Harmonize sua próxima leitura com a taça certa
Sommelière indica rótulos que acompanham o ritmo, a atmosfera e as emoções de quatro grandes obras da literatura brasileira contemporânea
As férias de julho podem ser o momento perfeito para colocar a leitura em dia, de preferência com uma taça de vinho ao lado. Pensando em transformar cada página em uma experiência ainda mais imersiva, a sommelière Thamirys Schneider, selecionou quatro grandes obras da literatura brasileira contemporânea. Véspera, de Carla Madeira; A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli; Torto Arado, de Itamar Vieira Junior; e um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.
A sommelière sugere vinhos capazes de acompanhar a atmosfera, o ritmo e as emoções de cada narrativa, tornando a leitura um verdadeiro ritual sensorial.
Véspera
Um dos romances brasileiros mais lidos dos últimos anos, a obra Véspera consolidou Carla Madeira como um dos grandes fenômenos da literatura contemporânea e ganhará uma adaptação em série pela HBO Max, estrelada por Bruna Marquezine e Gabriel Leone. A trama começa quando uma mãe abandona o próprio filho e, ao voltar arrependida, descobre que ele desapareceu. A partir desse acontecimento, a narrativa percorre passado e presente para revelar os segredos, ressentimentos e silêncios de uma família marcada por relações intensas e personagens profundamente humanos. O romance aborda temas como maternidade, culpa, abandono, desejo e perdão.
Para acompanhar uma história que transita entre culpa, desejo, abandono e perdão, Thamirys Schneider sugere o vinho português Casa Burmester Reserva D.O.C. Douro Tinto 2022. “Indico ele pela sua complexidade, presença e sedosidade, por ter um final longo e complexo, por apresentar uma ampla camada aromática e um paladar bem estruturado para acompanhar as páginas de leitura, pois ele tem várias camadas, assim como o livro Véspera”, explica Thamirys.
A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli
Anunciado como enredo da Unidos da Tijuca para o Carnaval de 2027, A Cabeça do Santo leva o leitor ao sertão do Ceará em uma narrativa de realismo mágico, humor e afeto. O romance acompanha Samuel, um jovem que encontra abrigo dentro da cabeça abandonada de uma enorme estátua de Santo Antônio e descobre que consegue ouvir as preces das mulheres que rezam ao santo em busca de casamento. A partir desse elemento fantástico, a autora constrói uma história sensível sobre pertencimento, amor e os pequenos milagres da vida cotidiana.
Solar, delicada e cheia de encantamento, a obra harmoniza com o italiano Tenuta Sant`Antonio Nanfrè D.O.C. Valpolicella 2023. “Para este livro a escolha deve ser de um vinho com leveza e sabores curiosos, com toques picantes e agradável frescor, para combinar com o contexto e narrativa. Com certeza é uma boa escolha para acompanhar essa leitura leve, descontraída e divertida.”, comenta a sommeliere.
Ela ainda reforça que como é um livro envolvente do início ao fim esse vinho é indicado por ser curioso, com notas fora do convencional. Ele tem leveza e frescor, mas com notas picantes que deixam a experiência super curiosa. Seus aromas são bem perceptíveis, abrindo notas florais, frutas vermelhas e especiarias doces. Na boca, tem fruta suculenta com toques picantes bem interessantes, seus taninos são delicados e amaciados, e seu frescor é delicioso.
Torto Arado, de Itamar Vieira Junior
Fenômeno editorial e um dos romances brasileiros mais importantes das últimas décadas, Torto Arado venceu os prêmios Jabuti, Oceanos e LeYa, foi traduzido para diversos países e seguirá conquistando novos públicos ao inspirar o enredo da Vila Isabel no Carnaval de 2027. Ambientado no sertão da Bahia, o livro acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia, que retratam gerações de trabalhadores rurais descendentes de pessoas escravizadas, abordando temas como ancestralidade, luta pela terra, injustiça social, espiritualidade e resistência.
Com uma escrita potente e poética, a obra entrelaça realismo e encantamento para contar uma história sobre pertencimento, memória e a força de uma comunidade. Para acompanhar uma leitura de grande profundidade e intensidade emocional, a indicação é o italiano Schola Sarmenti Nerio Riserva D.O.C. Nardo Negroamaro Malvasia 2021, da vinícola Schola Sarmenti que é moderna e sustentável com foco na produção de variedades nativas com uma expressão autêntica do seu terroir.
A narrativa é ancestral, com palavras simples, mas com cortes profundos. Emociona, e vale trazer um vinho com a força do coletivo, de produção familiar, com compromisso com um lugar, com a terra, com que nela habita. “A Schola Sarmenti trabalha com colheita manual, um tempo maior, mas com mais detalhes no processo. A adega, lugar de produção do vinho, é tido como lugar sagrado, onde o vinho surge e me lembrou a ancestralidade que esse livro fala.”, completa Thamirys.
Este tinto é produzido a partir de duas variedades bem conhecidas na região sul da Itália, a Negroamaro e Malvasia Nera, de vinhedos de mais de 40 anos, e passa 8 meses em barricas de carvalho francês tosta média e mais 8 meses de afinamento na garrafa para agregar maior complexidade e estrutura, arredondar os taninos e amaciar o vinho. É um vinho extremamente aromático, vegetal e delicadamente envolvente que emociona a cada gole, uma boa forma de ligar a emoção desse vinho com o livro.
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves
Com mais de 900 páginas, um defeito de cor é uma das grandes sagas da literatura brasileira contemporânea. Vencedor do Prêmio Casa de las Américas e eleito o melhor livro brasileiro do século XXI em uma votação promovida pela Folha de S.Paulo, o romance também inspirou o enredo da Portela no Carnaval de 2024 e segue em alta entre os leitores. A obra acompanha a trajetória de Kehinde, uma mulher africana capturada ainda criança e trazida escravizada ao Brasil no século XIX. Ao longo de décadas, ela atravessa diferentes territórios, enfrenta perdas, conquista a liberdade e empreende uma emocionante busca pelo filho de quem foi separada. Misturando pesquisa histórica e ficção, Ana Maria Gonçalves constrói uma narrativa monumental sobre escravidão, maternidade, ancestralidade, identidade e resistência.
Para uma história épica, intensa e cheia de camadas, a sugestão é o chileno Extinto Carménère D.O. Valle del Cachapoal 2023. “Esse não é um livro para ler com pressa, é um livro para sentir em cada camada. Por isso, um vinho para apreciar em camadas, em detalhes e em evolução.”, comenta Thamirys.
Igual como o livro, este é um vinho de muitas camadas, para ser apreciado com calma. Sua história é interessante, narra uma uva dita como extinta na França, mas redescoberta no Chile, tornando-se a uva tinta emblemática no país, a Carménère. A origem deste vinho está em um vinhedo singular localizado em uma área chamada Pichidegua, a cerca de 15km a oeste de Peumo, no Vale do Cachapoal. Esta área é reconhecida pela qualidade de seus vinhos Carménère e abriga alguns dos vinhedos mais antigos desta variedade.
Uma característica distintiva deste vinhedo é a sua produção em secano, o que significa que não requer irrigação adicional, dependendo exclusivamente das chuvas de inverno da região, devido aos solos profundos com excelente drenagem. A combinação de clima, idade do vinhedo e condições de secano cria um equilíbrio especial e harmonioso, resultando em um vinho com caráter único, acidez fresca e finesse excepcional.
Da redação
Fonte: Wine
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