Uso do celular é associado à compressão do nervo ulnar
Formigamento recorrente no mindinho e no dedo anelar pode indicar compressão nervosa; diagnóstico precoce ajuda a evitar complicações
Você está deitado no sofá, celular na mão e cotovelo dobrado. Depois de algum tempo, o dedo mindinho começa a formigar. Você estica o braço, mexe a mão, a sensação desaparece e a vida segue. Parece algo banal, mas, quando isso se repete, vale prestar atenção.
O formigamento no mindinho e em parte do dedo anelar corresponde ao território do nervo ulnar, responsável pelo famoso “choquinho” que sentimos ao bater a parte interna do cotovelo. Hábitos como passar horas com o celular na mão e o braço dobrado, trabalhar com o cotovelo apoiado na mesa ou dormir com o braço atrás da cabeça podem manter esse nervo sob tensão ou compressão prolongada.
A relação entre o smartphone e o problema também aparece na literatura científica. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Clinical Medicine comparou 50 pacientes com síndrome do túnel cubital confirmada por exame e submetidos à cirurgia com outras 50 pessoas sem sinais da neuropatia. Os pesquisadores encontraram associação entre determinados padrões de uso do celular e a compressão do nervo ulnar no cotovelo, mas ressaltaram que outros fatores também podem contribuir para o quadro.
Para o ortopedista Dr. Leonardo Zanesco, especialista em ombro e cotovelo, o primeiro sinal costuma ser justamente aquele que muita gente ignora. “O formigamento que vai e volta é o aviso. Quando a dormência ou a fraqueza ficam constantes, o nervo já está sofrendo de verdade e o tratamento não deve ser adiado.”
O celular não é o único vilão
O problema não é simplesmente usar o celular, mas a posição mantida durante o uso. O nervo ulnar passa pela região interna do cotovelo e pode ficar tensionado quando o braço permanece flexionado por muito tempo.
“O nervo ulnar não foi feito para passar horas com o cotovelo totalmente dobrado. O celular colado no rosto e a noite inteira com o braço dobrado por trás da cabeça são os dois grandes inimigos modernos desse nervo”, explica Zanesco.
No computador, apoiar a parte interna do cotovelo sobre a mesa ou o braço da cadeira pode provocar compressão direta. Dormir repetidamente com o cotovelo muito flexionado também prolonga a tensão durante várias horas.
Um estudo publicado em 2024 na revista Cureus avaliou 30 participantes saudáveis, de 20 a 25 anos, e constatou que 70% relataram formigamento ou dormência durante o uso do celular. A amostra é pequena e não permite concluir que essa proporção de usuários tenha problemas no nervo ulnar. Os pesquisadores também observaram associação entre maior tempo de uso e alterações em parâmetros de condução nervosa.
Quando o formigamento deixa de ser banal
No início, os sintomas podem desaparecer quando a pessoa muda de posição, dando a impressão de que não há motivo para preocupação. O alerta aumenta quando a dormência se torna persistente ou surgem perda de força e dificuldade para realizar movimentos precisos com a mão.
“Nem todo dano ao nervo tem volta. O melhor momento para tratar é enquanto o formigamento ainda vai e volta. Depois que a fraqueza se instala, parte da função pode ser perdida para sempre”, alerta o ortopedista.
A recuperação de um nervo lesionado pode ser lenta e imprevisível. Por isso, esperar que os sintomas se tornem insuportáveis pode reduzir as chances de um tratamento mais simples.
Diagnóstico precoce pode evitar cirurgia
Sentir formigamento ocasional não significa necessariamente que será preciso operar. Quando o problema é identificado no início, o tratamento costuma envolver mudanças de hábitos e fisioterapia, com exercícios específicos que favorecem o deslizamento do nervo ao longo de seu trajeto.
“Descoberto cedo, o problema costuma se resolver sem bisturi: exercícios que fazem o nervo deslizar e pequenos ajustes de hábito mudam completamente a evolução do quadro”, afirma Zanesco.
Entre as medidas recomendadas estão evitar manter o cotovelo muito dobrado por períodos prolongados, não apoiar continuamente sua parte interna e observar a posição dos braços durante o sono.
Quando a cirurgia é necessária?
A cirurgia pode ser considerada quando o tratamento conservador, realizado adequadamente por alguns meses, não apresenta resultados satisfatórios. O tempo de espera depende da gravidade dos sintomas. Em casos de perda de força, a avaliação deve ser mais urgente.
No procedimento descrito pelo especialista, o nervo é descomprimido e reposicionado para a região anterior do cotovelo, reduzindo a tensão provocada pelos movimentos repetidos de flexão.
A cirurgia pode aliviar os sintomas e impedir a progressão do problema, mas a recuperação depende do grau de comprometimento do nervo. “A cirurgia alivia a dor e freia a doença. Mas quanto de função o nervo vai recuperar, nenhum cirurgião pode prometer e é exatamente por isso que esperar demais é a pior estratégia.”
Pequenas mudanças ajudam a proteger o nervo
Não é necessário abandonar o celular, mas alguns ajustes podem reduzir a sobrecarga. Afastar um pouco o aparelho do rosto, alternar a mão utilizada e evitar manter o cotovelo muito flexionado por longos períodos são medidas simples.
No computador, cadeira e teclado devem permitir uma posição confortável, sem pressão constante sobre a parte interna do cotovelo. Também é importante observar a postura ao usar o celular no sofá ou na cama.
“Afastar o celular do rosto, alternar a mão que segura o aparelho e ajustar cadeira e teclado: quando o quadro é leve, essas mudanças simples podem resolver 100% do problema”, orienta o especialista.
O objetivo não é transformar o celular em vilão, mas prestar atenção aos sinais do corpo. Se o mindinho começar a formigar repetidamente, vale procurar avaliação médica para identificar a causa e evitar que o problema avance.
Da redação
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