Há vida após o nascimento? Por André Vasconcelos
Reflexão mostra que muitos dos conceitos vendidos como inovadores já foram criados por mestres da culinária séculos atrás
A cada dia que passa tenho mais certeza que a maioria de nós veio a esse mundo para “ser do contra”, para discordar, para polemizar! Talvez eu seja um desses!!! E com a geração conectada parece que essa certeza ficou ainda mais certa. Principalmente por que, na posse de um iphone 17 mega plus blaster, todos se sentem, ou melhor, têm a certeza que são grandes pesquisadores de Harvard injustamente não laureados por um Prêmio Nobel, mesmo não tendo ideia de que é Harvard e muito menos quem é esse tal de Nobel! “É um novo influencer?” … pensam os jovens gênios!
Não que eu, sexagenário que sou, não lance mão deste instrumento fantástico que é a internet, inclusive, dia desses me deparei com um texto aleatório nas redes, que me deu mais certeza que podemos estar absolutamente errados pensando que estamos certos.
No texto, gêmeos no ventre da mãe discutem se existe vida após o nascimento! Um afirma: “Bobagem, não há vida após o nascimento. E como verdadeiramente seria essa vida, se ela existisse?” O segundo argumenta: “Mas por certo haverá mais luz lá do que aqui... talvez caminhemos com nossos próprios pés e comamos com nossas bocas.”
“Isso é um absurdo!” retruca o primeiro, “o cordão umbilical nos alimenta e é muito curto para caminharmos!” No seu parco conhecimento, o segundo imagina que “veremos a mamãe e ela cuidará de nós.” E o mais cético conclui: “Mamãe? Você acredita em mamães? E onde ela supostamente está?”
E assim caminha a conversa sem chegarem a conclusão nenhuma e cada um carregando a sua certeza, mesmo um estando absolutamente errado e o outro esperançosamente crédulo! É como a discussão de um terraplanista com uma mãe de gêmeos reborn: os dois estão repletos de razão e certezas, mesmo estando à beira da loucura!
E esse mundo de certezas, de pesquisadores de redes sociais, de cientistas da IA e de donos da razão, está tomando conta das cozinhas que crêem que Michelin é o Olimpo à ser alcançado à qualquer preço e que cardápios têm que instigar comensais e viver novas experiências!!!!
E novos cardápios surgem inéditos inovadores com séculos de idade! Já declamei em verso e prosa meu ponto de vista dessas “experiências”: prefiro comer e saciar minha fome de alimento, de prazer e de sabores, do que viver de experiências de chefs que se julgam alquimistas únicos e geniais.
Não é raro escutar em rodinhas de conversa de cozinheiros, e outros seres que habitam o mundo gastronômico, planos de atingir os prêmios e o reconhecimento de críticos influentes e renomados apresentando experiências únicas! Poucos falam do prazer de cozinhar, um conceito complexo que consiste basicamente em produzir alimentos, saciar nossa fome, nos manter vivos …e tudo isso com muito sabor e um prazer gustativamente íntimo!
Cozinhar é uma ciência, mas é, antes de tudo, arte! O ato de cozinhar historicamente surgiu com o domínio do fogo, e a arte surgiu com o desejo de expressar sentimentos e exaltar os criadores! Cozinhar é isso, expressar e exaltar, é a necessidade de transformar insumos, é técnica, é química, é matemática e física… cozinhar é arte… e ser cozinheiro é dominar isso tudo com simplicidade e inteligência.
E esse sentimento sempre foi intuitivo na evolução da gastronomia! O amor a essa arte, a dedicação e a loucura de seres determinados e apaixonados por essa arte, fez a gastronomia evoluir em tempos onde nem de longe tínhamos as ferramentas que temos hoje para cozinhar… e eles inovaram muito mais nos séculos XVII, XIX e XX do que todo o poder da internet e da IA.
Antonin Carême mandava carruagens aos Alpes para trazer gelo e transformava os porões de castelos em câmaras frias rudimentares … criou nesse ambiente mousses e aspics que serviram reis e inspiraram cozinheiros!
François Vatel descartou uso de especiarias herdadas da Idade Média e na sua cozinha valorizou os ingredientes frescos. O icônico chantilly é um exemplo disso: Vatel notou que o leite da região do Castelo de Chantilly era mais gorduroso e aerado e, ao batê-lo com açúcar e baunilha, ele incorporava ar como em um merengue! Surgiu assim a mais icônica cobertura de confeitaria!
Jean Anthelme Brillat-Savarin foi o precursor da ideia que a culinária não deveria ser apenas um serviço doméstico, mas uma ciência a ser estudada! Estudou o comportamento das pessoas perante aos alimentos para defini-las: "Dize-me o que comes e te direi quem és"!
Muito do que conhecemos como arte de receber, vêm de regras estudadas e definidas por Savarin. Para ele, o sucesso de um jantar não dependia da quantidade de comida servida como se via nas cortes européias, e sim do cuidado do anfitrião em criar uma atmosfera agradável e uma comida que abraçasse, a tão festejada comida afetiva! "A descoberta de um novo prato é de maior importância para a felicidade humana do que a descoberta de uma nova estrela"... assim esse estudioso confirmou que o prazer da mesa é o único que não nos cansa e que nos acompanha do início ao fim da vida!
No século passado, uma apresentadora de TV, Julia Child, afirmava que qualquer pessoa poderia cozinhar pratos sofisticados e desmistificou a alta culinária francesa com bom humor e uma coragem que só as mulheres têm! "Com manteiga suficiente, tudo fica gostoso"!
No seu programa diário, The French Chef, Julia levou a cozinha para dentro de milhões de lares, popularizando o formato de programas de culinária que vemos até hoje e tornou frugal o que era nobre! E para se tornar referência não fez uso de discursos feministas e nem de sutiãs brûlée… ela usou a arte de cozinhar como bastião e arma de cultura!
E assim, e muitos outros fatos e outros cozinheiros, foi criado tudo que hoje chamam de inovação! E muito do que vemos hoje são inovadores-bebês que continuam presos na ideia do cordão umbilical e se julgam inovadores acreditando que não existe vida após o nascimento e que não existia alta gastronomia antes do seu nascimento!
… e existe!
… e não é invenção dos premiados do Michelin!
Bom apetite!
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Sobre o autor
André Vasconcelos
Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!
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