“Os sapos”, “O Abaporu” e a política nacional, por Luzia Almeida
A literatura e a arte modernistas ajudam a refletir sobre os caminhos da política brasileira
A ruptura que aconteceu entre o Parnasianismo e o Modernismo no século XX destacou-se, principalmente, pela poesia de Manuel Bandeira com a metáfora dos sapos e pela genialidade de Tarsila do Amaral com “O Abaporu”. E entender hoje o processo literário e artístico da Semana de Arte Moderna que aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo em 1922 é necessário e urgente.
Manuel Bandeira desconstrói toda a estética parnasiana com um único poema: “Enfunando os papos, / Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra.”. A metáfora dos sapos, considerando os poetas parnasianos é incrível à medida que Bandeira apresenta a repetição proposta pela métrica parnasiana como aguada, sem emoção e sem vida: “Em ronco que aterra, / Berra o sapo-boi: / — “Meu pai foi à guerra!” / — “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”. Para os parnasianos ir à guerra era um arrogante apego ao passado, mas para os poetas modernistas era uma canseira. O passado já não tinha a vitalidade para a construção de uma identidade nacional, o Brasil se instalava nas letras a partir de uma voz que pretendia se libertar das amarras da métrica e de um orgulho sem sentido: “Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos.”. Para os parnasianos, a rima estava acima da emoção, por isso muitos poemas eram apenas descritivos, totalmente sem vida.
O ser parnasiano era um ser engessado e este engessamento era algo aplaudido por eles, mas a literatura é dinâmica como as águas de um rio, sim, muitas águas fazem maresia e, numa dessas maresias Oswald de Andrade pensou no Brasil na contramão desse engessamento e, com versos livres, denunciou o aculturamento do colonizador: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! / Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português.”. A poesia de Oswald de Andrade toma forma e contornos nacionais quando os próprios brasileiros estão vestindo seus irmãos nacionais. E, mesmo que não haja chuva, o mês de outubro vem chegando com grandes trovoadas e neste, “salve-se quem puder” que a nossa política propõe, parece, infelizmente, que ainda vai prevalecer a lei do mais forte ou da melhor campanha.
Nesse sentido, “O Abaporu” — que em tupi quer dizer homem que come gente — de Tarcila do Amaral, serviria como metáfora para a atual política brasileira. Não se pode pensar em literatura divorciada da política, porque a literatura e a arte são reflexos do contexto histórico-social de uma nação. Lembre-se de Kafka (“A metamorfose”) e da crise existencial de Gregor Samsa, lembre-se de Zola (“Germinal”) e da exploração vivida por Étienne Lantier e pelos mineiros franceses; lembre-se de Graciliano Ramos (“Vidas secas”) e de um Fabiano analfabeto e com sede. “O Abaporu”, de Tarcila do Amaral, encaixa-se hoje no cenário nacional quando os eleitores estão prestes a serem comidos por promessas que nunca se cumprirão.
Antes que outubro apareça, precisamos desaparecer com nossa preguiça intelectual, precisamos de um novo teatro e de uma nova semana de arte para rompermos com esse passado vicioso de “cabresto” e de “toma lá, dá cá”, mas onde seria este teatro? Em Brasília?
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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