O que é tipicidade, hoje? Por Eduardo Araujo
Degustação às cegas revela como clima e técnicas de produção estão transformando características tradicionais dos vinhos
Há algumas semanas participei de mais uma rodada de degustação às cegas. Um exercício simples na teoria: provar o vinho sem ver o rótulo e tentar identificar a uva, a região, às vezes até a safra. Na prática, é um dos momentos mais honestos que existem para um sommelier. Não há embalagem, não há discurso de importador, não há preço sugerindo qualidade. Só o vinho na taça.
E foi numa dessas rodadas que um Sancerre 2022 me fez parar e pensar.
Sancerre é sinônimo de Sauvignon Blanc em sua forma mais clássica. Os livros ensinam isso desde o primeiro módulo de qualquer curso de sommelier: acidez vibrante, notas cítricas, maçã verde, aquele frescor quase elétrico que faz a boca salivar antes mesmo de engolir. É a uva e o lugar funcionando classicamente.
O Sancerre que eu provei não era nada disso. A acidez estava presente, mas discreta. A fruta tinha um tom mais maduro, quase tropical em alguns momentos. Faltava aquela tensão que define o estilo. Se alguém me entregasse essa taça sem contexto, eu teria chutado outra região, talvez outro hemisfério.
E aqui está o ponto que quero trazer para esta coluna: o que é tipicidade, exatamente, e por que ela está cada vez mais difícil de definir.
Tipicidade é o grau em que um vinho expressa as características da sua casta e do lugar onde foi cultivado. Existem duas camadas. A primeira é varietal, ligada à uva em si. Um Pinot Noir típico traz frutas vermelhas frescas, notas florais, taninos sedosos e acidez marcante. A segunda é regional, ligada ao terroir. Um Chablis típico carrega aquela textura mineral calcária que vem do solo específico da região, assim como um Malbec de Mendoza deve trazer fruta escura madura e taninos maduros, doces, de uma região desértica.
Tipicidade importa porque ela é a base da degustação às cegas, da expectativa do consumidor e dos critérios de avaliação em concursos. Quando você pede um Chianti clássico, espera um perfil específico. Tipicidade é a promessa de que a garrafa vai cumprir o que o rótulo sugere.
O problema é que essa promessa está mudando, e por dois motivos.
O primeiro é a intervenção humana. Madeira em excesso, maceração carbônica, técnicas de vinificação natural que valorizam mais a assinatura do enólogo do que a uva ou o lugar. São escolhas interessantes, mas que deslocam o vinho do que se esperaria dele.
O segundo motivo é mais profundo: a mudança climática. Safras mais quentes estão alterando a maturação de uvas em regiões que sempre tiveram um padrão bem definido. O Sancerre que provei provavelmente não foi resultado de falta de habilidade na vinificação. Foi fruto de uma safra quente que amadureceu a uva de um jeito diferente do que a região entrega há décadas.
Acho que estamos vivendo um momento em que insistir cegamente na tipicidade dos livros pode ser um erro tão grande quanto ignorá-la completamente. Os parâmetros que aprendemos foram desenhados em um clima e modismos que estão deixando de existir. Continuar exigindo que um Sancerre 2022 se comporte como um Sancerre de 1995 é fechar os olhos para a realidade.
Isso não significa abandonar a tipicidade como conceito. Ela continua sendo uma ferramenta valiosa, talvez a mais importante que temos para entender vinho com seriedade técnica. Mas, talvez seja hora de tratá-la como um ponto de partida, não como a palavra final. O mundo do vinho vai precisar, cada vez mais, redefinir o que significa "típico" para cada safra, em vez de comparar tudo com um passado que não vai voltar.
Na próxima vez que você abrir um vinho e sentir que ele não é exatamente como devia ser. Pergunte-se se o problema é o vinho, ou os padrões que você está usando para avalia-lo.
Nosso colunista utilizou inteligência artificial para recriar uma visita ao vinhedo mais icônico do mundo. Assista ao vídeo.
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Sobre o autor
Eduardo Machado Araujo
Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers
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