TDC transforma aparência em obsessão diária
Condição vai além da insegurança e pode comprometer relações, trabalho, rotina e saúde mental
O transtorno dismórfico corporal (TDC) ainda costuma ser confundido com vaidade ou insegurança. Na prática clínica, porém, envolve um sofrimento psíquico que ultrapassa a preocupação cotidiana com a imagem. A pessoa passa a se fixar em supostos defeitos na aparência, muitas vezes inexistentes ou pouco perceptíveis para os outros, e organiza parte da rotina em torno dessa percepção.
Entre os sinais estão a checagem constante no espelho, comparação com outras pessoas, busca por validação, tentativa de esconder partes do corpo, uso de roupas, maquiagem ou ângulos para camuflar incômodos e procura recorrente por procedimentos estéticos. Em muitos casos, o alívio é temporário e a angústia acaba direcionada a outra região do corpo.
Para a psicóloga Maria Klien, o problema não está na aparência em si, mas na forma como a mente passa a interpretar o corpo. “No transtorno dismórfico corporal, o espelho deixa de ser apenas uma superfície de reconhecimento e passa a funcionar como um campo de ameaça. A pessoa não se olha para se ver, mas para confirmar aquilo que teme encontrar. Esse mecanismo produz sofrimento, isolamento e uma sensação de inadequação que não se resolve com elogios, filtros ou intervenções estéticas”, afirmou.
O TDC também pode comprometer relações, trabalho e vida social. A pessoa pode cancelar encontros, evitar fotografias, recusar convites, faltar ao trabalho ou limitar sua circulação por medo de ser observada. O corpo passa a ser percebido como motivo de exposição.
A literatura científica aponta que o transtorno envolve alterações na forma como algumas pessoas processam informações visuais. Pesquisas conduzidas por Jamie Feusner, professor de psiquiatria da Universidade de Toronto, investigam a relação entre percepção global, atenção a detalhes e funcionamento cerebral em pessoas com TDC. Estudos publicados em 2007 e 2022 analisaram, respectivamente, o processamento visual de faces e conexões cerebrais relacionadas à percepção global no transtorno.
“Esses achados ajudam a retirar o tema do campo do julgamento moral. Não se trata de alguém que quer chamar atenção ou exagera. Há uma experiência interna de distorção, medo e vigilância. Quando a pessoa se fixa em um detalhe, pode perder a percepção do conjunto, e essa perda altera a forma como se reconhece diante de si mesma”, explicou a psicóloga.
Estimativas da International OCD Foundation indicam que o TDC afeta entre 1,7% e 2,9% da população geral. O quadro pode ser subdiagnosticado porque muitas pessoas sentem vergonha de relatar os sintomas. A condição também aparece em proporções maiores entre pacientes que procuram dermatologia, cirurgia plástica, odontologia estética e outros serviços relacionados à imagem corporal.
O diagnóstico não depende apenas de um incômodo com alguma parte do corpo. Segundo os critérios do DSM-5-TR, o transtorno envolve preocupação com um defeito percebido na aparência, comportamentos repetitivos ou atos mentais relacionados a essa preocupação e prejuízo na vida social, profissional ou pessoal. O TDC também pode estar associado à busca por intervenções desnecessárias e, em alguns casos, à ideação suicida.
Maria Klien ressalta que a procura por ajuda não deve acontecer apenas quando a rotina entra em colapso. “Quando a imagem passa a comandar decisões, relações, horários, roupas, saídas e silêncios, já existe um pedido de cuidado. Às vezes, o sofrimento aparece como uma vida inteira organizada para esconder uma parte do corpo”, afirmou.
Redes sociais, filtros e a cultura de comparação permanente também podem ampliar a vigilância sobre a aparência. Embora não expliquem sozinhos o transtorno, esses fatores podem intensificar cobranças e reforçar ciclos de validação.
“O tratamento começa quando a pessoa encontra um espaço onde não precisa provar que sofre. O objetivo não é convencê-la, de forma rasa, de que está tudo bem com sua aparência, mas ajudá-la a reconstruir uma relação menos persecutória com o próprio corpo”, pontuou Maria Klien.
O acompanhamento psicológico, associado à avaliação psiquiátrica quando necessário, pode ajudar a reduzir comportamentos compulsivos e reorganizar padrões de pensamento. Em situações de ideação suicida, automutilação ou risco imediato, é fundamental buscar atendimento de urgência em serviços de saúde ou apoio emergencial.
Da redação
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