera com suas flores cheias de sabores. Bom apetite!!!

 

 

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Sobre o autor

André Vasconcelos

André Vasconcelos

Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!


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