Viés de Confirmação, por Denise Evangelista Vieira
Experiências, emoções e crenças funcionam como filtros que podem mudar nossa percepção sobre fatos e histórias
Recentemente, ouvindo um podcast, a entrevistada deu um testemunho sobre a riqueza que é fazer parte de um clube do livro. Dizia que ficava muito impressionada com o fato de que algumas pessoas viam realçados certos aspectos de uma obra, enquanto, para outras, o que lhes chamava atenção eram questões muito diferentes.
O conceito de polissemia se refere à característica, de uma palavra ou de uma obra literária ou artística, de possuir diferentes significados e de ser passível de distintas interpretações.
Estudos sobre a percepção indicam que o que enxergamos e as interpretações que fazemos de um mesmo fato, de uma mesma realidade ou de uma mesma obra, variam de pessoa para pessoa, porque a nossa percepção, assim como a nossa atenção, possuem lentes diferentes. Essas lentes, ou esses filtros, estão relacionados aos conhecimentos que possuímos, às nossas experiências passadas, e ao que passamos a acreditar a partir disso tudo. Também permeiam a nossa percepção, o nosso estado emocional e o nosso humor, que pode variar de um dia para o outro; assim como, o modo como nos posicionamos, com nossos padrões perceptivos e de comportamento diante da vida.
Para compreender essas diferenças de interpretação considera-se, também, o contexto e o enquadramento no qual nos é apresentado determinado fato ou obra. Ou seja, de que maneira a história ou a obra é exposta, seus atributos estéticos, em que momento da nossa vida e do cenário sócio - político ela se revela. Assim há uma intersecção entre a obra, o fato e quem os observa.
Nesse caldo há um outro ingrediente, muito interessante, denominado de viés de confirmação. Trata-se de uma tendência, compartilhada por todos nós, de buscar, de interpretar e mesmo de lembrar acontecimentos e informações que confirmem as nossas crenças, nossas ideias, nossas escolhas, e que apoiem nossos pontos de vista. O “viés de confirmação”, é essa intencionalidade pré-reflexiva que nos faz valorizar certos aspectos da realidade, desqualificar ou ignorar, completamente, outros. É como se a nossa percepção trabalhasse para validar a ideia de quem somos, nossas escolhas e o que pensamos – o que sugere que nossa percepção busca, entre outras coisas, ampliar a nossa sensação de pertencimento, de dignidade e, em última instância, de valor.
A minissérie Disclaimer, do diretor Alfonso Cuarón, é uma tese neste sentido. A sucessão de episódios demonstra como vamos selecionando e costurando imagens que criam uma determinada história, possível de ser aceita por nós. A personagem central Catherine, interpretada pela atriz Cate Blanchett (e em sua versão jovem, por Leila George) é uma documentarista premiada. Um dado que oferece ao espectador um perfil profissional da personagem, e que sugere, claramente, ser alguém que se dedica a fazer enquadramentos e a buscar diferentes ângulos para contar histórias reais, e é reconhecida por isso. Um detalhe que pode servir como contraponto à sua vulnerabilidade como mulher, nascida no século XX, quando a sua própria vida é posta em cheque com a publicação de um livro.
Disclaimer favorece várias reflexões relacionadas a questões de gênero, sobre o espaço que damos ou não para a dúvida, sobre como nos contentamos rapidamente com determinadas narrativas e nos apressamos em fazer julgamentos.
Esse “viés de confirmação” atua constantemente na nossa interpretação do mundo, quando nos fechamos ao diálogo e nos prendemos à convicções, como se estivéssemos, nós mesmos, num tribunal fazendo, incansavelmente, a nossa própria defesa. A minissérie nos aponta como o não saber, a dúvida, a busca por mais elementos é sentida por nós como ameaçadora..
A pergunta que fica é: por quê? Talvez, um dos fatores de maior peso seja a valorização que damos, ao menos no Ocidente, aos resultados, mais do que ao processo de aprendizagem. Na família e na escola, a criança é cobrada e é premiada pelo que demonstra ter aprendido e não por suas buscas e esforços. Aquele que não consegue chegar ao que é esperado é desqualificado. Abrir-se para a dúvida e reconhecer o não saber não diminui o valor de ninguém, ao contrário, lança o buscador na aventura do contínuo e nunca acabado processo de conhecer.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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