Música, caipirices e comida! Por André Vasconcelos
Entre referências musicais e gastronômicas, o texto celebra a conexão entre sabores, cultura e identidade
Muitas vezes me pego cantarolando uma moda de viola, daquelas que emocionam nas rádios AM no Brasil rural. Não falo desse sertanejo universitário das vozes esganiçadas inaudíveis com calças justas e canelas finas. Falo das canções caipiras que ladeiam o leite recém-tirado com o café passado no bule, do pão bem sovado e do queijo fresco nas manhãs escuras dos sítios que são, ou deveriam ser, os principais responsáveis pelos bons produtos que enriquecem as mesas dos que sabem e gostam de comer.
São canções, emoções e sabores simples e puros. Caipira por definição de dicionário é “aquele que vive no campo ou na roça; que tem hábitos e modos rudes devido à pouca instrução ou escasso convívio social”... uma tolice acadêmica! Caipira por definição gastronômica, se é que já existe uma, é aquela sensação, aquele sabor que nos acolhe e nos remete às nossas raízes, afinal somos Jeca Tatu na essência, ou deveríamos ser, e nos entristecer por não mais sê-lo.
Cozinhar caipira é expor a alma sem medo e nem ‘pré’ conceitos. É refogar na banha e bater nata para fazer manteiga, é descascar o arroz no pilão e pilar o milho para fazer a quirela, ou o pinhão para fazer paçoca, e se nada disso fizer, ter ciência do quanto seria bom fazê-lo.
Na história culinária recente, da qual boa parte muito provavelmente será esquecida, os cozinheiros deixaram a caipirice de lado e passaram a ser top chefs. As cozinhas se transformaram em laboratórios, lavanderias cheias de espumas ou ateliers de uber-escultores. E quando encontramos nestas cozinhas um fogão à lenha, panelas de ferro ou colheres de pau, geralmente são peças ‘marqueteiramente’ pensadas.
Os restaurantes, antes locais de encontro onde a boa comida era obrigatória, e a alegria também, se transformaram em templos de adoração aos chefs estrelados discursando sobre essa fantasia gastronômica.
E o que dizer do silêncio arrepiante do salão? E daquela música ambiente que se assemelha a trilhas sonoras de Tim Burton para fazer um “estilinho cool”, “estilinho hipster”? Amo Tim Burton, seus filmes e suas trilhas sonoras, mas suas trilhas nos seus filmes e não como complemento musical gastronômico!
A música é o alimento das nossas almas e sua harmonização com o cardápio é fundamental para uma refeição perfeita. É como um tempero equilibrado que pouco se percebe, mas a sensação agradável torna-se clara no paladar, e na audição.
Não existem vestígios na história de quando a música surgiu na vida do homem, alguns românticos afirmam que ela surgiu com o homem, assim como surgiu a necessidade de se alimentar para sobreviver, surgiu a necessidade de cantarolar para ser feliz. Dos primeiros grunhidos dos homens das cavernas até a voz deliciosamente acre de Adele, a música é tão presente na vida humana quanto o alimento. Seja caipira, clássica, moderna, ou até futurista, não importa, a boa música alimenta nossos ouvidos e a boa comida é a música do nosso paladar!
E quando a música e a gastronomia se encontram não com harmonização ou trilha sonora, mas sim como poemas musicados para homenagear sabores musicados? Nada melhor!!
Gal Costa deu uma receita de vatapá entre acordes perfeitos de Dorival Caymmi: “Amendoim, camarão, rala um coco …sal com gengibre e cebola, iaiá, na hora de temperar! O mesmo Corival musicou um filme da Disney não com a receita do vatapá, mas convidando para saborear quitutes baianos: “Você já foi à Bahia? Lá tem vatapá …Lá tem caruru … Lá tem munguzá!... Então vá!”
Louis Armstrong exaltou a Cheesecake em uma música cuja letra é praticamente só o nome da torta, ou a repetição constante de “comendo um cheesecake” … mas vale lembrar que no início do século XX, “Cheesecake” era uma gíria americana que se tornou um termo publicamente aceitável para fotos de mulheres com pouca roupa, seminuas ou nuas. Bem safadinho esse Armstrong!!!
Tim Maia exaltou o chocolate e tomou “guaraná, suco de caju e goiabada pra sobremesa” do Leme ao Pontal! E até Jack Johnson, com seu jeito cool de cantar, convida a moça para acordar tarde, preparar panquecas de banana e aproveitar o dia todo na cama na canção Banana Pancake!!!
E o que dizer de Carmem Miranda cantando praticamente com uma cesta de frutas tropicais no seu turbante?? Essa imagem é o retrato mais simbólico de música, comida, moda e arte!
Tanto a comida quanto a música tem que ter alma e sentimento!
Enfim… música e comida nasceram um para o outro, seja num jantar exclusivo e romântico ao som de Edit Piaf ou num nobre salão à meia luz com um piano ao fundo apreciando um pithivier de magret e foie gras.
E nada melhor que Titãs para encerrar:
“a gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor… a gente quer prazer pra aliviar a dor… a gente quer inteiro e não pela metade… a gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer!”
Bom apetite!
Se gostou deste conteúdo, clique AQUI e leia outros temas do colunista André Vasconcelos!
Para receber notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.
Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!
Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp!
Para mais notícias, clique AQUI
Sobre o autor
André Vasconcelos
Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!
Ver outros artigos escritos?
Notícias relacionadas Ver todas
21° | Nublado