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Pouilly-Fuissé, uma denominação com quatro sotaques, por Eduardo Araujo
Denominação da Borgonha reúne quatro comunas com terroirs distintos e estilos de Chardonnay que surpreendem até os apreciadores mais experientes

Pouilly-Fuissé, uma denominação com quatro sotaques, por Eduardo Araujo
A denominação da Borgonha reúne quatro comunas com terroirs distintos, que influenciam diretamente o perfil dos vinhos. (Foto: Divulgação)

Publicado em 30/07/2026

Sempre que alguém me pergunta sobre Pouilly-Fuissé, a primeira coisa que eu quero esclarecer é que aqui é terra de Chardonnay na Borgonha, pra não confundir com Pouilly-Fumé, terra de Sauvignon Blanc no Vale do Loire. Depois, quero saber é de qual comuna vem a garrafa, mais até do que a safra. Já bebi versões dessa denominação que não pareciam ter nascido no mesmo lugar, e demorei um tempo para entender que a diferença não era o produtor nem o ano, era eu tratando quatro lugares diferentes como se fossem um só.

A denominação fica no sul da Borgonha, no Mâconnais, e reúne quatro comunas, Chaintré, Fuissé, Solutré-Pouilly e Vergisson. Cada uma pisa num tipo de solo diferente, recebe o sol de um jeito diferente, e isso aparece na taça na forma de um Chardonnay com personalidade própria. Quem bebe sem saber disso corre o risco de esperar um estilo e encontrar outro completamente diferente na taça, mesmo com o mesmo nome no rótulo.

Essa diferença sempre existiu na prática, mas só ganhou um mapa oficial recentemente. Em 2020 a região classificou seus primeiros premiers crus, 22 vinhedos somando 193 hectares. Antes disso Pouilly-Fuissé era uma denominação única, sem hierarquia de terroir dentro dela, algo que hoje soa até estranho para quem já se acostumou com esse tipo de recorte em outras partes da Bourgogne.

E a classificação não ficou só no nome bonito. Os produtores desses Premiers Crus aceitaram reduzir o rendimento máximo por hectare, banir herbicida nessas parcelas e cumprir um mínimo de três anos antes de replantar qualquer vinha arrancada. São regras que mexem na qualidade do vinho, não só no discurso de vendedor.

Chaintré, a mais ao sul das quatro, costuma ser também a mais solar, com encostas voltadas para leste e sul, de frente para o vale do Saône, onde o calor é mais intenso. Fuissé é o coração geográfico e simbólico da denominação, com o vilarejo cercado de vinhas em quase todas as direções, sobre um calcário clássico que também aparece em alguns grandes climats da Côte de Nuits, coisa que sempre acho curioso de lembrar quando estou por lá e provo alguns vinhos lado a lado com os da Côte de Beaune.

Solutré-Pouilly é a mais esquisita das quatro, no bom sentido, porque nem é bem uma comuna própria. O povoado de Pouilly, que empresta nome à denominação inteira, e ainda a duas vizinhas, Pouilly-Vinzelles e Pouilly-Loché, fica tecnicamente dentro do território de Solutré. Já Vergisson é a que mais me chama atenção ultimamente, depois de anos sendo tratada como periferia da região, ela virou queridinha da crítica, em boa parte por causa dos anos mais quentes, que passaram a favorecer justamente os terroirs mais altos e frescos que antes ninguém queria.

Se você quiser sentir essa diferença na prática, sem precisar decorar mapa de climat, vale procurar dois nomes. Jules Desjourneys, projeto do enólogo Fabien Duperray, trabalha em cima de parcelas antigas garimpadas pela região, incluindo Premier Cru, e um estilo que prioriza tensão e mineralidade em vez de peso. E Château des Rontets, em Fuissé, conduzido por Fabio ao lado de Claire, virou referência de trabalho com baixa intervenção, e ajudou a colocar a comuna de volta no radar de quem gosta de branco sério que rivaliza com grandes nomes mais ao Norte, explorando vinhedos de altitude e alta densidade.

No fim, da próxima vez que você for escolher um Pouilly-Fuissé, vale perguntar de qual dessas quatro comunas ele veio e ficar de olho nos seus espetaculares Premier Crus.

 

 

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Sobre o autor

Eduardo Machado Araujo

Eduardo Machado Araujo

Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers


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