“Os Fofoqueiros”, por Denise Evangelista Vieira
Mobilização nas redes reuniu milhões de pessoas em torno da circulação de informações e do fortalecimento do diálogo democrático
A vitória da democracia brasileira, no último dia 25, se deve em grande parte a uma turma de “fofoqueiros”. Mas não de fofoqueiros comuns. Esses “fofoqueiros”, a quem me refiro, são gente que não se satisfaz com trocas superficiais e nem curte destilar, nas reuniões sociais ou pelas redes, seus preconceitos. Não. Os “fofoqueiros” dos quais falo aqui são pessoas de todos os cantos do Brasil e de fora dele, que gostam de histórias, mas não se contentam com histórias mal contadas. É um grupo gigantesco de gente curiosa, inquieta, que compreende o poder das palavras.
Nessas eleições no Brasil essa gente se mobilizou para que a informação circulasse de tal modo que pudesse atingir muitas pessoas e chegasse até um grupo determinado. Grupo que se formou com o reaparecimento da extrema-direita no Brasil. Pessoas que se alimentaram, pelas redes sociais, de cortes e recortes prontos, disponibilizados, sempre, pelas mesmas fontes. Um grupo que se sentiu importante e responsável pelos destinos do país. Mas não eram como os vitoriosos “fofoqueiros” desse segundo turno. A turma de agora é um povo que gosta de histórias bem contadas, com começo, meio e fim. Gosta de saber quem é quem em cada trama e o que ela representa. Por isso ama a literatura, a música, o teatro e o cinema. Essa turma de agora gosta de profundidade, não tem vergonha de não saber e, exatamente por isso, vai atrás de informações consistentes para formar sua própria opinião. A turma que se organizou agora, também através das redes, é feita de um pessoal inconformado, plural, diverso e sensível.
Capitaneados pelo deputado federal reeleito, André Janones, essa turma reuniu mais de dez milhões de pessoas, a fim de potencializar informações e compartilhá-las com os demais compatriotas, que estavam, até então, fechados em suas próprias bolhas, como elas mesmas. Soldados de todos os cantos do Brasil, de todas as profissões e classes sociais, se puseram em campo dando testemunhos, revisitando notícias, dando aulas, divulgando informações. Pessoas que disponibilizaram seu tempo para trazer dados e provocar reflexões. Dentro desse grupo gigante está também o pessoal do CALMA URGENTE. Com o apoio de distribuição, dos igualmente “fofoqueiros”, ICL, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil, esse grupo de pessoas talentosas produziu, em Revelando Brasil, documentários sobre o cenário da política brasileira contemporânea e os disponibilizou gratuitamente no YouTube. Assim também trabalharam por séculos, incansavelmente, os trovadores, sem os quais, talvez, a Idade Média não teria sido superada. Essa vitória de virada, se deve a todas as pessoas que foram ao encontro, puxaram conversa e manifestações, como os estudantes da Universidade Federal Fluminense, de Niterói – os primeiros a reagir depois do choque do primeiro turno.
Com uma diferença de mais de 4 milhões de votos, o Brasil continuará sendo de todos os brasileiros e a nossa democracia poderá ser aprofundada, com o exercício de uma nova cidadania. Há muitas informações disponíveis, entretanto, o conhecimento só pode avançar se ele for apropriado por cada um e se for compartilhado. O conhecimento só encontra sentido se não nos recusarmos a querer saber e se passarmos a apreciar histórias bem contadas. Aqui também entram as agências de jornalismo investigativo, um jornalismo que não tem afinidade com a superficialidade dos fatos, não se apressa em fazer análises e que pode subsidiar a imprensa responsável. Por outro lado, se optarmos em nos agarrar à desinformação e à mentira, estaremos escolhendo andar numa trilha mal sinalizada, que pode nos levar a lugares perigosos sem que percebamos.
Esses muitos “fofoqueiros”, que na verdade são brasileiros se comunicando de um jeito novo, pelo que sei estão dispostos a continuar trocando informações, falando e ouvindo, porque essa gente, ou parte dela, esqueci de dizer, também é uma gente que se propõe a ouvir e a aprender com o diferente.
A democracia brasileira só é uma DEMOCRACIA quando luta para que caibam todos os brasileiros, e seus defensores são todos os que se dispõem a potencializar o que há de mais bonito em cada um de nós. A extrema-direita, ao contrário, não nos trouxe nada de bom e nem poderia – como não trouxe à Alemanha e ao mundo nos anos 30 e 40 do século passado. Por isso, cabe a todos nós restabelecermos a capacidade de diálogo para superarmos essa divisão criada por interesses estranhos à vocação humana. Nossa humanidade requer acolher todas as pessoas, em sua diversidade. Cabe a cada um de nós dar o primeiro passo, como fizeram os nossos, também mestres, estudantes da Universidade Federal Fluminense.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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